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Memórias de Seymour Hersh mostram o tamanho da encrenca

Livro de memórias do repórter Seymour Hersh, recentemente lançado no Brasil, é destinado aos que pretendem perder resquícios de inocência e dar uma olhada interna no mecanismo da barbárie

Antônio Augusto

Rio de Janeiro (Brasil)

Seymour Hersh, nascido em 1937, é conhecido como o principal “repórter investigativo” dos Estados Unidos.

O fato desta expressão, “repórter investigativo”, não ser considerada principalmente um pleonasmo mostra a inocuidade da imprensa em geral, sua docilidade diante do “status quo”. Não pode haver repórter, a alma da atividade jornalística, que não seja por natureza “investigativo”.

Seu livro “Repórter: Memórias”, publicado nos EUA no ano passado, chegou, em 2019, ao Brasil, editado pela editora Todavia (R$74,90), com tradução de Antônio Xerxenesky.

Hersh começou sua carreira, no final dos anos 50, como foca de inexpressivos jornais de bairro de Chicago.

No meio dos anos 60, já na AP, tornou-se amigo do jornalista independente I. F. Stone, um antimacarthista de sempre e crítico das mentiras reiteradas do poder da Casa Branca.

A notoriedade definitiva de Hersh veio por desencavar o Massacre de My Lai, ocorrido em 16 de março de 1968, quando uma companhia do Exército norte-americano cometeu genocídio contra centenas de civis, a quase totalidade composta de mulheres e crianças.

A primeira matéria de Hersh sobre o assunto foi vendida por uma pequena agência de notícias, o Dispatch News Service, para alguns jornais secundários.

Ele oferecera a reportagem anteriormente para as revistas Life e Look e recebeu recusas. Sua única tentativa inicial além dessas, e do agenciamento do Dispatch News, foi com o Washington Post. O que parecia um sucesso com o jornal - rival do New York Times - depois notabilizado pelo escândalo Watergate, redundou em fracasso.

Hersh conta a reação de Ben Bradlee, o editor do Washington Post: “Cacete... Seiscentos repórteres trabalham para mim e isso vem de fora. Pode publicar. Tem cara de verdade”.

Mas entre intenção e gesto, Hersh narra o que se seguiu: “O ‘Post’ reescreveu por completo a minha matéria, acrescentando que o Pentágono negava tudo, entre outras coisas, e colocou o artigo na primeira página. Foi um começo ignóbil, e piorou quando Peter Braestrup, que tinha sido designado para reescrever a minha matéria, me acordou pouco antes do nascer do sol com um telefonema para dizer que eu era um mentiroso filho da puta: de jeito nenhum que um soldado [o tenente William Calley Jr.] seria responsável pelo assassinato de 109 civis”.

Esta era a acusação contra Calley, que o Exército fazia tudo por abafar, embora o número de chacinados tenha sido de 567 mulheres, crianças e homens.

Condenado à prisão perpétua, o tenente cumpriu 3 anos e meio de pena, uma prisão domiciliar em Fort Benning, na Geórgia, sendo sempre aliviado e libertado graças à influência do inqualificável presidente Richard Nixon, que renunciou em 9 de agosto de 1974 para fugir ao inevitável “impeachment”.

Decepcionado com a pasteurização promovida na sua reportagem pelo Washington Post, Hersh concluiu: “Logo aprendi que a história de My Lai deixava as pessoas irracionais”.

Tamanho da encrenca

Pareceria que My Lai seria episódio extremo no contexto do Vietnã. Nada disso, houve diversos massacres semelhantes.

“A matéria que mais me perturbou” – na sequência das reportagens sobre My Lai, feitas por Hesch, ele relata, “foi a escrita por um correspondente estrangeiro experiente e competente da AP, que deu muitos detalhes de um incidente que presenciara em julho de 1965, poucos dias depois de um contingente de marines chegar às praias de Da Nang, seguindo ordens do presidente Johnson. A matéria da AP relatava como alguns marines entraram num frenesi e mataram grupos de civis que tinham se refugiado numa caverna. Um marine disse: ‘Mata todo mundo, não quero ver ninguém se mexendo’".

Pergunta para os incautos: por que este correspondente da AP se calou, criminosamente, durante quase 5 anos?

Os 60 anos de carreira de Hersh envolveram muitas reportagens e episódios essenciais além de My Lai, todos contados em detalhes nas suas memórias. Que vão desde os experimentos de guerra biológica promovidos pelos EUA, à desestabilização do governo Allende, Watergate, as invasões de Granada e do Panamá, os Esquadrões da Morte em El Salvador, as prisões secretas da CIA mundo afora, a espionagem dessa agência terrorista contra centenas de milhares de norte-americanos críticos das políticas de Washington, a infame guerra do Iraque e a tortura generalizada contra iraquianos com cooperação israelense (a prisão de Abu Ghraib foi a ponta do iceberg), e mais, e mais, e mais...

Nunca se desceu tão baixo no desrespeito completo aos povos, à integridade do ser humano – à exceção do colonialismo, dos regimes fascistas, entre os quais o próprio nazismo - como nos governos Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Reagan, Bush pai e filho, Obama, e, quando se trata de superlativização do péssimo, o atual governo de Trump.

São devastadores os retratos, traçados por Hersh, de figuras como Kissinger, que ofereceu simultaneamente seus serviços na campanha eleitoral de 1968 a Nixon e Humphrey (candidatos republicano e democrata, respectivamente), desde que ele se tornasse o nº 1 da política externa; Dick Cheney; Donald Rumsfeld; e caterva.

Kissinger é descrito, corretamente, como um mentiroso que mente com a mesma facilidade que respira.

O tamanho da encrenca encontra sua correspondência na imprensa.

Com toda a notoriedade, mesmo como repórter especial do New York Times, e da revista New Yorker, Hersh jamais deixou de ter graves problemas internamente nesses periódicos.

Evidentemente se os super-ricos, e o império norte-americano têm tanto controle sobre o mundo, não é sem a entusiasta e decisiva cooperação da imprensa do grande capital.

O que Noam Chomsky disse de “The price of power”, o livro de Hersh sobre Kissinger, publicado em junho de 1983, pode se estender aos dez outros livros do jornalista, e à sua postura como repórter: “É realmente fabuloso, tirando o fato de que você se sente como se estivesse rastejando pelo esgoto. Define um novo padrão para análises perspicazes e abrangentes sobre como a política externa é definida: uma obra difícil de ser equiparada”.

Aos que pretendem perder resquícios de inocência e dar uma olhada interna no mecanismo da barbárie, bem como aos interessados em jornalismo, atividade que as televisões a cabo “all news” fazem tudo por destruir, ler este livro de Hersh, “Repórter: Memórias”, é riscar um fósforo no meio das trevas.

(Divulgação) 








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