Experiências argentinas de comunicação popular engrossam luta em defesa dos direitos humanos na América Latina

Veículos, coletivos e cooperativas como La Garganta Poderosa, Lavaca, Emergentes, Marcha Notícias, Agencia Paco Urondo e Cosecha Roja oferecem conteúdos alternativos aos apresentados pelos meios hegemônicos de comunicação

Patrícia Paixão

São Paulo (Brasil)

A concentração e oligopolização das empresas de mídia é uma realidade em diversos países do mundo. Atualmente, nos EUA, conforme estudo feito pelo jornalista de origem armênia Ben H. Bagdikian, publicado no livro O monopólio da mídia (2018)cinco conglomerados jornalísticos, de alcance global, nos moldes de um cartel (Time Warner, Walt Disney Company, News Corporation, Viacom e Bertelsmann), são proprietários da maior parte de jornais, revistas, editoras de livros, estúdios cinematográficos e emissoras de rádio e TV. Na América Latina o cenário é semelhante. Diversas nações da região, incluindo o Brasil, vivem um contexto de concentração da propriedade dos meios de comunicação nas mãos de poucos e poderosos donos, que nem sempre têm se comprometido com a defesa dos direitos humanos e, muitas vezes, atuam de forma, inclusive, contrária a esses direitos. Não raro observamos coberturas com tons racistas, machistas, homofóbicos e sintonizados exclusivamente com os interesses da elite, em consonância com o pensamento de seus proprietários (a defesa que esses meios fazem nesse momento da reforma da previdência, e que fizeram há alguns anos da reforma trabalhista, é uma prova disso)

Essa problemática e seus efeitos no fluxo de informação e na organização política da sociedade é tão grave que virou objeto de estudo da Federación Internacional de Periodistas (IFJ, Federação Internacional dos Jornalistas). De 2016, a pesquisa intitulada La Concentración de Medios em América Latina: su impacto em el derecho a la comunicación (Concentração de Meios na América Latina: seu impacto no direito à comunicação) aponta, dentre os principais grupos de comunicação oligopolistas latino-americanos, a Albavisión, fundado em 1987 pelo empresário mexicano-guatemalteco Remigio Ángel González; a Televisa, fundada em 1930, pela família do empresário mexicano Emilio Azcárraga Vidaurreta; Cisneros, fundada em 1929 pelo empresário da área de transportes Diego Cisneros; Globo, fundado em 1911 com o jornal A Noite e pertencente à família do falecido empresário Roberto Marinho; Clarín, surgido em 1945, ano da fundação do jornal Clarín de Buenos Aires, criado pelo empresário argentino Roberto Noble); Copesa (Consorcio Periodístico de Chile), fundado em 1950 pela família Picó Cañas, com o lançamento do diário La Tercera; e Ardilla Lülle, fundado em 1951 pelo empresário colombiano Carlos Ardila Lülle.

Como atender a pluralidade, diversidade e os direitos humanos de uma região tão rica e múltipla em termos étnicos e culturais, em um cenário em que a visão de mundo e os interesses desses grupos prevalecem na produção de conteúdo? Como garantir a plena democracia das nações latino-americanas, permitindo a participação efetiva dos diferentes segmentos da sociedade? É o que questionam os estudiosos do direito à comunicação diante desse contexto.

Amenizando esse quadro, é cada vez mais vibrante no Brasil e em outros países da região a atuação de sites, coletivos jornalísticos e  iniciativas similares, que oferecem narrativas alternativas àquelas colocadas pela grande imprensa. Estive há duas semanas em Buenos Aires para minha pesquisa de doutorado (sobre a imprensa contra hegemônica no Brasil e na Argentina, no Programa Integração da América latina, da Universidade de São Paulo - USP), e pude entrevistar jornalistas que atuam nestas iniciativas: os colegas Fidel Ruiz, de La Garganta Poderosa; Natalia Arenas, da Cosecha Roja; Enrique De la Calle, da Agencia Paco Urondo; Camila Parodi, Lau Salomé e Ignacio Marchinido, da Marcha Notícias; Lucas Pedulla, da cooperativa Lavaca, e Carlos Sainz, do coletivo Emergentes.  

Tal como no Brasil, os donos da grande mídia argentina pertencem a famílias ricas e possuem relações estreitas com poderosos setores econômicos. Suas visões de mundo e interesses são refletidos nas linhas editoriais dos veículos. Assim como a população negra é retratada por aqui de maneira muitas vezes estigmatizada e preconceituosa, lá quem sofre é a população mapuche, povo indígena que foi quase todo dizimado pelos colonizadores, mas que resiste no sudoeste da Argentina, lutando pelo direito aos seus territórios. Nem sempre as explorações e atos de violência cometidos contra esse povo são noticiados pelos grandes veículos. Aliás, as histórias de Buenos Aires costumam ser mais contadas do que as do restante do país, e a população pobre que habita em comunidades, tal como no Brasil, costuma ser criminalizada, apontada como responsável por questões relacionadas à violência. No que se refere aos ataques contra a mulher, igualmente a cobertura da mídia hegemônica argentina deixa a desejar, uma vez que nem todos os casos são reportados e algumas abordagens culpabilizam a figura feminina. 

Nossos irmãos argentinos tiveram a sorte de contar com uma regulamentação da mídia (a Lei 26.522 de Serviços de Comunicação Audiovisual, popularmente conhecida como “Ley de medios”, aprovada em 2009, no governo Cristina Kirchner), que oportunizou verba para veículos de comunicação pequenos, propiciando a pluralidade, e brecou, pelo menos por um tempo, a concentração de poderosos grupos, como o Clarín. Com a chegada do presidente Maurício Macri ao poder em 2015, esse freio foi quebrado e hoje o grupo Clarín avançou na concentração midiática (em 2016, o grupo comprou o total do pacote acionário da Nextel, quarta empresa de telefonia móvel da Argentina). O discurso dos grandes meios lá é o mesmo que o daqui: argumentam que regulamentação da mídia é uma ameaça à liberdade de imprensa. Ignoram que, na verdade, hoje vivemos um cenário de “liberdade de empresa”, com esses grupos ditando seus olhares, e fabricando consensos em torno de questões estratégias. Os veículos contra hegemônicos são, portanto, a contrapartida necessária. Acompanhe a seguir um pouco da conversa que tive com representantes desses veículos.

La Garganta Poderosa

O coletivo La Poderosa defende os interesses da Villa Zavaleta, comunidade localizada próxima aos principais pontos turísticos de Buenos Aires, mas comumente ignorada pela grande mídia, a não ser quando o objetivo é relatar casos de violência. A comunidade sofre constantemente abusos cometidos pelas forças policiais. Criada em 2004, no contexto dos efeitos perversos da crise econômica argentina de 2001, que afetou a população em geral, mais especialmente os mais pobres, La Poderosa recebeu esse nome em homenagem à motocicleta que Che Guevara usou para percorrer a América Latina e também por representar a ideia de “poder” (a força popular que a organização almeja). O coletivo começou suas atividades a partir de partidas de futebol realizadas de forma mista entre meninos e meninas da Villa Zavaleta. “Chamamos inicialmente nosso movimento de ‘futebol popular’, já que se chamássemos de ‘futebol villero’ [futebol da favela] teríamos problema para atrair os moradores da comunidade. A denominação ‘villero’ é pejorativa por conta da forma negativa como os meios de comunicação cobrem as villas [favelas]”, explica Fidel Ruiz, membro de La Poderosa. As partidas eram realizadas sem um juiz, para que os próprios participantes pudessem pensar quais seriam suas regras. O companheiro ou companheira que chamasse o colega de ‘boliviano’, por exemplo, como forma de xingamento (refletindo um preconceito contra os imigrantes que já existia dentro da comunidade, por conta da cobertura da mídia), era criticado. “Nós, latino-americanos, vivemos os mesmos problemas, temos os mesmos sonhos. Fomos mostrando que todos deveriam estar unidos”. 

Revista La Garganta é uma das referências no jornalismo independente na ArgentinaDe acordo com Ruiz, a ideia foi usar o futebol como espaço de participação popular. “O esporte é um espaço de apoio, é um meio de transmitir valores, de lutar”, argumenta. A organização foi mostrando aos moradores da Villa Zavaleta que eram eles mesmos que deveriam pensar em formas de melhorar suas condições de vida, cobrando o Estado sim, mas pensando em alternativas próprias. “Criamos La Poderosa por uma necessidade de transmitir uma política diferente de território, para ser a vanguarda da luta da comunidade, para que não venha alguém de fora dizer como devemos lutar”, conta Ruiz.

Ele salienta que hoje a organização conta com várias frentes: possui uma casa que defende os direitos das mulheres; conta com restaurantes populares; uma coordenação que atua para fiscalizar as forças de segurança, que comumente cometem abusos na comunidade; uma coordenação que organiza ações culturais, dentre outras iniciativas. “Há também uma luta interna pela qualidade da educação. Batalhamos para empoderar a educação popular e transmitir valores que muitas vezes a escola no sistema de ensino educacional não transmite”, ressalta.  A revista do coletivo (chamada La Garganta Poderosa), além de abordar ações da comunidade, conta com uma abordagem mais ampla, trazendo com frequência temáticas relacionadas aos direitos humanos. A organização conquistou um espaço na TV e é muito respeitada por outros veículos que estão no front da comunicação contra hegemônica argentina.

Cosecha Roja

Cosecha Roja faz uma cobertura sobre segurança pública e direitos humanos, e também abraça o feminismo e a defesa da população LGBTQI. “O veículo surgiu em 2010 como uma rede de jornalistas que cobriam notícias judiciais e policiais, com foco em direitos humanos, considerando que esse tipo de cobertura na grande mídia costuma ser marcada por muito sensacionalismo e ter um enfoque pouco humanizado. A partir de 2015, com toda mobilização feminista na Argentina, com movimentos como ‘Ni Una Menos’, passamos a cobrir de forma mais intensa a perspectiva de gênero e a nos identificar fortemente com as lutas feministas e da comunidade LGBTQI, até porque os casos de violência contra a mulher e os crimes de ódio em geral encaixam-se na agenda da segurança pública e dos direitos humanos”, explica Natália Arenas, editora da Cosecha.

Reprodução/Facebook
Revista Mu, do coletivo Lavaca: inciativas independentes de jornalismo na Argentina

Dentre os criadores da rede estão jornalistas que também são reconhecidos no meio acadêmico argentino, como Cristian Alarcón, que é professor da Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social e diretor da Especialização em Jornalismo Cultural da Universidade Nacional de La Plata. Ele é especialista em literatura de não ficção na América Latina. “Portanto desde o início também temos o objetivo de sermos um órgão de formação de jornalistas, contribuindo para que repórteres possam realizar melhor a cobertura de direitos humanos”, complementa Natália. 

A Cosecha, juntamente com o Programa de Jornalismo Independente da Open Society Foundation, oferece uma bolsa de treinamento online sobre cobertura de jovens, desigualdade e pobreza, violência contra mulheres, crimes de ódio e ataques à comunidade LGBTQI. O programa começa com uma reunião presencial em Buenos Aires (com despesas de viagem, refeições e hospedagem pagos pelos organizadores), seguida por um curso remoto de quatro meses que visa ajudar jornalistas a produzir uma matéria a partir de uma perspectiva de direitos humanos. Diversos jornalistas, incluindo brasileiros, já participaram desse treinamento.

Marcha Notícias

Marcha Notícias volta-se à cobertura de pautas populares, encampadas pelos movimentos sociais, de questões feministas, além de protestos de rua. O veículo começou em 2011, fundado por jornalistas que já estavam envolvidos com organizações sociais e políticas, como um projeto para difundir o que estava acontecendo com o setor popular, a partir de uma visão própria. O contexto era do início da vigência da Ley de Medios, e, portanto, de um cenário de democratização dos meios de comunicação, um clima propício para o surgimento de veículos populares. “Por isso nascemos para oferecer uma visão a mais sobre a conjuntura política e social, mostrando nossas propostas”, explica Lau Salome, uma das representantes da Marcha.

Reprodução de post da argentina 'Marcha'Com o enfraquecimento da Ley de Medios, as consequências sociais da crise econômica e a as medidas neoliberais do macrismo, os objetivos passaram a ser diferentes. “Hoje, mais do que nunca oferecer ‘uma outra visão’ sobre o que está acontecendo é fundamental, e nos beneficiamos das vantagens da tecnologia para fazermos nossa narrativa ser amplificada. Uma notícia, hoje, veiculada por um meio alternativo pode ter a mesma ou maior repercussão que a de um meio hegemônico, graças à internet”, complementa Lau.

Camila Parodi, que também faz parte do coletivo, destaca a importância de elevar a voz de setores sociais que são pouco valorizados pela mídia comercial, como a população mapuche: “A morte de um jovem mapuche Rafael Nahuel [durante uma reintegração de posse realizada pela polícia argentina na comunidade Lof Lafken Winkul Mapu, em 2017] não teve a mesma repercussão que a morte de Santiago Maldonado, que era um ativista branco, de Buenos Aires. Daí a importância de veículos como a Marcha darem espaço a esses outros pontos de vista”. O caso Maldonado ficou bastante conhecido na Argentina. O jovem participava de um bloqueio em uma estrada na Patagônia como parte de um protesto dos mapuches. Ele desapareceu depois que a gendarmaria argentina dispersou a manifestação. O corpo de Maldonado foi encontrado meses depois em um rio próximo, sem sinais de violência.

Além de realizar coberturas factuais, a Marcha edita algumas publicações não periódicas, como revistas com temáticas especiais e livros.

Emergentes

O coletivo foi criado em 2016, já no contexto do macrismo, por pessoas inseridas e identificadas com as lutas populares, com o objetivo de oferecer narrativas alternativas às apresentadas pelos grandes meios de comunicação. O grupo trabalha com colaborações externas de profissionais de diferentes áreas, incluindo fotografia e vídeo e mantém constante interação com movimentos populares. Sua presença nas redes sociais é bastante ativa. “Ofereceremos serviço de cobertura dos atos dos movimentos sociais, compartilhamos imagens que fazemos e também oferecemos formação e assessoria para esses movimentos”, destaca Carlos Sainz, membro do Emergentes.

A equipe do Emergentes costuma integrar-se com veículos contra hegemônicos de outros países, como o brasileiro Mídia Ninja. Aliás, de acordo com Sainz, o Mídia Ninja, com sua forma de trabalho difusa, colaborativa e com grande exploração da tecnologia na cobertura de protestos, é uma grande inspiração para o coletivo. Para o representante do Emergentes, a integração com iniciativas de jornalismo alternativo de outras nações latino-americanas é fundamental. “Assim aprendemos com outras experiências, trocamos conhecimento e fortalecemos a luta por nossos objetivos que são semelhantes”, destaca.

Agencia Paco Urondo

A Agencia Paco Urondo define seu jornalismo como “kirchnerista” e “militante”. O nome da agência é uma homenagem ao jornalista Francisco "Paco" Urondo, romancista e poeta assassinado pela ditadura militar argentina. Paco escrevia ao mesmo tempo em que militava. Nunca deixou de ser escritor para ser militante e vice-versa. Daí ser inspiração para a agência, que nasceu em 2005, como um blog. O veículo começou a crescer a partir da chamada “crise do campo” em 2008, quando o governo de Cristina Kirchner aumentou o imposto das exportações agrárias e começou a enfrentar protestos por parte dos setores ruralistas. Grandes grupos, como o Clarín, posicionaram-se a favor desses setores, mostrando que, diferentemente do que propalavam, não faziam um jornalismo imparcial. Em 2009 foi implementada a Ley de Medios e, então, surgiu um grande debate na sociedade sobre qual seria o papel da mídia. “Aquele momento foi bastante estimulante para a militância política. Todo mundo queria fazer alguma coisa, inclusive no jornalismo. Crescemos muito em número de pessoas. Muita gente queria militar na área de comunicação. Então passamos a contar com outras ferramentas e nos tornamos uma agência”, explica Enrique De la Calle, um dos fundadores da Paco Urondo. Hoje a agência tem um programa de rádio, participações na TV e edita, esporadicamente, livros e revistas. “A disputa política é uma disputa pelo campo simbólico e o jornalismo tem um papel importante nisso. Nós nos entendemos como militantes políticos que fazem jornalismo”, defende De la Calle.

Lavaca

A cooperativa Lavaca nasceu em 2001, no contexto da crise econômica, social e política argentina. Com a crise começou um movimento de recuperação de empresas (que haviam quebrado) por trabalhadores e trabalhadoras, com um modelo de autogestão, uma alternativa de trabalho sem patrões, no esquema de produção colaborativa. Isso também aconteceu na área jornalística e Lavaca surgiu como uma dessas iniciativas. “Percebemos que essas experiências eram muito mais democráticas, tinham relações sociais mais interessantes e que isso poderia ser aplicado a um projeto jornalístico. O nome Lavaca vem da ideia de uma coleta de recursos coletiva, uma “vaquinha”, em que cada um ajuda como pode. E também como começamos em quatro pessoas, cada um de nós simbolizava uma pata da vaca”, explica, sorrindo, Lucas Pedulla, representante da cooperativa. 

Lavaca foi formada por jornalistas que tinham experiência em grande imprensa e queriam apostar nesta nova experiência. A cooperativa não se define como uma mera iniciativa de mídia contra hegemônica. “Nós nos definimos como um ‘meio social’. Nas nossas discussões não costumamos falar em imprensa hegemônica e contra hegemônica, e sim em meios jornalísticos sociais e meios comerciais. Os meios sociais têm como principal foco a sociedade, as ruas, e não o lucro”, argumenta Pedulla. Essa discussão pode ser acompanhada em um livro muito interessante editado pela cooperativa, que está disponível gratuitamente na web em formato PDF, intitulado “El fin del periodismo y otras buenas noticias”.

Lavaca conta com páginas nas redes sociais, programas de TV, edita livros e possui uma revista mensal, a MU, que faz um jornalismo mais analítico, aprofundando e contextualizando questões pertinentes à conjuntura política e social do momento, especialmente relacionadas a movimentos sociais e aos direitos humanos. Lavaca também oferece cursos e organiza eventos, contribuindo com a sociedade na discussão e entendimento sobre essas pautas.

 

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*Jornalista, professora de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Universidade São Judas e doutoranda do Programa Integração da América Latina, na Universidade de São Paulo (USP). Organizadora da série de livros “Mestres da Reportagem”.

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