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Tiro ao pé

Na prática, para que PT, PSOL e PCdoB pudessem se aliar a PSDB, DEM e Cidadania (ex-PPS), teriam que colocar de lado, ou relativizar, seu próprio programa econômico ou a campanha pela libertação de Lula

Breno Altman

Hoje à noite, dia 2 de setembro, no TUCA, em São Paulo, haverá encontro de uma coalizão provisória contra Bolsonaro, denominada Direitos Já.

Ainda que os partidos não participem formalmente, personalidades de 16 agremiações deverão estar presentes, da esquerda à direita tradicional.

Para muitos de seus organizadores, seria o embrião de uma frente ampla ou democrática.

A questão é saber o que poderia unir forças tão heterogêneas. Na prática, para que PT, PSOL e PCdoB pudessem se aliar a PSDB, DEM e Cidadania (ex-PPS), teriam que colocar de lado, ou relativizar, seu próprio programa econômico ou a campanha pela libertação de Lula, por exemplo.

Afinal, as agremiações de direita e centro-direita defendem o mesmo projeto econômico que o bolsonarismo, além de terem laços sólidos com a Lava Jato e compromissos intactos com o movimento golpista dos últimos cinco anos.

Para que essa “frente ampla” seja viável, a esquerda teria de se colocar como força auxiliar da direita tradicional contra o bolsonarismo, abdicando de qualquer pretensão hegemônica das classes trabalhadoras na resistência contra a extrema-direita.

Construir um espaço político comum com essas frações representa passar o pano no papel que o aglomerado PSDB-DEM-MDB desempenhou no passado recente e continua a desempenhar, pois sua aliança principal, no que efetivamente importa, continua a ser com o neofascismo. Basta ver as principais votações no parlamento ou a postura frente as denúncias contra a Lava Jato.

São importantes e devem ser incentivadas as contradições no interior das classes dominantes e das forças conservadoras. Pactos pontuais ao redor de temas concretos também podem ser úteis.

Outra coisa, completamente distinta, é tentar formar uma coalizão orgânica e estável com esses setores.

O preço a pagar, e alto, seria a esquerda conspurcar sua identidade, seu programa e sua imagem, deteriorando as condições para construir, no seio do povo, uma alternativa democrática e popular que derrote o bloco neoliberal.

Comparecer a esse ato, ou apoiar o projeto que será lançado nessa noite, não passa de um tiro no pé das forças progressistas.

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