Os fracassos da direita Sul-americana (parte I): Chile, Colômbia e Peru

Recordemos que esse setor iniciou esta década com uma grande notícia no Chile, com o retorno ao poder dos partidos herdeiros do pinochetismo

Victor Farinelli

Santiago (Chile)

A direita voltou ao poder na América do Sul já faz algum tempo e alguns dos grandes meios de comunicação destacam isso todos os dias, às vezes sem ocultar a satisfação.

É uma verdade inquestionável: nos últimos quatro anos esse raro setor tipicamente latino, que é conservador em temas de direitos civis e ao mesmo tempo liberal na economia, se instalou no poder em ao menos sete países da região – com o perdão por não saber exatamente quais são os ventos políticos na Guiana e no Suriname – e com isso conformaram blocos e alianças estratégicas como ProSul e Aliança do Pacífico, com as quais tentam se isolar dos que ainda não mudaram.

Entretanto, é possível dizer objetivamente que esse sucesso da direita sul-americana se restringe a uma hegemonia somente eleitoral. No final de uma década na qual conseguiu recuperar sua força nas urnas, a direita se vê diante de um cenário adverso, porque nenhum dos mandatários de direita que está no poder tem resultados de gestão que podem ser mostrados como bem-sucedidos, e menos ainda projetá-los como modelo para a direita a nível regional.

Recordemos que esse setor iniciou esta década com uma grande notícia no Chile, com o retorno ao poder dos partidos herdeiros do pinochetismo (apesar deles não sempre se assumirem como tal), a partir da vitória de Sebastián Piñera em 2010. Por ele começamos esta análise.

Chile: Piñera… e Piñera de novo

Em seu primeiro mandato, o empresário eleito por uma frente eleitoral chamada Coalizão pela Mudança terminou seu governo dizendo que sua grande conquista foi manter a estabilidade institucional do país.

Ou seja, não fez nenhuma mudança estrutural no país, e ainda por cima mostrou-se um grande inimigo de quem se mobilizou por elas, como se viu em sua reação às demandas exigidas nas ruas, sobretudo pelo Movimento Estudantil, então liderado pelos hoje deputados Gabriel Boric, Camila Vallejo e Giorgio Jackson. A crise do sistema previdenciário privado também já mostrava seus primeiros sinais, mas as marchas sobre ela só se tornariam mais massivas após o final desse governo, e o retorno da Michelle Bachelet ao poder.

Além de ser um obstáculo às mudanças, Piñera tampouco foi um bom administrador do modelo que preservou, como se pode verificar em seus erros institucionais gigantescos, como o fracasso do censo de 2012, a crise pelo perdão às empresas que deviam impostos milionários e uma mudança no sistema registro eleitoral que permitiu a habilitação para votar de pessoas já falecidas (incluindo Salvador Allende e muitas outras vítimas da ditadura), entre outros. Até mesmo a sua grande façanha, que foi o salvamento dos 33 mineiros presos em Atacama, terminou sendo alvo de piadas, quando até a primeira dama reclamou por ele andar mostrando o papelzinho com a primeira mensagem enviada pelos trabalhadores presos em todas as suas viagens internacionais.

O resultado da gestão de Piñera explica a surra que a direita chilena sofreu em 2013, com a então ministra Evelyn Matthei, filha de um general da Junta Militar, como cara visível da pior derrota registrada nas eleições do país neste século: Bachelet a superou por 62% x 37%.

Mas isso não o impediu de voltar a mostrar sua própria força eleitoral quatro anos depois, quando prometeu que criaria mais empregos, baseando-se no discurso de que havia sido o presidente que mais fez nesse sentido. O Chile manteve cifras próximas ao pleno emprego durante quase todo o seu mandato, mas também o fez durante os governos de Ricardo Lagos (2000-2006) e o primeiro mandato de Michelle Bachelet (2006-2010) – os três casos, aproveitando os ventos favoráveis da economia chinesa –, e portanto a sua retórica é bastante questionável.

Em seu segundo mandato, Piñera trouxe novamente a sensação de ter enganado com seu discurso: o desemprego, que realmente cresceu durante o segundo governo de Bachelet (2014-2018), não retrocede, em sintonia com os efeitos de uma China que investe menos nas matérias primas que interessam aos chilenos. Além disso, seu projeto atual defende todo tipo de medidas de precarização dos direitos trabalhistas, e mostra resistência a projetos que promovem o emprego digno, como o de diminuir a jornada de trabalho a 40 horas – apresentado pela deputada comunista Camilla Vallejo.

Novamente, sua fortaleza nas urnas não o acompanhou nos resultados de sua administração, ao menos até agora, quando já faltam dos anos para entregar o cargo. É muito provável, no entanto, que a direita volte a se impor em mais alguns anos, mostrando novamente a sua força eleitoral além da má administração.

Claro que, para isso, necessitará apelar a figuras que estejam desassociadas de Piñera, como a do empresário José Antonio Kast, que promove uma imagem de Bolsonaro chileno – o que envolve o risco de constituir um governo idêntico ao brasileiro, formado por desequilibrados, paranoicos, terraplanistas e nostálgicos da ditadura –, e de Joaquín Lavín, prefeito da comuna mais rica da Região Metropolitana de Santiago (Las Condes), que tenta de se mostrar menos conservador e se afastar do estigma do ministro de Educação anti gratuidade.

Para seguir esta análise de desordenada cronologia, passemos ao país com o mandatário mais próximo ideologicamente àquele Piñera de 2010, e talvez também com o de 2019.

Colômbia: hegemonia uribista, com um Santos no meio

Grande líder da ultradireita colombiana, Álvaro Uribe se manteve no poder por oito anos (entre 2002 e 2010) apesar de resultados economicamente controversos, com um país que mostrou bons níveis de crescimentos e que distribuiu muito mal essa riqueza.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a Colômbia é o país com o maior número de deslocados internos no mundo (7,8 milhões de pessoas em 2018), e também um dos primeiros nas cifras dos que deixam o país (com 1,2 milhão neste século, cifra que, na América do Sul, só é superada pelos mais de 3 milhões que abandonaram a Venezuela).

Embora a guerra civil no interior do país também tenha muito a ver com esse problema, não é o único motivo, porque também há pessoas oriundas de centros urbanos entre esses imigrantes. Gente que busca outro país por cauda dos problemas econômicos, como o fato de que 55% dos trabalhadores ganha menos de um salário mínimo (dado de 2018 do Banco Central colombiano), ou a desnutrição que afeta 1 em cada 3 crianças (dado de 2016 do Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF), entre outros.

Como a ultradireita estabeleceu essa hegemonia? Basicamente, por saber usar eleitoralmente o discurso da guerra civil permanente. E ainda sabe, como demostrou em 2018, com a eleição de Iván Duque, o aprendiz de Uribe, e que após um ano de mandato vem mostrando certa debilidade ao enfrentar os problemas econômicos e sociais internos, em contraste com a valentia que exibe quando se trata de lançar declarações desafiantes e até ofensivas à Venezuela e seu mandatário, Nicolás Maduro.

Entre esses dois governos houve oito anos de um direitista mais moderado: Juan Manuel Santos (2010-2018), que apesar de estar envolvido em um escândalo de assassinatos políticos cometidos pelo Estado, de quando era ministro da Defesa de Uribe, tentou dissimular os problemas econômicos com uma fórmula inversa àquela do confronto permanente. Se apresentou como defensor da paz, a partir de um processo de diálogo com os guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do ELN (Exército de Liberação Nacional), que levaram a um Acordo de Paz.

Porém, e apesar de o acordo ter rendido a ele um Prêmio Nobel da Paz, se projeto terminou rejeitado no plebiscito de 2016, e a aplicação de seus dispositivos tem sido somente parcial. Além disso, a proposta de Santos de acabar com a guerra se baseou somente no cessar fogo, sem buscar mudanças estruturais para enfrentar o caldo de cultivo da guerra: a desigualdade no campo, que só poderá ser solucionada com projetos bastante mais ambiciosos (por exemplo, uma reforma agrária).

A Colômbia que surgiu após o acordo mostra um enorme aumento do número de assassinatos de líderes sociais e comunitários (mais de 200 assassinatos políticos registrados desde fevereiro de 2018 até agora). Essa violência permitiu reforçar o discurso de segurança do uribismo.

Reprodução
Do paramilitarismo na Colômbia aos autogolpes do Peru

Peru: entre os autogolpes de Fujimori e Vizcarra

Após o indefinível governo de Ollanta Humala, que tentou se equilibrar entre um nacionalismo com discurso que emulava o do chavismo venezuelano e uma política econômica que sustentou a receita dos seus antecessores, a direita de verdade regressou à Casa de Pizarro com o economista neoliberal Pedro Pablo Kuczynski, vendido como ícone da eficiência do mundo privado – um mito que não se reproduz no hemisfério norte do planeta, que registra quase 900 processos de desprivatização na Europa e nos Estados Unidos entre 2000 e 2017, em função da péssima gestão privada dos serviços, mas que na América do Sul ainda consegue eleger empresários como presidentes, e não só no Peru como também no Chile e na Argentina.

Além da eficiência de gestão, Kuczynski prometeu um combate à corrupção. Em sua campanha, cansou de enfatizar os casos que envolviam seus adversários, ligados a governos anteriores como os de Alberto Fujimori (1990-2000), Alejandro Toledo (2001-2006), Alan García (2006-2011) e Ollanta Humala (2011-2016). Seu governo não durou nem dois anos inteiros. Renunciou ao cargo em 2018, após ser flagrado em casos de corrupção e má conduta política, similares às que protagonizavam aqueles que criticava.

Em seu lugar assumiu Martín Vizcarra, outro direitista clássico, que também se aferrou à consigna do combate à corrupção, alentado por uma cidadania que foi às ruas com o grito de “fora todo mundo” – uma indignação justa, mas que não fala com claridade o que poderia substituir os que se iriam.

Desde então, Vizcarra mostrou ser um outsider com um bem desenvolvido sentido de oportunidade, o que não necessariamente o ajuda a ter uma boa gestão. Vem enfrentando uma série de problemas com os setores de mineração, agricultores e outros grupos sociais – mas, para ser justos, na mesma medida em que seus antecessores sofreram com os mesmos temas.

Sempre que esses problemas o colocaram em problemas políticos, Vizcarra voltou a destacar a bandeira da luta contra a corrupção, o que tem sido muito efetivo para sua popularidade, e é com ela que tenta negociar. Entretanto, dias atrás ele resolveu jogar uma carta alta demais, e se igualou ao fujimorismo (um dos seus mais fortes adversários legislativos, e também de direita) ao dissolver o Congresso, como fez Alberto Fujimori no autogolpe de 1992. As demais forças políticas aumentaram a aposta e tentaram uma saída ao estilo Juan Guaidó: o poder paralelo, ao redor da kuczynskista Mercedez Aráoz, que aceitou o papel no começo, mas terminou “renunciando” no dia seguinte.

Nessa briga entre direitas para ver quem fica com o poder, quem perde é o país, que se afunda numa crise política que não se sabe quanto tempo mais pode durar, mas que parece que não será curta.

O que se sabe é que em todos esses anos de diferentes direitas se alternado no poder, o Peru esteve muitas vezes entre os países com maior crescimento na região, mas isso nunca o ajudou a sair da lista dos mais desiguais – cerca de 400 mil peruanos caíram ao nível de pobreza em 2017, segundo um informe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mostra um salto de 20,7% de pobres em 2016, e de 21,7% em 2017, e que também alega dificuldade em fazer medições mais precisas sobre o problema, que pode mostrar uma realidade ainda pior, como a mostrada em informes diferentes realizados pela Oxfam, uma organização internacional que trabalha com o tema da desigualdade social no mundo. Isso leva a deduzir que são bem poucos os que aproveitam o crescimento econômico peruano, e esse imenso problema está bem longe de ser uma prioridade na pauta política atual.

Bonus track: o que acontece no Equador de Moreno?

Há um problema em se apontar o governo de Lenín Moreno como um exemplo da direita equatoriana, e não é só porque ele foi eleito como a continuidade do projeto progressista de Rafael Correa (2007-2017) como também porque ele tem sim uma trajetória política, anterior à Presidência, que o respalda como figura de esquerda.

Entretanto, a guinada que tomou sua política econômica, na direção de um neoliberalismo sem máscaras, e cujos resultados foram uma crise econômica em tempo recorde e a necessidade de se endividar com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 4,6 bilhões de dólares, o aproximam muito ao outro lado.

Os últimos decretos tomados nesse sentido, com fortes medidas de ajuste financeiro, geraram como consequência os protestos que são observados no país esta última semana. Esse ajuste é o mesmo que o organismo financeiro impõe junto com todos os seus programas de resgate, sempre baseados em cortar gastos sociais, embora nesse caso também tenha levado ao fim do subsídio aos combustíveis, que provocou as primeiras revoltas, que partiram das associações de motoristas e caminhoneiros, que logo se uniriam ao Movimento Estudantil e a entidades de defesa dos povos indígenas, contrariadas pelos cortes dos recursos destinados aos seus setores.

Os protestos levaram Moreno a tomar outras posturas que o empurram à direita: decretou estado de exceção no país por 60 dias, o que permitiu aumentar a repressão e as detenções de manifestantes, mas não deu muito certo, já que reforçou também a reação popular, obrigando-o a ir além, e a mudar a sede do Poder Executivo de Quito para a cidade litorânea de Guayaquil. Também impôs toque de recolher nas cidades onde estão acontecendo mobilizações.

A história recente do Equador mostra que Rafael Correa foi o único presidente eleito que terminou seus mandatos (três, inclusive) nos últimos 25 anos. Seus três antecessores renunciaram diante de levantes populares em 1997 (Abdalá Bucaram), em 2000 (Jamil Mahuad) e em 2005 (Lucio Gutiérrez). Não significa que o mesmo acontecerá com Lenín Moreno, mas é bom estar atento às lições da história, que às vezes se repetem.

Também é importante recordar que o empréstimo que o Equador recebeu do FMI nasceu de um acordo do país com o governo do ultradireitista Donald Trump, que envolveu a entrega às autoridades britânicas do ativista Julian Assange, que estava asilado na embaixada do país em Londres, e que, agora, poderia ser levado aos Estados Unidos, onde responderia a um processo que poderia terminar com pena morte.

Outro problema do suposto progressismo de Moreno está nos temas de direitos civis: o recentemente aprovado projeto de despenalização do aborto em três casos (risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e gravidez por estupro) ainda não foi sancionado, e Moreno alega que precisa pensar para saber se vetará ao menos os casos de gravidez por estupro, uma dúvida que claramente tem a ver com a pressão dos grupos conservadores, e que é um sinal de que ele poderia terminar cedendo.

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