Entre Löwy e Pericás: caminhos da pesquisa sobre a revolução brasileira

Pericás inspirou-se parcialmente na obra de Löwy, assumindo semelhante forma de organização e dedicando-se também a estudar a temática da revolução no pensamento marxista

Desde a publicação de O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais, de Michael Löwy em 1980, surgiu uma tentativa de sistematização histórica das teorias da revolução marxista no Brasil. Em 2019, ocorreu um importante salto qualitativo nessa empresa. O professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Bernardo Pericás lançou o livro Caminhos da revolução brasileira (Boitempo, 2019), a mais completa pesquisa sobre a temática até o momento.

Esses dois autores optaram por formas semelhantes de constituir extensas descrições sobre o marxismo. Ambos decidiram articular um considerável estudo introdutório com um conjunto de fontes primárias, compondo um interessante percurso no qual o leitor é apresentado, pela mediação do autor-compilador, aos textos originais.

A empreitada de Löwy, assim como quase todo exercício pioneiro e de longo alcance, caracteriza-se por algumas imprecisões conceituais. Intenta periodizar a recepção, sistematização e organização em movimentos sociais do marxismo na América Latina de maneira integral, colocando em evidência nesse processo uma “problemática central: a natureza da revolução”. No seu estudo, tange o socialista argentino Juan Bautista Justo; o cubano Julio Antonio Mella; o peruano José Carlos Mariátegui; o chileno Salvador Allende; o brasileiro Mário Pedrosa; e outras personagens e instituições. Ao tentar contemplar variados atores de países distintos ao longo de mais de um século, Löwy oferece a chancela de marxista para pessoas e organizações que eram no mínimo heterogêneas, ou seja, nomina dinâmicas sociais e intelectuais que mereciam pelo menos um olhar mais apurado devido as suas particularidades.  


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Pericás inspirou-se parcialmente na obra de Löwy, assumindo semelhante forma de organização e dedicando-se também a estudar a temática da revolução no pensamento marxista. Todavia, armam-se diversas diferenças a partir de então. O docente da USP é mais restrito nos limites de sua análise. Tange exclusivamente os teóricos que pensaram a respeito do caráter da revolução no Brasil, explorando as suas especificidades conceituais e interpretativas e suas práticas sociais. Em Löwy, o Brasil vem articulado na narrativa. Em Pericás, ele é o próprio campo da investigação. Para o primeiro, o caráter da revolução é o núcleo articulador de uma série de outras temáticas. Para o segundo, ele é o foco analítico por excelência.

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Autores buscam sistematizar as teorias da revolução marxista no Brasil

Pericás apresenta, assim, uma historicização do debate teórico sobre o caráter da revolução brasileira. Em outras palavras, decifra uma disputa intelectual que teve aproximadamente 60 anos de duração, iniciada com Agrarismo e Industrialismo de Octávio Brandão na década de 1920, aprofundada por uma série de intelectuais como Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes nos anos subsequentes e adormecida na década de 1980. Projeto esse voltado ao campo da história intelectual que ninguém realizara integralmente até hoje, não obstante alguns autores já tivessem dado parciais passos nessa direção, como Augusto Buonicore com Marxismo, história e revolução brasileira.

Dessa maneira, o docente constitui um état de l'art da temática. Obviamente que não contempla todos os autores e os textos, um único volume não daria conta integralmente desse universo. No entanto, oferece os seus principais escritos e as suas principais linhagens interpretativas. É um excelente roteiro de um grande problema que, ao realizar seu movimento analítico, se desloca pelos nomes mais consolidados do debate, como Mário Pedrosa, Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes, e alguns dos menos conhecidos, como Octávio Brandão, Roberto Sisson, Ana Montenegro e Érico Sachs.

Em grande medida, Pericás oferece maior precisão teórica para o conceito de revolução. Categoria essa que na realidade brasileira, talvez pelo uso indiscriminado à direita e à esquerda, mostra-se pulverizada como conceito político historicamente construído. Dispor as palavras em seu lugar como Pericás o faz em Caminhos da revolução brasileira, certamente é um contributo interessante para, por um lado, o aprofundamento dos estudos históricos e, por outro, a formação de militantes e quadros de partidos políticos e movimentos sociais.

*Luccas Eduardo Maldonado é mestrando em História Social na Universidade de São Paulo

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