Partilha no pré-sal: preservar e aprimorar

Achar que sistema de partilha foi inventado no Brasil é desatino; impropérios disparado contra as duas modalidades escondem intenções antinacionais?

Haroldo Lima

Rio de Janeiro (Brasil)

O ministro da Economia, Paulo Guedes, referindo-se ao “modelo de exploração de petróleo usado no pré-sal”, disse que “a partilha é uma jabuticaba”, querendo com isso dizer que é uma coisa que só existe no Brasil. (O Globo 01.nov.2019). 

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, querendo ridicularizar uma autorização dada pelo Congresso Nacional para que áreas do pré-sal fossem cedidas à Petrobras, sob condições, disse que “a cessão onerosa é um monstrengo” (O Globo 29.nov.2019). São declarações disparatadas que se ajustam ao momento “terraplanista” que nos atormenta. 

A “partilha”, ou mais precisamente, o contrato de partilha da produção, surgiu na Indonésia. Ao se tornar independente da Holanda, em 1945, a nova nação constatou que só um ente se beneficiava da rica atividade petrolífera do país, a grande petroleira holandesa Shell. Trata então de elaborar um marco regulatório que beneficiasse a nação. Depois de muitas aproximações, em 1960, formata, pela primeira vez no mundo, o contrato de partilha da produção. 


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Nesse contrato, a exploração é feita com recursos do contratado; a propriedade do óleo extraído é do Estado; os custos da exploração e desenvolvimento são ressarcidos; uma empresa estatal controla esses custos; e o excedente da produção, descontados os custos, é partilhado entre o Estado e o produtor, na proporção acertada no contrato. Na continuidade, a “partilha” espalhou-se pelo mundo. 

Achar que este contrato foi inventado no Brasil, admitir que possa ser uma jabuticaba, é um disparate, uma ignorância chocante. Nosso país talvez tenha sido o último a adotar o contrato de partilha, pois só o fez depois do pré-sal. 

A cessão onerosa tem outra história. Após a descoberta do pré-sal, um decreto presidencial, de 17 de julho de 2008, instituiu uma Comissão Interministerial formada por cinco ministros e os presidentes de BNDES, ANP e Petrobras, para “propor as alterações necessárias na legislação” para a exploração e produção no pré-sal. 

No curso de mais de um ano de trabalho intensivo, a comissão constatou que, de uma maneira geral, no mundo, para se explorar e produzir petróleo em área de alto risco exploratório e potencial incerto usa-se o contrato de concessão, e quando a área tem baixo risco e elevado potencial, adota-se o contrato de partilha. A opção por adotar a “partilha” para o pré-sal foi natural, e tomada por unanimidade. 

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Petrobras deveria capitalizar-se com essa cessão, angariar recursos para investir no pré-sal e destinar à União ações compensatórias em seu

A comissão elaborou quatro projetos de lei que o Congresso transformou em três leis, aprovadas em 2010: a primeira estabelecia o regime de partilha na província do pré-sal e criava um Fundo Social para direcionar recursos da sua produção; a segunda decidia pela organização de uma empresa 100% estatal, a PPSA, Pré-Sal Petróleo S/A, para representar a União na gestão dos contratos de partilha; e a terceira, que se tornou a Lei 12.276/10, autorizava a União a ceder à Petrobras uma área do pré-sal onde fosse certificada a existência de cinco bilhões de barris de petróleo. A Petrobras deveria capitalizar-se com essa cessão, angariar recursos para investir no pré-sal e destinar à União ações compensatórias em seu capital. Assim surgiu a cessão onerosa. 

A criação e fortalecimento da PPSA são fundamentais para garantir excedentes expressivos a serem partilhados. Se a gestão da PPSA sobre os custos não for eficiente, estes, ressarcidos, podem reduzir o excedente a parcelas pequenas, fraudando o próprio sistema de partilha. 

Aprovada a nova legislação, a ANP localizou dois pontos no pré-sal e autorizou a Petrobras a perfurá-los, o que resultou nos prospectos de Franco e de Libra, cada um com cerca de 5 bilhões de barris de petróleo. O primeiro foi cedido à Petrobras no formato da cessão onerosa, e o segundo foi a leilão. 

Incontinenti, a Petrobras fez uma oferta pública de ações, na Bolsa de Valores de São Paulo, em 24 de setembro de 2010, e arrecadou cerca de US$ 70 bilhões, a maior captação de recursos realizada nesse tipo de operação em todos os tempos no mundo! 

Assim, o processo chamado de cessão onerosa tornou a Petrobras uma das empresas com maior volume de óleo contratado e fez com que o Estado brasileiro, que detinha 39% das ações do seu capital social, passasse a deter 49%. Isto só é “monstrengo” para quem quer uma Petrobras fraca, um Estado depauperado e com pequena participação acionária na petroleira. 

Na área cedida à Petrobras, onde se estimava existir 5 bilhões de barris, existiriam entre 12 e 15 bilhões, daí o excedente que agora será leiloado com bônus de assinatura de R$ 105,56 bilhões, a ser rateado entre a Petrobras, estados e municípios. 

É de se perguntar se os vitupérios disparados contra a “partilha” e a “cessão onerosa” decorrem apenas da ignorância dos fatos ou escondem outras intenções antinacionais, como o fim da “partilha” no pré-sal? 

No leilão do excedente da sessão onerosa, a Petrobras escolheu, para operar, as duas melhores áreas das quatro apresentadas, Búzios e Itapu. É que a lei da “partilha” lhe garante, em leilões no pré-sal, ser a operadora preferencial. 

A mesma lei assegura ao Estado um controle da produção capaz de impedir que a abundância do petróleo possa se transformar na “maldição do petróleo”, que golpeia a indústria do país por ela atingido. 

Também é preocupante a debilidade em que vai sendo colocada a PPSA, sabendo-se que, se ela não funciona bem, fica fácil burlar a “partilha”. 

De qualquer maneira, mantida a “partilha”, ela pode ser aprimorada. Seria um desatino se o sistema de partilha da produção fosse substituído pelo de concessões no pré-sal no Brasil, como se nessa área fosse alto o risco exploratório e incerto seu potencial, o que não é verdade, e tudo para beneficiar multinacionais do petróleo. Na quadra involutiva que atravessamos, toda a atenção é pouco para que esse retrocesso não se consuma. 

*Haroldo Lima é engenheiro e consultor na área de petróleo e gás. Foi diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 

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