Vitor Vogel: Trump já combinou com os iranianos?

Talvez Donald Trump não seja um conhecedor de História Militar ou doutrinas militares, algo recomendável para o comandante em chefe da maior potência militar do mundo

Vitor Vogel

Niterói (Brasil)

O presidente dos EUA usou sua conta no Twitter neste domingo para ameaçar de destruição 52 alvos da cultura iraniana. Se cumprir a ameaça Trump cometerá um crime de guerra. O número não é inocente, pois é uma referência aos cidadãos estadunidenses sequestrados na embaixada em Teerã após a revolução de 1979. Em outro tuíte, horas depois, Trump relembra que os EUA gastaram “dois trilhões de dólares em equipamentos militares e que são o MELHOR [exército] do mundo”. 

Talvez Donald Trump não seja um conhecedor de História Militar ou doutrinas militares, algo recomendável para o comandante em chefe da maior potência militar do mundo. Tecnologia superior e enorme gasto militar não são certeza de vitória. Afinal, a realidade costuma ser mais complexa e caprichosa. Portanto, fica a pergunta no ar: em caso de guerra, Trump já combinou a vitória com os iranianos?

O fiasco no deserto

Em abril de 1980, sob ordem direta do então presidente Jimmy Carter, foi lançada a Operação Garra de Águia (Eagle Claw). Com participação de unidades dos Fuzileiros, Marinha, Força Aérea e do Exército, um porta aviões nuclear e da temida Força Delta, o plano era tomar uma base aérea perto da capital, invadir a embaixada e retirar os reféns por meio de helicópteros. No entanto, durante o primeiro reabastecimento das aeronaves uma tempestade de areia, algo comum no deserto iraniano, causou um colisão entre um dos helicópteros e um avião de apoio logístico.


FORTALEÇA O JORNALISMO INDEPENDENTE: ASSINE OPERA MUNDI


A explosão vitimou oito combatentes e encerrou a operação. A tentativa de resgate dos reféns na embaixada em Teerã foi um fiasco e causou dano irreparável à imagem dos EUA como potência militar. Uma trivial tempestade no deserto derrotou a maior potência militar do planeta.

Helicóptero destruído em imagem de divulgação iraniana (Wikimedia Commons)

Jogos de guerra e suas lições

Na política e na guerra um agente pode sempre garantir seus próprios movimentos. Os do adversário ou inimigo podem até ser previstos ou forçados mas nunca controlados. A guerra, assim como a política, sempre carrega uma dose de imprevisibilidade. Uma forma de minimizar os fatores não previsíveis é a realização de jogos de guerra, simulações de como será um confronto militar. 

Reprodução
Georgy Zhukov na revista capa da revista Life (por Grigory Vayl) e Paul Van Riper

Em 1941, pouco antes da invasão nazista, o  alto-comando soviético realizou jogos de guerra para simular um conflito contra a Alemanha e seus aliados. Um dos participantes era o General Georgy Zhukov, recém vitorioso em campanha contra os japoneses. Zhukov era um mestre da guerra mecanizada e do uso coordenado de tanques, artilharia, infantaria e apoio aéreo, ou seja, dispunha das armas mais avançadas de seu tempo. Mas não só, a doutrina militar que empregou contra o Japão e seus camaradas nos jogos de guerra também era a mais avançada para seu tempo e a mais adequada para aquele cenário. 

Seu desempenho nas simulações soviéticas foi tão convincente que Stálin o elegeu o principal comandante militar soviético na Segunda Guerra Mundial. Sob sua direção os soviéticos paralisaram os nazistas em Moscou, Leningrado (atual São Petersburgo) e Stalingrado (atual Volgogrado). Sob suas ordens soldados soviéticos hastearam a bandeira vermelha em Berlim pondo fim à Segunda Guerra Mundial.

Jogos de guerra contra os vermelhos

No início do século os EUA realizaram um exercício militar chamado Millennium Challenge 2002. Com custo de US$ 250 milhões, o objetivo era testar os novos equipamentos e a doutrina de guerra desenvolvida nos anos 1990. Ela era baseada na introdução de avançados sistemas de computadores no campo de batalha. De um lado o time azul representando os EUA e no outro o time vermelho representando uma nação do Oriente Médio com características próximas ao Irã. O comando dos vermelhos ficou a cargo do General Paul Van Riper, um veterano do Vietnã e da Guerra do Golfo. 

Van Riper não seguiu o roteiro planejado e burlou a vigilância eletrônica usando mensageiros em motocicletas e sinais de luz para lançar ataques aéreos. Para enfrentar a poderosa marinha de guerra dos azuis, composta por dezenas de navios liderados por um porta-aviões nuclear, Van Riper lançou mão pequenos barcos rápidos e táticas suicidas. Contra um inimigo infinitamente mais poderoso em recursos o comandante vermelho optou por táticas de guerra assimétrica. 

Em dois dias de combate simulado os vermelhos "afundaram" um porta-aviões, dez cruzadores e cinco dos seis navios de desembarque anfíbio, o que acarretaria perdas estimadas em 20 mil combatentes azuis. Diante da catástrofe, a coordenação do exercício ordenou o reinício e que ambos os lados cumprissem o roteiro combinado, ou seja, o uso de táticas que dariam a vitória aos azuis. Van Riper não aceitou e renunciou. 

Agora, diante da crise gerada pela morte do General Qasem Soleimani, o que fará Donald Trump? Evitará uma escala numa guerra que com certeza será assimétrica? Ou já combinou com os iranianos a vitória do maior orçamento militar com as mais avançadas tecnologias? Se optar pela guerra, Trump não pode recomeçar o jogo e nem pedir que sigam o combinado com os russos nem com os iranianos...

Comentários