Convocação para ato em 15 de março é tentativa de assalto à democracia

Provocação antidemocrática contra o Congresso merece o repúdio de um país consciente da necessidade de preservar suas conquistas

Incluído na propaganda do ato "Foda-se, " convocado por Jair Bolsonaro por vídeo distribuído nas redes sociais, o general da reserva Roberto Peternelli, deputado federal do PSL-SP, partido do presidente, deixa claro que o eleitor está sendo vítima de propaganda enganosa.

"Ninguém pediu para usar minha imagem,"disse ele a Marcelo Godoy, do Estado de S. Paulo, esclarecendo que discorda da iniciativa. "Atrito entre Executivo e Legislativo não contribui para o País," acrescenta Peternelli, que acrescenta: "'Fora Maia e Alcolumbe é impróprio, como 'Fora Bolsonaro'".

Não se trata da única voz do universo militar a condenar a iniciativa. Afastado do governo em junho do ano passado, numa conspiração da família presidencial para que fosse derrubado da Secretaria do Governo,  o general Santos Cruz, um dos mais respeitados oficiais do Exército brasileiro, denuncia o dia 15  como armadilha para as Forças Armadas: "confundir o Exército com alguns assuntos temporários de governo, partidos políticos e pessoas é usar de má fé, mentir, enganar a população".


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Num país onde Constituição determina que a República funcione com base em três poderes, independentes e harmônicos entre si, um ato contra um deles não passa de uma provocação antidemocrática, a ser repudiada por todo cidadão e toda cidadã consciente da necessidade de preservar uma democracia conquistada após tantos sacrifícios.

Cabe até debater se, pelo seu caráter antidemocrático, incompatível com a Constituição em vigor, uma manifestação dessa natureza pode ser autorizada pela Justiça.

Não há o menor sinal, de qualquer forma, de que o protesto do dia 15 será capaz de produzir uma mobilização com a envergadura capaz  de tirar o governo Bolsonaro do sufoco político em que se encontra e permitir que  recupere a iniciativa política.

Depois de enfrentar um carnaval de vexames e humilhações, onde o educador Paulo Freire foi consagrado em São Paulo, Marcelo Adnet brilhou fazendo a parodia presidencial no Rio, enquanto grandes escolas e blocos do país inteiro faziam sua parte,  a partir de hoje o Planalto volta a encarar a dura realidade de seus fracasso. 

Agora que se demonstrou sua incapacidade para  melhorar o salário, diminuir o desemprego ou respeitar os direitos dos aposentados, descobre-se que são as contas do Bolsa Família que apresentam um rombo nunca visto desde o lançamento do programa, uma década e meia atrás.

Deixando de lado os interesses e necessidades da maioria dos brasileiros e brasileiras, que nunca foram prioridade de Bolsonaro e sua turma, cabe reconhecer a questão política deste governo.

Reside na incapacidade de resolver problemas concretos para fazer o país funcionar conforme os interesses da própria elite que garantiu a vitória das fake news em 2018 -- e já recebeu um pacote de reformas e benefícios sem paralelo na história do capitalismo de nossos dias.

A cada dia que passa, diminui a paciência  do empresariado com um ministro da Economia perdido entre frases feitas do neoliberalismo e afirmações preconceituosas sobre empregadas domésticas e funcionários públicos. O desarranjo profundo estimula candidaturas alternativas -- como Huck, como Moro -- que podem comprometer o único projeto que importa para o Planalto, a reeleição. Nos comandos militares, surgem iniciativas destinadas a mostrar uma postura de compromisso com a defesa do Estado, mas independência perante o governo. 

Este é o jogo para o dia 15.

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