Segunda-feira, 15 de junho de 2026
APOIE
Menu

O Met Gala é um dos eventos mais importantes e esperados do mundo da moda em Nova York, e a edição de 2026 evidenciou ainda mais sua relevância para os negócios e a política. Foram cerca de 450 celebridades pagando 100 mil dólares (cerca de R$ 490 mil) para entrar no Met Museum, posar, ser fotografadas e talvez serem escolhidas pelo algoritmo para viralizar nas redes sociais que todos acabamos vendo.

Neste ano, o quarto homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, dono da Amazon e do não menos importante Washington Post desde 2013, foi o principal contribuinte do evento, com 10 milhões de dólares (cerca de R$ 56 milhões), valor que representa a maior contribuição individual da história do Met Gala. Isso torna o magnata a primeira pessoa física a assumir o protagonismo econômico e administrativo do encontro, posicionando-se não apenas como doador, mas também como copresidente, juntamente com sua esposa, Lauren Sánchez.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

A participação do casal gerou diversas críticas de setores distintos nos Estados Unidos. Do lado das organizações sociais, manifestantes se mobilizaram contra o financiamento promovido pelo aliado de Trump, lançando uma campanha com cartazes que estampavam a frase “Boicote o Met Gala de Bezos”. O boicote virou tendência, e as redes sociais apelidaram o evento de “Amazon Prime Gala” e “Bezos Ball” para enfatizar o protagonismo do dono da Amazon.

O grupo ativista “Todo mundo odeia Elon”, coletivo conhecido principalmente por seus protestos contra o bilionário Elon Musk, projetou depoimentos de trabalhadores da Amazon diretamente sobre a cobertura de Bezos em Manhattan. Nas imagens projetadas, os trabalhadores denunciavam publicamente os maus-tratos e as condições desumanas de trabalho que sofreram na empresa de Bezos, além de fazerem um apelo pelo boicote ao Met Gala 2026 devido às ações de seu principal patrocinador. A essa iniciativa somaram-se críticas aos baixos impostos pagos pela empresa.

Mais lidas

No tapete vermelho, as ausências dialogaram com os protestos nas ruas: Meryl Streep recusou o convite; Cynthia Nixon, Taraji P. Henson, Zendaya e Bella Hadid, entre outras, não compareceram ao evento, destacando a virada comercial que o Met Gala — um evento beneficente e cultural por excelência — iniciou com o financiamento de Bezos. Algumas atrizes, atores e criadores de conteúdo também apontaram a tentativa de remodelar a imagem do dono da Amazon, que enfrenta diversas investigações, e se opuseram à sua intenção velada de construir protagonismo cultural na mídia para ampliar o controle sobre as narrativas das notícias e da cultura.

De fato, Bezos estimulou, com sua participação, a ideia de que buscava promover um “artwashing”, termo cunhado pelo sociólogo David Inglis e definido como o uso estratégico da arte e da cultura para limpar reputações, além de obter validação social, legitimidade e controle narrativo.

Do lado político, o prefeito de New York City, Zohran Mamdani, rompeu com a tradição de seus antecessores e recusou sua participação — ele afirmou que não compareceria a um evento financiado por um homem cuja empresa está sendo investigada por sua administração. Mamdani não apenas abriu uma investigação contra a Amazon por práticas abusivas, como também criticou o fato de a empresa cooperar com o ICE em solicitações de dados de migrantes por meio da Amazon Web Services (AWS). O prefeito destacou que sua prioridade é a “acessibilidade econômica e tornar a cidade mais cara dos Estados Unidos mais acessível”.

A Amazon opera no Brasil, México, Colômbia e Chile. Outras multinacionais de IA também têm presença na América Latina. Embora muitos as vejam como empresas que trazem tecnologia, acessibilidade, modernidade e crescimento, já estamos testemunhando os impactos que a implantação dessas grandes empresas de tecnologia traz para o Sul Global. Impactos, por exemplo, no aumento do estresse hídrico — já que a água é necessária em grande escala para o resfriamento dos servidores de IA —, na redução de empregos, diante das demissões em massa lideradas pela Amazon em 2026 na região, e também na fragilidade da segurança dos dados armazenados.

De fato, já se fala em uma nova era extrativista, o “extrativismo de dados”, que está levando movimentos sociais e governos a questionarem a necessidade de soberania digital. A escassa regulamentação existente na América Latina para a proteção de dados armazenados na nuvem, assim como a capacidade dos países de controlar sua própria tecnologia e infraestrutura, começa a se consolidar como um dos temas centrais do debate regional.

O Brasil é um exemplo claro e positivo de como a resistência institucional conseguiu fazer com que gigantes como a X, de Elon Musk, fossem investigadas por divulgar mensagens de ódio e notícias falsas, criando um precedente importante no campo da soberania digital. No entanto, ainda resta analisar se seguiremos o mesmo caminho do país do norte, que permite aos seus cidadãos uma “oposição controlada” em eventos culturais ou boicotes cívicos nas ruas, enquanto as gigantes tecnológicas continuam lucrando às custas dos direitos trabalhistas, ou se nos reafirmaremos como uma região com regulamentação ativa, fortalecendo a soberania tecnológica e a regulação ambiental diante do avanço implacável das big techs.