Polêmica sobre Venezuela divide intelectuais de esquerda
Interpretação sobre governo Maduro e tese de traição das forças armadas da Venezuela são temas de disputa
O debate sobre a crise venezuelana após o ataque dos Estados Unidos e o sequestro do presidente Nicolás Maduro vem gerando controvérsias também entre intelectuais de esquerda.
Os professores Luis Felipe Miguel (Ciência Política – UnB) e Valter Pomar (Relações Internacionais – UFABC) publicaram nesta semana artigos com leituras distintas sobre a situação venezuelana, em particular sobre as especulações em torno de uma suposta traição do alto comando de Caracas.
No artigo “Entre a análise e a militância”, Luis Felipe defende que a situação do país é “nebulosa” e não pode ser reduzida a narrativas simplificadoras. Para ele, “é inevitável que qualquer um que tente compreender a situação embarque em algum tipo de especulação”, em um ambiente marcado pela “tendência de tomar lados” e de construir “um vilão e um mocinho”.
O professor afirma que a Venezuela foi transformada em instrumento político pela direita regional, mas que os problemas internos do país não podem ser ignorados. “Deve ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua presidência e o caráter duvidoso de sua eleição”, afirma.
Miguel também critica o jornalista Breno Altman, fundador do Opera Mundi, por condenar as interpretações que sugerem um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump. Em sua avaliação, “não pode ser ‘traição’ encarar a realidade”, pois “regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas”.
Ele sustenta que “a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Maduro” e que ela “não pode ser descartada por dogmatismo”.
Observa, ainda, que Trump teria optado por um arranjo com o governo venezuelano, “em vez de mandar tropas para controlar o país”, o que faria sentido frente ao “arranjo com o governo atual” de Delcy Rodríguez.

Polêmica sobre Venezuela divide intelectuais de esquerda
X / TeleSur
Crítica de Pomar
Já para o professor Valter Pomar, no artigo “Luis Felipe Miguel, Breno Altman e o ‘vilão’ da história“, não há ambiguidade relevante no episódio: “aconteceu um ataque militar, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, os Estados Unidos chantageiam publicamente o governo venezuelano”. E questiona: “estamos ou não estamos diante do imperialismo clássico?!”.
Pomar critica a ideia de uma conspiração da alta cúpula venezuelana, que considera uma especulação sem provas. “Quem acha que existiu uma conspiração precisa provar”, afirma. Ele também destaca que “investir nesse tipo de ‘conjectura’ sem prova tem como efeito prático enfraquecer um dos lados – a Venezuela”.
“LFM, em nome de não cair na ‘tentação de estabelecer um vilão e um mocinho’, adota o procedimento de fazer críticas simétricas”, aponta, ao questionar: “a quem ajuda criticar o chavismo, quando os chavistas estão sob ataque extrema do império?”.
Pomar traz outra interpretação: “Trump achava que sequestrando Maduro e chantageando o chavismo, obteria (…) um governo capacho ou a convocação de novas eleições (…)nenhuma das pretensões de Trump se materializou”.
Ele também rejeita a inexistência de reação popular à agressão, alegada por Luis Felipe. “Na condição de quem vem acompanhando há tempos os acontecimentos na Venezuela, simplesmente não vejo base fática para dizer que a ‘reação popular à agressão… se mostra quase inexistente’”, afirma.
Para ele, o resultado da operação se explica por uma combinação de fatores: “poderio militar, eficiência militar, infiltração, traição e falhas pontuais e sistêmicas nas contramedidas”.























