Segunda-feira, 8 de junho de 2026
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No tabuleiro político global, observamos um fenômeno recorrente: enquanto os movimentos de direita conseguem formar coalizões internacionais robustas com uma rapidez impressionante, a esquerda parece presa a uma introspecção constante que dificulta a ação coletiva. Para compreender essa dinâmica, é revelador cruzar o pensamento pragmático do filósofo de Harvard Tommie Shelby com a pedagogia do amor e da justiça de bell hooks.

Tommie Shelby, em sua obra We Who Are Dark, propõe uma distinção fundamental: a solidariedade política não exige que os indivíduos compartilhem uma identidade cultural profunda, mas sim objetivos políticos concretos diante de uma ameaça. A direita global aperfeiçoou essa “solidariedade de trincheira”. Não é necessário que um apoiador de Trump nos Estados Unidos, um eleitor de Orbán na Hungria, um simpatizante do Vox na Espanha ou de Bolsonaro no Brasil compartilhem a mesma visão teológica; basta que identifiquem um inimigo comum.

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Para a direita, a ameaça é externa e clara: o imigrante, a “ideologia de gênero” ou o progressismo. Ao simplificar o inimigo, a direita aplica a lógica de Shelby de maneira perversa: une-se sob uma solidariedade negativa. É mais fácil chegar a um consenso sobre o que odiar ou temer do que sobre o que construir.

Por outro lado, a esquerda, influenciada entre outros pelo pensamento de Bell Hooks, busca uma transformação que ela definia como o fim do “patriarcado capitalista supremacista branco”. Enquanto Shelby sugere que, para combater a injustiça, basta uma “identidade política fina” (unir-se para aprovar uma lei, por exemplo), a esquerda contemporânea frequentemente exige uma “identidade espessa”.

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Bell Hooks ensinava que “a justiça social exige um exame de todas as nossas opressões”. Isso levou movimentos de esquerda a tentarem enfrentar simultaneamente todas as injustiças — de classe, raça, gênero e ecologia. A busca por uma pureza ética e por uma linguagem perfeita, aquilo que Hooks chamava de “consciência crítica”, cria barreiras de entrada que a direita simplesmente não possui.

A direita utiliza aquilo que Shelby identifica como o “mito da identidade compartilhada”. Embora existam abismos de classe entre um bilionário e um taxista ou uma trabalhadora doméstica, a direita consegue unificá-los sob rótulos identitários poderosos, como “Deus, pátria e família”, “bandido bom é bandido morto” ou “contra os mesmos de sempre”. Trata-se de uma unificação emocional e rápida.

A esquerda, por sua vez, enfrenta o desafio da autenticidade. Ao tentar ser radicalmente inclusiva, torna-se heterogênea por definição. Unir um sindicalista industrial tradicional a um jovem ativista climático exige um esforço pedagógico de construção de pontes que demanda tempo, enquanto a direita precisa apenas apontar um “perigo” na fronteira para obter coesão imediata.

A lição que podemos extrair de Shelby e Hooks é que a esquerda precisa aprender com a eficácia pragmática sem abrir mão de seus princípios. Shelby sugeriria que a esquerda deve permitir coalizões “finas”: unir-se em torno do aumento do salário mínimo ou da melhoria da saúde pública sem exigir que todos os participantes compartilhem a mesma visão de mundo em cada detalhe.

Bell Hooks, por sua vez, nos lembraria que a união da direita é frágil porque se baseia na dominação e no medo, e não em uma verdadeira conexão humana. A razão pela qual a esquerda enfrenta mais dificuldades é porque sua ambição é maior: ela não busca apenas derrotar um inimigo, mas transformar as bases da convivência social.

Podemos observar casos recentes em que a coesão da direita e a fragmentação da esquerda decidiram o destino de governos inteiros.

Em El Salvador, a ascensão e a permanência de Nayib Bukele baseiam-se na identificação de um inimigo existencial: as gangues e a “velha política” (ARENA e FMLN). Apesar das críticas internacionais relacionadas aos direitos humanos, seus apoiadores mantêm uma unidade férrea. Para eles, o líder é o escudo que impede o retorno ao caos. A solidariedade aqui é pragmática: “não importa o que o líder faça, desde que nos proteja deles”.

Na Argentina, Javier Milei unificou setores diversos — conservadores tradicionais, jovens libertários e uma classe média descontente — em torno da figura da “casta”. Sua base ignora contradições internas ou a falta de experiência de seus quadros técnicos porque o objetivo compartilhado de destruir o modelo anterior funciona como uma cola política mais forte do que qualquer detalhe programático.

Bolsonaro, no Brasil, chegou ao poder unificando grupos com interesses distintos — militares, evangélicos e empresários — sob uma solidariedade pragmática centrada no antipetismo. Seguindo a lógica de Shelby, esse bloco não precisou de uma coincidência ideológica total, mas de um objetivo defensivo: impedir o retorno da esquerda e proteger valores tradicionais percebidos como ameaçados. Diferentemente da esquerda, seus seguidores mantiveram a unidade mesmo diante de escândalos de corrupção ou crises sanitárias, protegendo o líder para evitar que a coalizão se fragmentasse.

Em contraste, a esquerda reflete a dificuldade da “comunidade amada” descrita por Bell Hooks. Enquanto a base de Bolsonaro perdoou suas falhas em nome da vitória, os aliados de Lula costumam aplicar uma fiscalização ética tão rigorosa que acabam gerando divisões internas diante de qualquer concessão política. Isso ajuda a explicar por que Bolsonaro preservou um núcleo duro de apoio quase intacto após sua derrota.

No Chile, Gabriel Boric chegou ao poder com uma coalizão amplíssima. No entanto, poucos meses após assumir o governo, setores de sua própria base — especialmente movimentos estudantis e correntes mais radicais — passaram a classificá-lo como “amarelo” (traidor) por causa dos compromissos assumidos para garantir estabilidade econômica e ordem pública. Os militantes exigiam, na lógica de Hooks, uma pureza ideológica que o exercício concreto do poder não conseguia sustentar.

No Peru, Pedro Castillo chegou ao poder pelo partido Perú Libre, mas rapidamente entrou em conflito com sua direção, liderada por Vladimir Cerrón, porque o partido exigia a implementação de um programa marxista ortodoxo que Castillo não conseguiu executar integralmente. O partido chegou a pedir sua renúncia, e suas próprias bancadas se fragmentaram, deixando-o sem a proteção política necessária diante da oposição, o que facilitou sua queda após a tentativa de autogolpe.

Pode-se dizer que a direita encontra mais facilidade para se unificar porque seu motor é a preservação. Identificar uma ameaça ao “nós” é um impulso biológico e social primário que gera coesão instantânea. A esquerda enfrenta mais dificuldades porque seu motor é a criação e a autocrítica. Seguindo Shelby e Hooks, o desafio dos movimentos e partidos de esquerda não é se parecer com a direita em seu dogmatismo, mas ser capaz de construir uma solidariedade política suficientemente flexível para a ação e suficientemente ética para não reproduzir as opressões que procura combater. Nessa lógica, a direita pode ganhar em velocidade, mas a esquerda, quando consegue se unir, ganha profundidade histórica.