Quinta-feira, 3 de setembro de 2026
APOIE
Menu

Com 35 jovens artistas de diferentes regiões e linguagens, a exposição Devorações do Amanhã – Brasil em rebento, com curadoria de Aldones Nino e Bruna Levi, atravessa o oceano e leva diretamente ao público sul-coreano um mergulho na diversidade da arte contemporânea brasileira. Pela primeira vez na história, o país sul-americano ocupa um pavilhão próprio na Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul, considerada uma das cinco mais importantes do mundo – ao lado de Veneza, Documenta, Whitney e Manifesta –, em sua 16ª edição.

“Eu percebi que o Brasil, ainda que fosse um país tão presente dentro das exposições centrais, não tinha um pavilhão próprio”, contou Nino, curador brasileiro radicado na Espanha e diretor de programação do Collegium em Arévalo, responsável por idealizar e articular a participação brasileira no evento há dois anos.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

“A gente buscou mostrar a diversidade: não só de origens, mas também de linguagens e de poéticas. Não existe uma arte brasileira consolidada e única. O que existe são várias possibilidades”, explicou ele a Opera Mundi.

A exposição, que acontece entre 5 de setembro e 15 de novembro, é realizada no Gwangju History & Folk Museum, em Gwangju, uma cidade que foi palco de episódios históricos na luta pela democracia e que hoje é lembrada como um símbolo de resistência no país asiático. Segundo Nino, existem “chaves de conexão muito interessantes” entre o Brasil e a Coreia do Sul, países cuja “ferida colonial permanece viva”.

Mais lidas

“Uma colonização que, enquanto período histórico, acabou, mas que ainda hoje está tão presente no dia a dia”, pontuou.

Vinicius Gerheim, de Minas Gerais, é artista visual e prepara sua obra inédita a ser apresentada na 16ª Bienal de Gwangju
Divulgação/Vicente de Melo

Ideia de futuro

O título da mostra Devorações do Amanhã – Brasil em rebento faz referência direta à tradição antropofágica do modernismo brasileiro, atualizada para o século 21: “devoração” como “metabolização das influências culturais”, agora menos voltada para o passado e mais para a construção de futuros.

A mostra conta, ao todo, com 87 obras individuais e inclui artistas de diferentes estados, como Adriana Varejão, do Rio de Janeiro; Manauara Clandestina, do Amazonas; Josi e Laís Miranda, de Minas Gerais; Maruan Sipert, do Rio Grande do Sul; Raiana Raio, de Pernambuco; Patrícia Abbott, de Brasília; entre outros. Também há artistas que transitam entre países, como Shinji Nagabe, nascido no Brasil, de família japonesa, e que viveu no Japão, na França e na Espanha; e Lucas Lugarinho, brasileiro radicado na Holanda.

“Para além da definição geográfica, buscamos artistas que habitam esse espaço Brasil e a partir daí criam seus trabalhos, independentemente de onde nasceram ou vivem hoje”, destacou Nino.

Memórias amazônicas na Coreia

A artista Manauara Clandestina, natural de Manaus, apresenta na bienal a instalação têxtil Cobra Grande, desenvolvida em colaboração com seu irmão, o psicólogo e educador Henrique Torres, imigrante em Portugal. A obra, que usa redes de proteção civil e uniformes de trabalhador como suporte, aborda migração, memórias de infância e cosmologia amazônica.

“Pela primeira vez no meu trabalho, eu trago imagens e faço alusões à Amazônia. É um processo muito importante para mim, porque é o lugar de onde eu vim, mas que de fato nunca tinha tomado posse desse território nas minhas práticas”, explicou a artista. 

A Opera Mundi, ela deu ênfase à escolha dos materiais, que consistem em redes, a priori, descartáveis. “A rede que era só uma rede de proteção acaba virando uma superfície artística. Mudar a vida é também mudar a forma de enxergar os materiais ao nosso redor”, destacou,

Cobra Grande, que foi desenvolvida na residência AiR 351, uma organização artística independente sediada em Cascais, região de Lisboa, é levada para o inédito pavilhão brasileiro em Gwangju. “Eu acho que dependendo da referência de cada pessoa, essa história vai virar outras histórias também”, disse Manauara.

A artista Manauara Clandestina, de Manaus, comunica memórias de infância por meio da arte
Divulgação/Vicente de Melo

Os desafios financeiros

Um dos principais obstáculos apontado por Nino foi a dificuldade de financiamento e a busca pela arrecadação de verbas. De acordo com o curador, durante dois anos, houve um processo de negociações para viabilizar o pavilhão, que envolveu principalmente conversas com galerias para que pudessem cobrir o transporte internacional de obras – que constitui um dos maiores custos –, assim como o da logística dos artistas. No fim, cerca de dez galerias aceitaram colaborar mas, ainda assim, longe de cobrir todo o orçamento. 

“Todos os países enfrentam dificuldades para realizar projetos dessa magnitude. Mas aqui, principalmente, tem a questão do ineditismo: é um pavilhão que nunca existiu antes”, explicou.

A escassez de recursos, porém, gerou uma solução criativa. Inicialmente, procurada apenas como uma parceira institucional, Nino pediu à Embaixada do Brasil em Seul um pequeno espaço em sua sede, onde pelo menos um artista pudesse criar sua obra dali, para reduzir os custos sem depender do transporte internacional.

Ao verificar que alguns estavam enfrentando dificuldade de arcar com os custos, a representação diplomática abriu sua sala “Brazil Hall” onde, no fim, nove artistas acabaram produzindo uma série de obras inéditas para serem exibidas na bienal. A curadoria decidiu batizar a residência na embaixada de “Tropismo”.

Nino explicou que, o termo “Tropismo”, inspirado na biologia, designa o fator externo que influencia o crescimento de uma planta. No caso, o ambiente coreano se consolidou como uma força que moldou a criação artística. Entre os artistas que participaram da residência na embaixada estão Manauara Clandestina, Isabella Guedes, Heloisa Hariadne, Vinicius Gerheim e Lucas Lugarinho.

“Os artistas que tiveram maiores dificuldades foram os que toparam vir para cá. Muitos deles já se conheciam, mas fazia anos que não tinham a experiência de estar juntos. Eles fretaram um ônibus para levar as obras juntos” a Gwangju, explicou Nino.

Manauara reforçou o sentido coletivo da experiência. “É muito diferente fazer sozinho e fazer numa sala em que tem quatro ou cinco pessoas produzindo ao mesmo tempo. Isso vai de encontro com a proposta da curadoria. É uma vitória da juventude brasileira vencer as adversidades de uma sociedade que não investe em arte e mostrar que a arte ainda é um norte”, destacou.

A artista Heloisa Hariadne leva a arte contemporânea de São Paulo a Gwangju
Rocio Paik/Opera Mundi

As pontes entre Brasil e Coreia do Sul

A exposição Devorações do Amanhã – Brasil em rebento conversa com o tema da 16ª edição do Bienal de Gwangju, “You Must Change Your Life” (“Você deve mudar sua vida”, na tradução em português), sob a direção do artista singapuriano Ho Tzu Nyen, uma vez que a curadoria vê no projeto uma oportunidade de criar pontes duradouras entre Brasil e Coreia do Sul.

“Existem artistas asiáticos amplamente reconhecidos mundialmente, mas a produção emergente não chega [no Brasil] com tanta força. E o mesmo vale para o Brasil aqui. Falta estabelecer uma relação maior”, apontou Nino. “Muitos artistas brasileiros têm individuais em grandes museus da Europa, mas na Ásia não”.

Desta forma, o curador acredita que o pavilhão possa ser um “pequeno detonante” para uma presença ainda mais forte da arte contemporânea brasileira no país asiático nos próximos anos.

“Todo mundo que veio aqui está amplamente interessado em estar mais presente, fazer colaborações. A ideia é iniciar algo que se espera que nos próximos anos se desdobre de muitas outras maneiras”, concluiu.