'Não há espaço para diplomacia neste momento', afirma chanceler tailandês
Ex-premiê cambojano diz que país 'quer paz, mas é forçado a lutar'; dez pessoas foram mortas e mais de vinte mil deslocadas
A fronteira entre Tailândia e Camboja voltou a ser palco de confrontos intensos nesta terça-feira (09/12), resultando em novas mortes e milhares de deslocamentos. As forças armadas tailandesas informaram que três soldados morreram e 29 ficaram feridos desde a retomada dos combates, enquanto o Ministério da Informação do Camboja relatou a morte de pelo menos sete civis e outros 20 feridos.
O impacto humanitário é severo: mais de 21 mil pessoas foram evacuadas das províncias de Preah Vihear, Oddar Meanchey e Banteay Meanchey, escolas foram fechadas, presos tiveram de ser transferidos às pressas e cidades como Poipet emitiram alertas urgentes para que moradores buscassem abrigo, informa a Al Jazeera.
Do lado tailandês, autoridades militares relatam confrontos em cinco províncias e uma operação naval para expulsar soldados cambojanos na província de Trat. Em entrevista exclusiva à agência catari, o ministro das Relações Exteriores da Tailândia, Sihasak Phuangketkeow, afirmou que “não há espaço para diplomacia” no atual estágio do conflito.
“Eles dizem que estão prontos por um lado, mas as ações deles no terreno são totalmente na direção oposta. A diplomacia funcionará quando a situação oferecer espaço para a diplomacia. Sinto muito dizer que agora não temos esse espaço”, afirmou o chanceler.
Segundo ele, o Camboja reacendeu os confrontos ao instalar novas minas que feriram soldados tailandeses e estaria difundindo “narrativas falsas” para se apresentar como vítima. “O primeiro passo para a paz deve vir dos cambojanos”, disse.
O chanceler afirmou que, embora a Tailândia aceite a decisão da Corte Internacional de Justiça sobre o templo Preah Vihear, isso não encerra a disputa, já que “há outros templos ao longo da fronteira, muitos deles do lado tailandês”. Ele também rejeita que o patrimônio da antiga civilização Khmer pertença exclusivamente ao Camboja.

‘Não há espaço para diplomacia’, afirma chanceler tailandês Sihasak Phuangketkeow
Minister of Foreign Affairs of Thailand
Camboja
O Camboja acusa a Tailândia de bombardear áreas civis, enquanto Bangkok afirma que suas operações – inclusive ataques aéreos registrados na segunda-feira (08/12) – respondem ao uso cambojano de artilharia, foguetes e drones explosivos ao longo da divisa.
Em comunicado nesta terça-feira (09/12), o ex-primeiro-ministro e atual presidente do Senado cambojano, Hun Sen, declarou que o país respeitou o cessar-fogo por 24 horas para permitir evacuações, mas foi “forçado a reagir para defender seu território” após os novos ataques tailandeses.
Segundo Hun Sen, os militares cambojanos vinham se abstendo de disparar contra as forças tailandesas no dia anterior, mas começaram a revidar durante a noite. “O Camboja quer paz, mas é forçado a lutar para defender seu território”, disse o ex-premiê, ao reforçar que a Tailândia “não deve usar força militar para atacar vilarejos civis”.
O conflito
A reativação das agressões acontece após um cessar-fogo que, em julho, interrompeu cinco dias de combates que deixaram 48 mortos e deslocaram temporariamente cerca de 300 mil pessoas. O acordo ampliado de paz foi assinado em outubro em Kuala Lumpur, sob mediação do primeiro-ministro malaio Anwar Ibrahim e com a participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A crise atual reacende rivalidades históricas que remontam à disputa territorial em torno de templos e áreas montanhosas, palco de confrontos em 2008, 2011 e 2021.
Com nacionalismos em alta, monitoramento limitado da ASEAN e escalada militar em curso, analistas entrevistados pela Al Jazeera alertam que os combates podem se prolongar e ter “consequências muito mais profundas” para toda a região. Eles afirmam que o cessar-fogo anterior foi imposto sob pressão da administração Trump, o que gerou insatisfação interna na Tailândia e nunca criou bases sólidas para uma resolução duradoura.























