Quinta-feira, 16 de abril de 2026
APOIE
Menu

Em alguns dias da semana, pelo fim da tarde, um pequeno grupo de ativistas sul-coreanos se instala na tradicional Praça Gwanghwamun, em Seul. Os membros se posicionam em frente à Embaixada dos Estados Unidos, segurando placas como “FREE MADURO” e bandeiras. Eles condenam o intervencionismo militar norte-americano e gritam palavras de ordem “¡Maduro libre! ¡Maduro libre!”, em espanhol.

Esse é o Partido Minjung (Partido Democrático Popular, ou PDP, em português). Formado por trabalhadores, camponeses, jovens e estudantes, a sigla emerge como oposição aos governos da Coreia do Sul, históricos aliados da Casa Branca.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

Fundado em novembro de 2016, o PDP atua há uma década como “a única voz anti-imperialista consistente” no espectro político sul-coreano, com base nos princípios herdados de movimentos de democratização anteriores que combateram as ditaduras militares de Park Chung Hee e Chun Doo Hwan.

“O ideal de democratização, porém, não deve se limitar à democracia antifascista, deve avançar rumo à democracia popular. É por isso que escolhemos o nome Minjung (Partido Democrático Popular)”, afirmou Yang Goeun, porta-voz da sigla a Opera Mundi.

Mais lidas

A ruptura de Seul com Washington e a resistência anti-imperialista são objetivos fundamentais para o partido: “onde quer que o imperialismo pratique a agressão, estaremos ao lado daqueles que resistem a ele”. E é por isso que a resistência perpassa o campo nacional. Segundo Yang, o partido acredita que a luta por justiça social no país também inclui a solidariedade àqueles no exterior que enfrentam ameaças e sanções dos Estados Unidos, como Venezuela, Irã, Cuba e Palestina.

“Nosso apoio à Venezuela está enraizado em nosso compromisso com o anti-imperialismo. Também manifestamos publicamente nosso apoio à Palestina diante da agressão conjunta dos Estados Unidos e de Israel e condenamos o atual ataque conjunto dos mesmos ao Irã”, disse. A sigla denuncia que o “belicista Donald Trump” vem, desde 2025, empenhado na “recolonização da América Latina”.

O PDP é uma das poucas entidades na Coreia do Sul a manifestar apoio público ao presidente venezuelano Nicolás Maduro após ser sequestrado em Caracas pelos Estados Unidos, levando em consideração que o próprio governo sul-coreano de Lee Jae Myung, do Partido Democrático da Coreia (PDK), omitiu-se sobre o assunto. 

Ao mencionar o legado político da “Comuna o Nada” de Hugo Chávez, a porta-voz do partido destacou que a experiência venezuelana ressoa com os seus valores. “Após uma revolta armada e a organização do povo, Hugo Chávez chegou ao poder por meio de uma eleição em 1999 e a Venezuela começou a se libertar de sua condição de colônia do imperialismo estadunidense. Mesmo sob as piores condições – isolamento imperialista, sanções econômicas e tentativas de ‘revolução colorida’ lideradas por forças de extrema direita pró-Estados Unidos – ele [Chávez] fortaleceu consistentemente o poder político e econômico do povo”.

O mesmo raciocínio se aplica ao Irã. O partido condenou a agressão conjunta de Washington e Tel Aviv contra o país persa, iniciada em 28 de fevereiro, e fez um chamado à população para manifestar solidariedade ao povo iraniano.

Ativistas sul-coreanos pedem libertação de Nicolás Maduro em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Seul, na Praça Gwanghwamun
Divulgação/Partido MInjung

Silêncio sul-coreano é humilhante, mas não surpreende

Para a porta-voz do Partido Minjung, a omissão da Coreia do Sul diante do histórico de agressões iniciadas pelos Estados Unidos a países como Cuba, Irã e Venezuela não é fruto de uma “diplomacia cautelosa”, mas de sua “essência pró-estadunidense”. A legenda é crítica à gestão de Lee Jae Myung, que o classifica como “um governo social-democrata de direita e reformista, alinhado com Washington”.

“O governo de Lee Jae Myung já capitulou às negociações coercitivas de tarifas de Trump com a Coreia do Sul e está buscando a introdução de submarinos de propulsão nuclear com a aprovação dos Estados Unidos, o que ameaça a segurança na Coreia como um todo e no Leste Asiático. O silêncio do governo diante dessas crises internacionais é injusto e humilhante, mas, dada a sua natureza pró-Estados Unidos, não surpreende”, disse Yang.

Nos últimos 10 anos, a Coreia do Sul oscilou entre governos ultradireitistas e reformistas, como os mandatos de Park Geun Hye, filha do ditador Park Chung Hee, e de Yoon Suk Yeol, sentenciado à prisão perpétua por tentar promover um autogolpe em dezembro de 2024.

“Propomos ao nosso povo a linha de libertação nacional e revolução democrática para transformar a sociedade sul-coreana colonial semicapitalista. Nossas principais linhas de luta são a retirada do Exército de ocupação dos Estados Unidos e a abolição da Lei de Segurança Nacional fascista, que obstrui a democracia política e a reunificação independente do país. Ao mesmo tempo, denunciamos a natureza da intensificação das guerras de agressão imperialistas e lançamos o lema ‘Abaixo o Imperialismo’”, declarou a representante.

A Lei de Segurança Nacional mencionada por Yang foi um instrumento legal arquitetado na Guerra Fria e usado como máquina de censura e perseguição à forças progressistas, sustentando uma “ideologia fascista, anticomunista e anti-Coreia do Norte”. E ela se aplica até os dias de hoje. Existir sob essa doutrina, segundo ela, é uma luta constante. “Em dezembro de 2014, após a dissolução do Partido Progressista Unificado (PPU), muitos de nossos membros foram presos”, contou, acrescentando que a repressão voltou a ganhar força no governo de extrema direita de Yoon, com novas perseguições. 

O que é a esquerda na Coreia do Sul?

Para responder essa pergunta, é preciso voltar algumas décadas, já que a Coreia do Sul segue sendo uma aliada histórica dos Estados Unidos, ou melhor, compartilham uma relação de “imperialismo-colônia disfarçada de uma aliança”, nas avaliação do Partido Minjung.

“Desde que as tropas norte-americanas entraram na Coreia do Sul como forças de ocupação em 1945, elas têm orquestrado politicamente uma relação muito próxima aos Estados Unidos. Governos fantoches, capital comprador economicamente fomentado e alinhado aos interesses de Washington, e liberalismo e capitalismo ao estilo norte-americano impostos na esfera ideológica e cultural”, explicou Yang.

Resultado dessa política foi de ocupação militar, repressão política, exploração econômica e subordinação cultural.

Enquanto siglas que ocupam cadeiras no Assembleia Nacional são classificados como sociais-democratas, o PDP se vê diferente. “A diferença decisiva reside tanto nos objetivos quanto nos métodos”, defendendo a “linha de luta de massas e o levante popular”.

“Nossa filiação inclui trabalhadores, camponeses, jovens e estudantes de diversas origens. O atual presidente do nosso partido começou no movimento estudantil e passou décadas firmemente engajado no movimento camponês. Muitos de nossos principais ativistas são revolucionários profissionais que dedicaram de 20 a 30 anos de suas vidas, desde os tempos de universidade, exclusivamente à revolução da sociedade sul-coreana”, destacou a porta-voz.

Ao reforçar um programa político que exige pontos tradicionalmente evitados pelas legendas sul-coreanas, o PDP revela como seu desafio mais urgente a promoção do “despertar político” de forma “rápida e correta”, além da organização das massas populares. “É mobilizar o povo sul-coreano para a luta anti-Estados Unidos e anti-imperialista. Somente por meio disso a sociedade sul-coreana poderá ser fundamentalmente transformada”, pontuou Yang.