Coreia do Norte, Rússia e Irã: como o programa nuclear se tornou escudo contra os Estados Unidos
Apesar da retórica belicista de Trump e Putin, analistas afirmam que lógica da dissuasão da Guerra Fria segue operando
Assim que os Estados Unidos, juntamente com Israel, atacaram o Irã em 28 de fevereiro, violando as negociações nucleares até então em curso, o presidente norte-americano Donald Trump deixou claro os seus objetivos, em coletiva: “eles nunca poderão ter uma arma nuclear”. A guerra contra a nação persa completou um mês, enquanto o republicano é cada vez mais pressionado, tanto pelo seu Congresso quanto pela comunidade internacional, para o fim das hostilidades, que implicam na segurança regional e na economia global.
Em meio às críticas, Trump propôs um plano de trégua de 15 pontos, entre os quais, novamente, está o comprometimento iraniano de nunca buscar desenvolver armas nucleares. Teerã rejeitou. Diante das agressões historicamente promovidas pelos Estados Unidos contra países com capacidades nucleares, tais como Líbia e Iraque, o desenvolvimento de um programa nuclear, tão mencionado pelo presidente norte-americano, tem reacendido o debate à respeito de seu potencial de dissuasão para inimigos e seus projetos imperialistas.
A Opera Mundi, Lucas Rubio, fundador do Instituto Paektu dedicado a estudos estratégicos sobre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC), disse que o programa nuclear norte-coreano, por exemplo, é o “pilar de sua existência e soberania”, e que sem ele a nação poderia ter sofrido uma transação de poder. “O programa nuclear atua como dissuasão para inimigos, representando uma ameaça de consequência em caso de ataque. Para aliados como Rússia e China, ele também sinaliza que a Coreia do Norte é um parceiro com uma projeção de poder maior do que seu tamanho territorial, sendo um instrumento de negociação”.

Kim Jong Un participa de teste de disparo de projéteis guiados de lançadores de foguetes reativos calibre 240 mm
KCNA / Fotos Públicas
Para o especialista, existe uma particularidade da Coreia do Norte no que diz respeito ao seu programa nuclear, que é, atualmente, o único a ter se desenvolvido fora do controle dos Estados Unidos. De acordo com Rubio, os programas soviético e chinês eram “inevitáveis” por serem de potências globais, enquanto os programas de Paquistão, Índia e Israel não configuravam um problema para os norte-americanos. Já Líbia, Iraque e Irã foram neutralizados.
“Mas a Coreia do Norte conseguiu avançar e desenvolver seu programa, não o colocando em um acordo de ‘mordácia’ com os Estados Unidos. O programa nuclear norte-coreano é visto como um problema sem solução para os dois lados, custando muito à Coreia do Norte, que não consegue se livrar dele, e sendo um desastre para os interesses regionais dos Estados Unidos”, afirmou.
Atualmente, a Coreia do Norte possui tecnologias bélicas que estão em pé de igualdade com as superpotências, incluindo a aquisição de mísseis hipersônicos. Além deles, Rubio deu ênfase à indústria de drones do país asiático, dispositivos que têm sido equipados com inteligência artificial para facilitar a geolocalização em rede de satélite. Pyongyang também desenvolveu um drone marítimo nuclear submarino, capaz de destruir infraestruturas costeiras.
“No final do ano passado, a Coreia do Norte anunciou que construiu e está testando um submarino movido a energia nuclear, munido de mísseis com ogivas nucleares, o que confere ao país uma amplitude global. O desenvolvimento do submarino nuclear pela Coreia do Norte coloca o país em uma posição muito à frente da Coreia do Sul, que levaria mais de 10 anos para montar um”.
Mas, e a Rússia? Grande aliada do Irã
A cientista política Giovanna Dias Branco recorda que “as armas nucleares são criadas pensando como um elemento de dissuasão e não necessariamente para serem empregadas”. Enfatizando que este “não é um confronto entre potências nucleares”. “Apesar de já terem alguns estudos sobre armas nucleares táticas, que são armas nucleares de menor escala, que poderiam eventualmente ser utilizadas em conflitos menores, eu não vejo isso acontecendo”.
Dias Branco também explica que, mesmo Moscou enfatizando seu poderio bélico nuclear em seus discursos, principalmente no conflito ucraniano, é uma forma de “ameaça como dissuasão”, isto porque “no campo de batalha mesmo não vemos em nenhum momento o emprego desse tipo de armamentos”. Acrescentando que, diante desse cenário, não avalia como uma possibilidade real o uso.
Apesar dos laços históricos entre Rússia e Irã e da retórica antiamericana compartilhada, a analista aponta que Moscou tem mantido uma posição de relativo afastamento em relação ao conflito no Oriente Médio.
“Em termos de geopolítica, a gente percebe que no fundo o balanço de poder entre as grandes potências continua funcionando. Então Moscou tem se mantido afastada, não tendo algum tipo de envolvimento mais direto ali na região”, disse a cientista política. Esse distanciamento, segundo Dias Branco, se deve em grande parte ao fato de que a Rússia já está sobrecarregada com a guerra na Ucrânia e não tem interesse em abrir uma nova frente de conflito.
Para o historiador Rodrigo Ianhez, no entanto, a retórica belicista não deve ser confundida com uma disposição real de emprego desses arsenais. A chave para entender o momento atual está em uma lição que remonta à Guerra Fria: a arma nuclear existe para não ser usada. O arsenal atômico de uma nação projeta uma “sombra de risco” que dissuade agressões maiores contra seu território. É exatamente essa lógica que tem operado nos conflitos recentes. “Até agora não foi lançada uma guerra direta contra a Rússia por causa das suas capacidades nucleares. Até agora as ameaças contra a China ficam apenas no discurso por causa de sua capacidade nuclear”.
Apesar das tensões e da corrida armamentista, Ianhez é categórico ao afirmar que as armas nucleares não serão utilizadas. A razão é simples: o custo seria catastrófico demais. “Se a Rússia cruza a linha vermelha e utiliza uma arma nuclear, ela está abrindo o precedente para ela própria ser atacada. Numa guerra nuclear não há vencedores”.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un.
Gabinete de Imprensa e Informação da Presidência da Rússia/Gavriil Grigorov/TASS
A lição da Líbia, Iraque e Coreia do Norte
Um dos argumentos centrais de Ianhez para explicar a insistência de certos países em manter ou buscar programas nucleares é a comparação entre nações que abriram mão desse potencial e aquelas que o preservaram. “Os países que abriram mão do seu programa nuclear sofreram intervenções de mudança de regime ou propriamente invasões”.
O historiador citou os casos da Líbia e do Iraque. Muammar Kadafi, líder líbio que desistiu do programa nuclear no início dos anos 2000, foi morto em 2011 após uma intervenção da OTAN. No Iraque, que teve seus programas de desenvolvimento de armas de destruição em massa desmantelados, houve uma invasão pelos Estados Unidos em 2003.
Em contraste, a Coreia do Norte — que optou por continuar seu programa nuclear apesar de imensas sanções e dificuldades —, “está numa situação de grande estabilidade”. “Ao contrário de outros governos que já caíram muito em razão de terem aberto mão da possibilidade de desenvolver armas nucleares”.
Ianhez também afirma não ter dúvidas de que o país persa tem observado atentamente o destino de governos que abriram mão de seus programas nucleares. “O Irã tem observado como outros governos que abriram mão dos seus projetos nucleares, de uma forma ou de outra, acabaram sofrendo intervenções ou mesmo invasões no seu território, e em alguns casos, como por exemplo, de Kadafi que foi inclusive morto em rede internacional de televisão.”
Diante desse cenário, o historiador avalia que Teerã “talvez esteja repensando o seu programa nuclear que caminhou muito lentamente. Tudo indica que a situação talvez mude a partir daqui”.
Rússia e China: parceria estratégica
No atual tabuleiro geopolítico, Ianhez observa uma inversão significativa em relação ao período da Guerra Fria. “Se a gente pensar num triângulo de potências, na Guerra Fria, Henry Kissinger conseguiu isolar a União Soviética restabelecendo as relações diplomáticas com a China. Os Estados Unidos e a China acabaram isolando a União Soviética sozinha”.
Agora, o cenário é outro, onde Moscou e Pequim estão isolando Washington. De acordo com o historiador, economicamente, a grande parceria da Rússia era com a Alemanha há 15 anos. As circunstâncias, no entanto, colocaram Moscou “no colo da China”. E, embora essa situação possa mudar com o tempo, no momento atual, a parceria entre os dois países é crucial.
Em meio a esse cenário de corrida armamentista e reconfiguração de alianças, Taiwan emerge como um ponto de tensão potencialmente explosivo. Ianhez destaca a vulnerabilidade energética da ilha. “Taiwan depende de combustíveis vindos de fora. Nas atuais circunstâncias, com o Estreito de Ormuz fechado, tem uma reserva muito pequena de combustível”.
A ilha concentra uma produção chave de microprocessadores e semicondutores para as cadeias econômicas globais, mas a “sinuca de bico energética”, segundo o historiador, pode afetar sua capacidade de continuar fornecendo esses produtos para os Estados Unidos e Ocidente.
“É um momento chave para a gente observar Taiwan, porque Washington está ocupado em Teerã, menos ocupado em Kiev, mas ainda assim esteve nos últimos quatro anos fornecendo equipamentos valiosos para a Ucrânia, está ocupado com a situação de Israel e está chegando o momento em que a expansão imperial norte-americana está atingindo seus limites”.
Diante desse cenário de limites do poder estadunidense e das vulnerabilidades de Taiwan, Ianhez disse qie a possibilidade de China decidir suas “questões inacabadas” no momento oportuno. “Pequim observa tudo isso com atenção e pode ser o momento dela tomar uma decisão em relação a Taiwan. Ainda mais com a ilha tendo recursos limitados, essa dependência de combustíveis fósseis trazidos de fora. Tudo isso contribui para um cenário em que é possível sim que a China decida resolver as suas questões inacabadas”.























