Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Esta é a terceira e última parte do especial “O Estado que vendeu mulheres: a história das sul-coreanas traficadas” de Opera Mundi, composto de três reportagens. Leia também:

– Parte 1: ‘Fábrica de dólares’: como Coreia do Sul e EUA exploraram sexualmente mulheres no pós-guerra

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– Parte 2: Vítimas de exploração sexual no pós-guerra, sul-coreanas processam militares dos EUA: ‘verdadeiros culpados’

Em novembro de 2013, a então deputada do Partido Democrático da Coreia, Yoo Seung Hee, enquanto membro do Comitê de Igualdade de Gênero e Família da Assembleia Nacional, fez uma denúncia pública de que o ex-ditador sul-coreano Park Chung Hee (1961-1979) teve participação direta no esquema de tráfico sexual.

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Durante uma sessão plenária, a parlamentar apresentou um documento de 1977 intitulado “Medidas para a Limpeza das Aldeias de Base”, obtido a partir dos Arquivos Nacionais da Coreia. Assinado por Park, o projeto visava a revitalização de 62 vilarejos militares e, também, prometia a concessão de apartamentos exclusivos para as cidadãs – entrega que, segundo as denunciantes, nunca aconteceu.

No documento “Medidas para a Limpeza das Aldeias de Base” de 1977, consta a assinatura do então ditador sul-coreano Park Chung Hee
Arquivos Nacionais da Coreia

“Apesar da implementação da Lei Anti-Prostituição [de 1961], revelamos que o governo cometeu graves violações de direitos humanos e houve uma intervenção direta [no esquema de tráfico sexual] depois que analisamos os materiais históricos e as circunstâncias dos confinamentos”, afirmou Yoo, ao solicitar uma investigação dos fatos.

O documento em questão falava de uma força-tarefa do Estado diante da crescente ameaça de Washington, em 1971, de retirar as suas tropas do território sul-coreano, como parte de sua revisão de estratégia de segurança, no contexto em que o país estrangeiro queria evitar novos compromissos militares na Ásia, principalmente em decorrência das perdas na guerra contra o Vietnã.

Para isso, a Casa Azul (sede presidencial sul-coreana) criou o Comitê de Limpeza das Aldeias de Base, mecanismo que consistiu na administração dos vilarejos, garantindo aos soldados norte-americanos a inserção compulsória das mulheres às triagens contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a “educação patriótica”, além do abastecimento de áreas com água potável.

Em 2011, a Associação de Bem-Estar Social do Sol, dedicada ao fornecimento de assistência às avós que sobreviveram à violência estatal, publicou uma declaração de Kim Ki Jo, então secretário do Comitê Conjunto Coreia do Sul-Estados Unidos, que evidenciava a solidificação do acordo.

“Em 1971 e 1972, visitei o Camp Humphreys [guarnição do Exército dos Estados Unidos localizada perto das áreas de Anjeong-ri e Pyeongtaek] duas vezes e participei da reunião como presidente do subcomitê coreano. Na época, quando o exército norte-americano tentou forçar a retirada de suas tropas, a Casa Azul destinou um orçamento de 100 milhões de won [cerca de R$ 360 mil] para promover o projeto de limpeza das aldeias de Uijeongbu, Dongducheon e Anjeong-ri. Na ocasião, o comandante do Camp Humphreys, o mais respeitado, exigiu uma melhoria na qualidade do serviço nas aldeias de base para o descanso e a recreação de seus soldados. Pelo lado sul-coreano, solicitou-se que as tropas norte-americanas continuassem presentes no país. Assim, [o comandante] aceitou o pedido”, diz a nota.

Kim Kyung Sook e Lee Young Sook, ambas ouvidas por Opera Mundi, foram sequestradas no governo autoritário de Park Chung Hee. Elas sabiam que o Estado as observava.

“Membros da prefeitura, do centro de saúde, da delegacia, todos estavam presentes quando diziam que haveria uma reunião. O fato de estarem sempre presentes em reuniões significava que estavam de olho em nós. O governo sul-coreano tem que se responsabilizar por ter nos monitorado”, disse Lee.

A Coreia do Sul de Park Chung Hee

Para a Coreia do Sul, no contexto do tratado de armistício pós-guerra, consolidar uma aliança com os Estados Unidos era “crucial para a segurança, a reorganização institucional e o comércio”, de acordo com o professor de Relações Internacionais da Korea University, Cuz Potter.

“Os Estados Unidos eram claramente essenciais para a segurança nacional da Coreia do Sul. A aliança estava bastante sólida. Os interesses econômicos e militares estavam muito entrelaçados nessa altura do campeonato”, apontou o acadêmico a Opera Mundi. “Ao mesmo tempo, certamente [os Estados Unidos] representavam uma fonte de degeneração cultural, já que os soldados norte-americanos introduziram seus gostos e práticas culturais [na Coreia do Sul] entre as décadas de 1960 e 1970”.

Em maio de 1961, o ditador Park Chung Hee tomou o poder por intermédio de um golpe militar e alterou radicalmente a abordagem sul-coreana em relação ao sistema das aldeias de base, até então já existente, porém, com um funcionamento “mais discreto”. No ano em que ocupou o Executivo, a Coreia do Sul aderiu à Lei de Prevenção da Prostituição e, em 1962, ao tratado da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o tráfico humano. Não era uma ironia, tratava-se de uma cortina de fumaça.

De acordo com o artigo “A construção da prostituição militar na Coreia do Sul durante o regime militar dos EUA”, da pesquisadora sul-coreana Lee Na Young, o Ministério do Interior estabeleceu em 1961 um total de “104 distritos especiais” – zonas onde a exploração sexual era “legalizada” –, incluindo 32 vilarejos militares. Nessas localidades, o esquema era monitorado e regulamentado pelo próprio Estado, contando com a cumplicidade das pastas da Saúde, dos Assuntos Sociais, e da Justiça.

“O regime de Park Chung Hee intensificou a consolidação e o desenvolvimento das aldeias de base com instituições mais sistemáticas”, escreveu Lee Na Young. “Ele refletia as prioridades de construção do Estado, segurança nacional e desenvolvimento econômico, todas interligadas à utilização do trabalho e da sexualidade das mulheres para alcançar esses objetivos”.

A Opera Mundi, a professora de Ciência Política da Universidade de Michigan, Ji Yeon Hong, especializada em estudos coreanos, avaliou que o projeto das aldeias de base somente foi possível “porque se tratava de um regime autoritário”.

“Era um regime autoritário que priorizava a segurança acima de tudo, dada a importância da presença militar dos Estados Unidos em solo sul-coreano e o nível de pobreza em que a Coreia do Sul se encontrava. Infelizmente, a democratização não resolveu o problema imediatamente”, sustentou, ao enfatizar que o respaldo norte-americano a qualquer regime sul-coreano era interpretado como uma condição necessária para a sobrevivência do país asiático, não somente em termos de segurança e economia, como também de legitimidade.

“Sem o apoio dos Estados Unidos à aliança e à conexão econômica, o regime de Park não teria sobrevivido. Park teve que fazer diversas escolhas para provar o valor da Coreia do Sul como aliada e garantir os benefícios estratégicos do governo e da economia dos Estados Unidos”, acrescentou.

A professora Hong também mencionou o auxílio fornecido pelo ditador a Washington durante a Guerra do Vietnã, como forma de reconfigurar a sua reputação. “A participação [da Coreia do Sul] na Guerra do Vietnã transformou a aliança de uma garantia passiva de segurança em uma barganha política e econômica ativa”, explicou.

Ditador sul-coreano Park Chung Hee durante jantar com autoridades australianas, em 1967
Arquivos Nacionais da Coreia

Repressão pelo desenvolvimento econômico

Naquela década, o tráfico sexual se tornou uma importante fonte de dólares para a Coreia do Sul, como parte da agenda estratégica de crescimento econômico de Park Chung Hee, qualificado por especialistas como uma figura de “liderança astuta e tenaz”, focado na reconstrução social e na transição para a industrialização.

De acordo com os registros da imprensa sul-coreana, a exploração sexual chegou a responder por 25% do Produto Interno Bruto (PIB), e a renda vinda dos clubes instalados nas aldeias de base chegou a corresponder a cerca de 10% do total em moeda estrangeira no país. Não é à toa que Lee Young Sook disse que as mulheres eram apenas uma “fábrica de dólares” para o Estado.

Para facilitar a entrada de capital estrangeiro, o ditador promulgou a Lei de Promoção do Turismo e da Sociedade de Amizade Coreano-Americana (KAFS). Com isso, os clubes foram isentos de impostos, tornando-se pontos turísticos especiais. Foi nesse período que as aldeias de base tiveram sua maior expansão.

À reportagem, o professor Cuz Potter afirmou que o governo autoritário de Park foi, querendo ou não, a base de um crescimento econômico “fenomenal” na Coreia do Sul. O país se manteve estável justamente entre as décadas de 1960 e 1980. No entanto, destacou que para atingir esse objetivo, “seu regime reprimiu violentamente o povo sul-coreano, mantendo uma força de trabalho barata e ordeira”.

Pelo lado de Washington, o destacamento de suas tropas no território sul-coreano era puramente geoestratégico. “O que importava era que a Coreia do Sul estava na Ásia continental e poderia servir como um ponto de apoio para o imperialismo norte-americano na região e uma fortaleza diante da Rússia e da China”, disse o acadêmico, explicação que se soma ao relato de Lee Young Sook, que declarou que os Estados Unidos nada se importavam com a Coreia do Sul. Pelo contrário, desprezavam os civis e, as mulheres, muito mais.

“(Os soldados norte-americanos) eram péssimos. Iam aos clubes, bebiam e assediavam as mulheres. Quando mal humorados, costumavam nos chamar de ‘baejji’ (‘bitch’, um termo pejorativo em inglês para prostituta). Quase fui espancada até a morte por eles”, contou a idosa.

Passadas várias décadas, a injustiça – termo recorrentemente usado pelas vítimas à reportagem – perdura. Se um dia as mulheres foram receberam promessas de que, supostamente, receberiam benefícios pelos serviços sexuais prestados aos norte-americanos, hoje elas sequer possuem condições financeiras que lhes permitam viver os seus últimos dias de forma digna.

A ação judicial apresentada em setembro de 2025, que demanda dos “verdadeiros culpados” um pedido de desculpas, ressalta que se trata da “última batalha” das sobreviventes.

“Uma batalha que elas continuarão travando pelo resto de suas vidas. […] Pedimos o seu interesse contínuo para que nossos relatos possam ganhar força”, apela.

(*) Os nomes das vítimas utilizados na reportagem são fictícios conforme solicitação das entrevistadas.