Organizações sociais, ativistas, partidos e grupos progressistas contrários às políticas intervencionistas dos Estados Unidos se reuniram em frente à sede presidencial, em Seul, nesta segunda-feira (07/09), em protesto contra o possível envio de tropas sul-coreanas ao Estreito de Ormuz.
A movimentação ocorre em meio às especulações recentemente levantadas pela mídia local, que sugerem uma possível adesão da Coreia do Sul na guerra perpetrada por Washington e Tel Aviv contra o Irã – informação que tentou ser amenizada, mas não foi desmentida, até o momento, pelo governo de Lee Jae Myung.
De acordo com os relatos iniciais das emissoras JTBC e SBS, o destacamento consistiria em “aeronaves de patrulha marítima P-8 Poseidon, navios de apoio logístico da Marinha e unidades de desativação de explosivos (EODs)”. Além disso, a Casa Azul, segundo a imprensa, já estaria articulando uma proposta a ser apresentada à Assembleia Nacional para aprovação neste mês.
“Se tal envio de fato ocorrer, ficará registrado como um capítulo vergonhoso na história coreana”, afirmou Hwang Jeong Eun, secretária-geral do Centro de Estratégia Internacional, ao reiterar que o povo iraniano, já ameaçado por sanções, bloqueios e guerras, tem o direito à autodeterminação.
Os grupos criticaram a contradição do presidente Lee, que em discursos públicos defende paz e estabilidade, porém, agora, em apoio aos interesses de Washington, insere-se em uma guerra que “nada tem a ver com Seul”. Alertam também para as ameaças à segurança nacional: no domingo (06/09), um alto funcionário iraniano citado pela rede libanesa Al Mayadeen alertou que “qualquer envolvimento sul-coreano” na rota marítima seria “equivalente à participação militar direta na agressão” contra o país persa.
“Não podemos permitir que os jovens deste país se tornem peões descartáveis e sacrifícios para a hegemonia dos Estados Unidos. Não podemos permitir que a segurança e a vida dos nossos cidadãos sejam ameaçadas”, apontou Kim Jin Eok, representante permanente da organização do Partido Progressista ‘Neomeo’. “O interesse nacional não reside em ceder às exigências dos Estados Unidos, mas sim em escolher uma solução diplomática e pacífica como nação soberana”.
“O Presidente Lee Jae Myung deve escolher se será o presidente da República da Coreia ou um fantoche a serviço das exigências do presidente dos Estados Unidos. Se agir como fantoche, enfrentará a resistência dos cidadãos”, advertiu.
Entre as exposições, chamou a atenção a presença da ativista Azar Brookins, que nasceu no Irã e cresceu na Alemanha em condição de refugiada. Ela, que hoje reside em Seul, iniciou o seu discurso se autoafirmando não defender o atual governo iraniano, mas que primordialmente se opõe a qualquer intervenção militar contra a sua nação de origem.
“Esse posicionamento não é nada contraditório. As bombas não distinguem um regime do seu povo. Elas não perguntam para a pessoa se ela apoia ou se opõe ao governo. E a história nos ensinou incansavelmente que guerras nunca levam à libertação. Lembrem do que aconteceu no Iraque, no Afeganistão, no Vietnã”, afirmou. “Governos estrangeiros agem de acordo com seus interesses mais estratégicos. A vida dos iranianos ou dos coreanos não deve ser prejudicada pela agenda geopolítica de alguém”.

Por sua vez, a ativista Hong Bo Ram, da Ação de Emergência da Sociedade Civil Coreana em Solidariedade com a Palestina, levantou as preocupações a respeito do prolongamento da guerra no Irã, uma vez que o conflito tem se tornado agenda central da política internacional e o genocídio contra os palestinos “perdeu relevância”.
Desde que o Estado de Israel e o grupo de resistência palestino Hamas assinaram o alegado acordo de “cessar-fogo” planificado por Washington, em outubro passado, o regime sionista matou pelo menos 1.344 palestinos. Além disso, imediatamente após o início das hostilidades contra Teerã, em 28 de fevereiro, o Exército israelense reforçou o bloqueio à ajuda humanitária com destino à Faixa de Gaza, agravando a crise humanitária vivida pelos cidadãos.
“Durante o período de escalada da guerra [dos Estados Unidos e de Israel] com o Irã, a violência contra colonos e o desapossamento de terras na Cisjordânia palestina também aumentaram. A nova guerra funciona como uma condição que facilita o genocídio e o colonialismo de assentamento já existentes”, pontuou Bo Ram.
Ainda sobre a Palestina, a Opera Mundi, a ativista Myoung Sook, da Rede de Direitos Humanos ‘Baram’, lembrou que durante a Assembleia Geral das Nações Unidas de 2024, em Nova York, a Coreia do Sul pediu o fim da ocupação israelense e instruiu os Estados-membros do organismo internacional a não comercializarem não somente armas, como também recursos que podem ser usados para genocídio. No entanto, o próprio país não cumpre a sua própria exigência.
“As empresas [sul-coreanas] continuam exportando armas. As empresas sul-coreanas violam continuamente padrões internacionais, como ao comprar títulos do governo israelense. E o governo se omite”, afirmou.
De acordo com ela, a gestão de Lee Jae Myung tende a adotar posturas com base na “tendência” que predomina entre as nações do mundo e “surfa na onda” delas. Myoung Sook citou como exemplo o Reino Unido e a França, que recentemente declararam esforços para a desminagem de Ormuz.
“O destacamento para Ormuz desta vez é, francamente, porque havia uma tendência entre o Reino Unido e a França de remover minas terrestres em Ormuz. Ou seja, na época em que a Coreia do Sul rejeitou o genocídio contra os palestinos, as vozes que condenavam Israel em relação à repressão de civis em Gaza estavam se tornando cada vez mais fortes”, explicou.
Na declaração final, os grupos presentes reafirmaram a necessidade do governo de Lee Jae Myung buscar se engajar na diplomacia em busca da paz, em vez de se alinhar aos interesses norte-americanos de Trump, que fomentam o aumento de tensões militares. Portanto, manifestam para que a gestão presidencial demande publicamente a cessação imediata das ações militares em torno do Golfo, promovidas por Washington, e se pronuncie em prol de um cessar-fogo imediato.
O documento também apontou para o fato de que a maior parte dos assentos da Assembleia Nacional conta com o Partido Democrático da Coreia, sigla governista. Sendo assim, as chances de uma proposta apresentada pelo Executivo ser consentida e obter aval do Legislativo seriam maiores.
“Se prosseguir com o envio, contando com a maioria dos assentos do Partido Democrata, a flecha da resistência do povo que levou este governo ao poder se voltará contra o próprio governo. Nós, reunidos aqui, lutaremos ferozmente até que o governo de Lee Jae Myung retire as tropas sul-coreanas do Estreito de Ormuz e impediremos a guerra ilegal e desumana de Trump por meio do poder da solidariedade internacional”, concluíram as entidades.