Sexta-feira, 10 de abril de 2026
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O governo da China, liderado pelo presidente Xi Jinping, aprovou durante o mês de março o seu 15º Plano Quinquenal, cujas diretrizes serão aplicadas durante este ano até 2030, com ênfase em metas desenhadas para consolidar a modernização socialista do país. O texto foi ratificado durante as Duas Sessões de 2026 e estabelece a inovação tecnológica como o eixo gravitacional das denominadas “forças produtivas de nova qualidade”.

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Segundo Melissa Cambuhy, presidente do instituto iBRICS+ e coordenadora de Relações Governamentais, do China Media Group América Latina, há poucas mudanças de rumo no Plano Quinquenal recentemente apresentado em comparação com versões anteriores, destacando a integração do novo planejamento a um ciclo de longo prazo iniciado no início do século.

Essa integração se observa especialmente com relação a dois projetos primordiais: o Plano de Modernização Socialista Básica até 2035 (com o objetivo de consolidar e modernizar o projeto socialista, fortalecendo a autossuficiência e soberania tecnológica) e a Meta Centenária de 2049 (que visa concluir a construção de uma potência socialista moderna, no ano em que se comemorará os 100 anos da Revolução Chinesa).

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“A mudança fundamental, ratificada neste plano, é a transição definitiva da dinâmica de acumulação que se inicia em 2000: a dinâmica e crescimento econômico deixam de se sustentar no eixo das exportações intensivas em mão de obra e de baixo valor agregado para centrar-se na autossuficiência tecnológica (com P&D atingindo 2,8% do PIB em 2025) e no fortalecimento do ‘circuito duplo doméstico’, pautado pelo desenvolvimento do mercado interno e na abertura econômica, tanto no sentido do aumento de setores econômicos que se permite a recepção de investimento externo, quanto na inserção internacional chinesa via investimentos produtivos. Essa orientação reduz a exposição do país a instabilidades financeiras e pressões protecionistas externas, ratificando a soberania econômica sem abdicar da abertura institucional de alto nível”.

O planejamento do país estipula uma meta de crescimento anual para o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) superior a 7%, partindo de um patamar consolidado de 3,92 trilhões de yuans em 2025 (aproximadamente R$ 2,9 trilhões)”.

Cambuhy também ressalta que, no plano socioeconômico, a diretriz da “prosperidade comum” busca a expansão da classe média para mais de 800 milhões de pessoas até 2035”.

“Para isso, a meta é elevar a taxa de urbanização para 70% até 2030 e consolidando o consumo interno como o principal motor do Produto Interno Bruto (PIB), em uma estratégia de resiliência frente à volatilidade internacional”, observou a estudiosa, que também é mestra em Direito Econômico (Mackenzie) e graduada em Direito com habilitação em Direito e Desenvolvimento (Mackenzie).

Formulação e consolidação do modelo socialista

Vale salientar que cada Plano Quinquenal chinês é resultado de um longo processo de democracia consultiva e planejamento centralizado dirigido politicamente pelo Partido Comunista da China, através de seu Comitê Central e do Politburo.

No sentido da capacidade de planejamento e execução de grandes projetos, a coordenação recai sobre a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas (NDRC, por sua sigla em inglês), em articulação com Ministérios setoriais e agências de execução.

O processo, que se estende por cerca de 18 meses, incorpora contribuições de províncias e municípios, garantindo o alinhamento das metas locais com as diretrizes nacionais. A legitimação ocorre durante as Duas Sessões, onde os 2.977 deputados da Assembleia Popular Nacional e os membros da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês deliberam e aprovam o esboço final, refletindo um amplo consenso entre a base do Partido, especialistas técnicos e a sociedade civil organizada.

bandeira da China

Diretrizes do novo plano serão aplicadas de 2026 até 2030
Wikimedia Commons

Para a pesquisadora, o novo Plano Quinquenal “constitui um aperfeiçoamento qualitativo do socialismo com características chinesas, fundamentado em metas alcançadas do ciclo anterior, como a erradicação da pobreza absoluta e um crescimento médio de 5,4% entre 2021 e 2025”.

“O plano aperfeiçoa a dinâmica de desenvolvimento ao ratificar a priorização da prosperidade comum, a sustentabilidade ambiental e a inovação tecnológica, demonstrando a superioridade do planejamento científico para enfrentar desafios e instabilidades globais e garantir a estabilidade nacional a longo prazo”, completa.

Brasil e BRICS

No aspecto das relações internacionais da China, o novo Plano Quinquenal estabelece prioridades centradas na abertura de alto nível e na promoção de uma globalização econômica inclusiva. Para Cambuhy, a estratégia chinesa é, diante das tentativas de desglobalização do imperialismo, “responder com mais mercado e oportunidades de desenvolvimento comum via cooperação”.

“A China busca consolidar-se como parceira comercial estratégica de mais de 160 nações, priorizando a Iniciativa Cinturão e Rota de alta qualidade, com foco em infraestrutura verde (93,9 bilhões de dólares investidos em energia em 2025) e cooperação Sul-Sul. O plano preconiza o fortalecimento do multilateralismo através de blocos como BRICS, Parceria Regional Econômica Abrangente e da parceria de Pequim com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), rejeitando o protecionismo e promovendo a estabilidade das cadeias de suprimentos globais”, explica a presidente do iBRICS+.

O Plano Quinquenal chinês não menciona conflitos bélicos atuais, tampouco o interesse do país em se envolver em disputas militares. Nesse aspecto, Cambuhy ressalta que o texto demonstra “coerência com a postura que Pequim mantém há décadas de defender o desenvolvimento pacífico e uma inabalável política de não intervenção”.

“A estratégia de segurança (da China) foca na coordenação entre desenvolvimento e defesa nacional, priorizando a modernização defensiva das Forças Armadas sem menção a objetivos beligerantes. O país defende o primado do direito internacional e adota uma diplomacia ativa para gerir tensões regionais, rejeitando hegemonismos”.

Sobre as oportunidades que o novo plano pode oferecer ao Brasil, Cambuhy acredita que o próximo quinquênio ratifica uma “janela histórica”, especialmente após a elevação da relação bilateral para a Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil-China por um Mundo Mais Justo e um Planeta Mais Sustentável.

“Existe uma sinergia direta entre a Iniciativa Cinturão e Rota e os programas brasileiros de desenvolvimento, como a Nova Indústria Brasil, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Plano de Transformação Ecológica. O Brasil pode beneficiar-se da cooperação em setores de alta tecnologia, infraestrutura moderna e transição energética, transformando sua pauta exportadora e atraindo investimentos produtivos que respeitem a soberania nacional e promovam o desenvolvimento sustentável mútuo”, afirmou.