Prédios modernos, carros elétricos e alta tecnologia: Coreia do Norte dribla sanções e vive melhora econômica
Ao estreitar laços com parceiros como Rússia e China, governo de Kim Jong Un conseguiu erradicar problemas habitacionais em Pyongyang e modernizar condados fora da capital
Quando a quarta fase do projeto de construção do distrito de Hwaseong – região que em 2026 promete se tornar a área mais desenvolvida da capital norte-coreana Pyongyang – entrou em seu estágio final, em 10 de janeiro, o líder Kim Jong Un associou a celeridade das transformações no país ao “progresso da revolução socialista”. Assegurou ainda que a população local deve “experimentar novos milagres ao final de cada ano”.
“A região de Hwaseong é um símbolo dos tempos que nos convence da pregação magnífica de nossa causa, que avança com mais vigor e dá um salto maior dia após dia, em direção ao objetivo de construir um país forte e civilizado”, declarou Kim, em discurso citado pela agência estatal de notícias KCNA.
O projeto de Hwaseong é um dos símbolos do salto no crescimento econômico norte-coreano neste século, e em como ele tem sido visível para a população, sobretudo, no aspecto da modernização das infraestruturas.
Iniciado em 2021, ele faz parte de uma iniciativa do governo que, nos últimos anos, deu maior enfoque ao desenvolvimento urbano. Para isso, direcionou-se uma atenção especial à construção de moradias na capital, tendo como objetivo principal a erradicação dos problemas habitacionais. Nesse âmbito, o líder norte-coreano definiu a meta de construir 50 mil apartamentos adicionais em apenas cinco anos.
“Na construção de 50 mil unidades habitacionais em Pyongyang, que tem sido teimosamente promovida durante o 8º mandato do Comitê Central do Partido, nosso campo arquitetônico está fazendo progressos notáveis e ainda mais recarregando o potencial do nosso país”, elogiou Kim.
A característica da “rapidez” apontada pelo líder norte-coreano é testemunhada por cidadãos brasileiros que estiveram em Pyongyang em momentos diferentes. Opera Mundi conversou com Lucas Rubio, fundador do Instituto Paektu dedicado a estudos estratégicos sobre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC), que viajou ao país asiático nos anos de 2018, 2024 e 2025. Sua última passagem trouxe uma visão mais clara sobre a velocidade das transformações que o país vem sofrendo.
“A Coreia do Norte atualmente está repleta de carros, tem engarrafamentos. Falei assim: ‘vim aqui em abril passado e agora, em outubro, e não consigo mais ver aquela cidade calma e pacata que existia, porque agora é buzina. De um ano para o outro, muitas coisas mudaram“, relatou.
Rubio ressalta a rapidez com que as mudanças vêm acontecendo no país. “É rapidez em todos os aspectos, tanto no que o governo consegue fazer, mas eu diria até na mudança de atitude das pessoas diante do cenário, porque nascem distritos novos totalmente tecnológicos e modernos, e parece que até mesmo a cultura local muito rapidamente, se adaptando àquilo. Você anda pela rua, tem os prédios residenciais, só que a base dos prédios são comércios, muitos comércios. É churrascaria, cervejaria, loja de videogame…”, frisou.
Em seu noticiário, a agência estatal KCNA tem divulgado os resultados práticos da política adotada por Kim através de imagens que mostram prédios altos e modernos erguidos em Pyongyang. Rubio descreveu como a arquitetura na Coreia do Norte evoluiu desde o estilo soviético inicial até as reformas nos anos 70 e, mais recentemente, no atual governo, que “apresenta um estilo muito moderno, com prédios altos e tecnologia LED”.
“Sob a direção do grande Partido, nosso povo, nos últimos cinco anos, alcançou resultados surpreendentes, fazendo-os valer como 10 anos, 50 anos, e desdobrou a nova era deslumbrante em que o país realmente muda e o ambiente de vida do povo é fundamentalmente melhorado”, enfatizou o governo norte-coreano, em um comunicado.
A nota segue dizendo que “a estrada que mostra e esclarece esta transformação admirável que elevou nosso prestígio e status nacional a altura vertiginosa é, precisamente, o setor de construção, o campo da arquitetura, e as criações monumentais que surgiram como brotos de bambu após a chuva por toda esta terra”.

Capital da Coreia do Norte, Pyongyang
Reprodução / KCNA
Economia crescente
Até mesmo as instituições do seu vizinho e arquirrival territorial e ideológico reconhecem o bom momento de Pyongyang.
O Banco Central da Coreia do Sul divulgou que, em 2024, a economia norte-coreana havia crescido 3,7%, percentual que se consolidou como o ritmo anual mais rápido registrado em oito anos naquele país. Segundo a entidade, em 2023 se verificava uma alta de 3,1%. O órgão associou o crescimento à ampliação de laços econômicos com a Rússia.
“Isso se deve, principalmente, a aumentos significativos nas indústrias de manufatura, construção e mineração, influenciados, internamente, pelo fortalecimento de projetos ligados a políticas nacionais, e externamente, pela expansão da cooperação econômica com a Rússia”, explicou um funcionário do instituto, dando ênfase para o crescimento acentuado de 10,7% no setor de química pesada, no que avaliou ter sido impulsionado pela expansão da produção de itens metálicos para armamentos exportados a Moscou.
Segundo Rubio, a economia norte-coreana se baseia em indústrias e meios de produção estatizados, sem contar com investimentos externos ou empresas estrangeiras, exceto por cooperativas no campo agrícola. Leva-se em conta, contudo, uma economia gravemente afetada por sanções ocidentais e bloqueios, apesar das fronteiras terrestres com a China e a Rússia.
Atualmente, o principal motor da economia na Coreia do Norte é a indústria de base, que tem impulsionado a construção civil, incluindo o projeto de Hwaseong. Enquanto o país importa energia elétrica e produtos de alta tecnologia, como carros chineses (elétricos) – embora de forma limitada –, ele também exporta, por exemplo, produtos têxteis por intermédio do território chinês. Em dado momento, o Brasil também chegou a ser um comprador da Coreia do Norte.
“Alguns anos atrás, no governo da presidente Dilma Rousseff, o Brasil comprou da Coreia do Norte chips, placas de computador e televisores. Placas internas para você montar os circuitos, telas LCD, de televisão, de computador… E o Brasil vendeu para a Coreia do Norte, naquele período, produtos como café e milho”, acrescentou Rubio.
Em 2024, um acordo abrangente também foi assinado com Moscou, o maior desde o período soviético, permitindo um grande salto econômico em Pyongyang. Segundo o fundador do Instituto Paektu, estabelecimentos no país asiático têm produtos russos e há uma tendência crescente de turistas de nacionalidade russa no território norte-coreano.
Não é novidade o laço compartilhado entre Kim Jong Un e seu homólogo russo, Vladimir Putin. No entanto, seu estreitamento foi comprovado, mais uma vez, em meio à operação especial da Rússia contra as forças ucranianas, quando o líder norte-coreanos enviou os seus soldados para auxiliar as tropas de Moscou.
Além disso, conforme a agência estatal norte-coreana KCNA, ambos trocaram saudações nas vésperas da recente vidada de ano: na ocasião, Kim exaltou a “amizade e aliança invencível” entre Rússia e Coreia do Norte.

Referindo-se ao projeto de Hwaseong, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, fala em “salto maior dia após dia” na construção de um país “forte e civilizado”
Reprodução/KCNA
Política de desenvolvimento 20×10
Iniciada entre 2023 e 2024, a chamada “Política de Desenvolvimento Regional 20×10” na Coreia do Norte teve como objetivo a construção de instalações industriais e infraestruturas de última geração em 20 condados do país ao longo de uma década.
Quando anunciou a iniciativa, o líder Kim Jong Un falou em “revolução industrial”, prevendo a revitalização da economia local e o equilíbrio das condições de vida da população nessas áreas com a capital Pyongyang, cidade mais desenvolvida do país.
Já em dezembro passado, a KCNA informou que a construção das fábricas de indústria e do Complexo de Serviços no condado de Kangdong havia sido concluída. Novamente, a característica da “rapidez” foi levantada por Rubio, que afirmou que os militares norte-coreanos, por meio de um corpo de engenharia, participam ativamente da construção civil.
O papel dos militares norte-coreanos deve ser observado sob lente diferente da do Ocidente, segundo o acadêmico. Nos anos 90, na Coreia do Norte, o exército passou a ser mais do que um organismo de defesa nacional.
Para evitar paralisar o país em um contexto de iminência de guerra, a ideia era que os soldados também tivessem outras formações, como por exemplo, fossem agricultores, construtores e engenheiros. Ou seja, muitos norte-coreanos veem o serviço militar como uma forma de cumprir seu papel de cidadão e como uma oportunidade de emprego e ascensão.
“É tudo ao mesmo tempo. Se estourar uma guerra, uma van escolar vira um transporte de tropas. Mas se tem um desastre natural, um helicóptero de ataque vira um helicóptero de resgate da população civil. A ideia de você ter tudo de prontidão o tempo inteiro, porque qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. Então, a economia toda gira em torno de manter o país pronto para enfrentar esses cenários”, explicou.























