Presidente da Coreia do Sul compara crimes de guerra israelenses ao Holocausto: ‘não há diferença’
Pela primeira vez, Lee Jae Myung condenou abusos contra palestinos, criticou ataques e deflagra crise diplomática com Tel Aviv
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, reforçou a importância do respeito aos direitos humanos universais ao abordar, em discurso nesta terça-feira (14/04), a guerra no Oriente Médio. Sua declaração se dá no contexto da eclosão de uma crise diplomática com o governo de Israel e, também, em meio a desgastes internos – envolvendo a oposição de extrema direita, alinhada aos interesses norte-americanos – após suas recentes condenações públicas referentes aos crimes humanitários cometidos pelo regime sionista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu na Palestina.
“Apelo para os países envolvidos na guerra (do Oriente Médio) a darem passos corajosos rumo à paz que o mundo tanto deseja, baseados nos princípios da proteção universal dos direitos humanos e nas lições da história”, afirmou o chefe de Estado sul-coreano durante uma reunião do gabinete da Casa Azul, sede presidencial localizada em Seul.
Desta vez, Lee não se referiu diretamente a Tel Aviv. Em vez disso, o seu discurso com as autoridades se voltou às consequências econômicas para a Coreia do Sul decorrentes da guerra promovida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, enquanto as negociações de paz mediadas pelo Paquistão fracassadas no último fim de semana. Após o encontro, o governo anunciou o fornecimento de US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2.5 milhões) em assistência humanitária a Teerã por meio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. No último mês, Seul forneceu US$ 2 milhões ao Líbano (cerca de R$ 10 milhões).
Os comentários de Lee seguem o cenário que se desenhou na última sexta-feira (10/04), quando o mandatário compartilhou um vídeo de 2024 em seu perfil na plataforma X. As imagens na publicação registram um corpo palestino sendo chutado por soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) de um telhado. Na postagem, o presidente compara o abuso à escravidão sexual de sul-coreanas após a invasão do Japão – um dos maiores crimes humanitários sofridos pelas mulheres no país –, o “massacre de judeus ou assassinatos de guerra”. “Não há diferença entre eles”, escreve o mandatário.
이게 사실인지, 사실이라면 어떤 조치가 있었는지 알아봐야겠습니다.
우리가 문제삼는 위안부 강제, 유태인 학살이나 전시 살해는 다를 바가 없습니다. https://t.co/owqj9Rg1lk
— 이재명 (@Jaemyung_Lee) April 9, 2026
Tratou-se da primeira manifestação pública de Lee sobre o genocídio cometido por Israel na Palestina. O posicionamento levou a uma forte condenação do Ministério das Relações Exteriores de Tel Aviv no dia seguinte, pelo que considerou uma “trivialização do Holocausto” e questionou as motivações do mandatário de resgatar um acontecimento de 2024. Em seguida, o sul-coreano respondeu, por meio de uma outra postagem, ser “lamentável que [Israel] não esteja refletindo as críticas globais de pessoas que sofreram e lutaram devido a leis contínuas contrárias aos direitos humanos e ao direito internacional”.
<끊임없는 반인권적 반국제법적 행동으로 고통받고 힘들어하는 전 세계인들의 지적을 한번쯤은 되돌아볼 만도 한데 실망입니다.
내가 아프면 타인도 그만큼 아픕니다.
나의 필요 때문에 누군가 고통받으면 미안한 것이 인지상정입니다.
아닌 밤중에 홍두깨라고 아무 잘못없는 우리 국민들께서…
— 이재명 (@Jaemyung_Lee) April 10, 2026
A Opera Mundi, um ativista palestino que reside em Seul leu positivamente a mudança na postura de Lee, admitindo que se tratou de “a última coisa que se esperava vindo de qualquer presidente” sul-coreano, tendo em vista o alinhamento histórico do país com os Estados Unidos, principal aliado do regime sionista. “Podemos ver mudanças entre a administração de Lee e a anterior [do extremista de direita Yoon Suk Yeol]. Claro, a reação de Israel foi como a de sempre: a de atacar e se defender usando o Holocausto. É o jeito deles”.
No domingo (12/04), o presidente Lee, sem mencionar explicitamente algum país, reforçou que “a soberania de cada nação e os direitos humanos universais devem ser respeitados, e a guerra agressiva deve ser rejeitada”.
“Chama-se traidor da pátria àquele que, por ganância pessoal, prejudica o interesse nacional”, disse. “A empatia se aplica não apenas aos indivíduos, mas também às relações internacionais. Se você quer ser respeitado em troca, deve respeitar os outros”.
사욕을 위해 국익을 훼손하는 자들을 매국노라 부른다.
매국 행위를 하면서도 사욕을 위해 국익을 해치는 것이 나쁜 짓임을 모르는 이들도 많다. 아니 알면서 감행하는 것인지도 모르겠다.
심지어 국익을 포함한 공익추구가 사명인 정치와 언론 영역에서도 매국행위는 버젓이 벌어진다.
결국 이…
— 이재명 (@Jaemyung_Lee) April 12, 2026
O mandatário continuou, na segunda-feira (13/04).
“Dar pitaco até vai, mas não vale cair em cima do tabuleiro. Estão tão obcecados em brigas internas que já estão quase torcendo pelos marcianos numa invasão à Terra. Não deveríamos primeiro salvar o planeta Terra?”, escreveu.

Presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung condena crimes de guerra cometidos por Israel e reforça respeito aos direitos humanos universais
The Blue House
Possíveis preocupações sobre Ormuz
O veículo turco Harici aponta também para fatores que podem ter levado o presidente sul-coreano a se envolver em uma disputa diplomática de alto risco com Israel. O portal mencionou que analistas regionais interpretam tal mudança associada a preocupações nacionais de segurança energética, levando-se em consideração que a Coreia do Sul é a décima maior economia do mundo e depende fortemente do petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz, rota marítima parcialmente fechada pelo Irã a nações coniventes com as agressões inimigas.
Informa o Harici que “acredita-se que pelo menos 26 petroleiros sul-coreanos estejam atualmente encalhados perto do Estreito de Ormuz”.
Para o professor Jhee Byong Kuen, de ciência política na Universidade Chosun, citado pelo veículo, o mandatário tenta enviar um recado aos Estados Unidos que a Coreia do Sul “não será arrastada para uma guerra que não quer”. Essa avaliação condiz com o recente contexto em que o presidente norte-americano Donald Trump expressa cada vez mais frustração com seus aliados, descrevendo-os como “interesseiros” e que não o apoiam suficientemente para desbloquear o estreito. Em declaração recente, o republicano chegou a culpar especificamente a Coreia do Sul, o Japão e a União Europeia.























