Relatos de incursões de drones na Coreia do Norte aumentam tensão na península
Gestos do governo sul-coreano em direção à paz com norte foram ainda mais prejudicados pela descoberta de novas incursões de drones em Pyongyang
Novas revelações sobre incursões recentes de drones no espaço aéreo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) lançaram uma sombra sobre as relações intercoreanas e levantaram questões sobre a integridade interna do governo do presidente sul-coreano Lee Jae-Myung.
Em 10 de janeiro, a Coreia do Norte divulgou fotografias de um drone abatido recentemente, que violou seu espaço aéreo em 4 de janeiro. Uma outra incursão de drone ocorrida em setembro passado também foi anunciada pela primeira vez.
A Coreia do Norte acusou a República da Coreia (Coreia do Sul) de realizar as incursões com drones. O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myeong, negou qualquer responsabilidade e ordenou uma investigação conjunta entre militares e policiais para descobrir possíveis culpados, civis ou militares.
Pouco depois, um estudante de pós-graduação, identificado apenas pelo sobrenome Oh, reivindicou a responsabilidade pelas incursões de drones em uma entrevista à imprensa. Oh e outros dois suspeitos, Jang e Kim, estão sendo investigados pela polícia e enfrentam diversas acusações criminais.
Oh, Kim e Jang fazem parte da liderança da Estel Engineering, uma startup de fabricação de drones que também administra publicações de mídia anti-Coreia do Norte. Segundo relatos, Oh e Jang trabalharam anteriormente como contratados para o gabinete do ex-presidente Yoon Seok Yeol, que foi deposto em abril passado após uma tentativa fracassada de autogolpe em dezembro de 2024. Constatou-se que o governo Yoon ordenou pelo menos 11 incursões de drones na Coreia do Norte nas semanas que antecederam a declaração da lei marcial.
O Comando de Inteligência de Defesa da Coreia do Sul confirmou a participação de Oh em operações secretas de mídia contra a Coreia do Norte. Há relatos de que Oh também possuía a patente de coronel nas Forças Armadas da Coreia do Sul e serviu na Unidade Especial HID, responsável por operações de infiltração e guerra psicológica contra a Coreia do Norte. A Unidade HID já havia sido implicada na tentativa de autogolpe de Yoon. A comissão especial de investigação estaria ampliando sua apuração em função dessas descobertas, à medida que crescem as suspeitas de envolvimento de agências de inteligência.
Embora os detalhes do ocorrido ainda não tenham sido totalmente esclarecidos, o incidente levanta sérias questões sobre até que ponto elementos dissidentes leais ao antigo governo Yoon podem estar tentando sabotar as relações intercoreanas e como essas forças podem estar ligadas a atores fora da península coreana.
As revelações também surgem em um período de muita tensão entre os dois governos coreanos. Desde o final de 2023, a RPDC redefiniu sua linha política para rejeitar a reunificação pacífica e classificar a Coreia do Sul como um Estado hostil. Sua Constituição foi atualizada para concretizar essa nova posição, que muitos analistas chamam de “teoria dos dois Estados hostis”. Embora Lee tenha prometido restabelecer a confiança entre os dois governos e tomado uma série de medidas públicas nesse sentido, a RPDC rejeitou repetidamente suas propostas, citando um longo histórico de escalada da agressão militar e a falta de soberania política da Coreia do Sul.
Um histórico de hostilidade
Desde que assumiu o poder em junho passado, o presidente sul-coreano Lee Kuan Yew tem buscado expurgar o governo de insurgentes que apoiaram a tentativa de autogolpe de Yoon. Essas investigações levaram ex-políticos de destaque, incluindo o ex-presidente (que pode enfrentar a pena de morte) e o ex-primeiro-ministro, perante a Assembleia Nacional, e também resultaram em uma purga da liderança das Forças Armadas da Coreia do Sul.
Um dos pilares centrais da investigação diz respeito ao envolvimento e às intenções de Yoon em pelo menos 11 incursões com drones na Coreia do Norte, realizadas entre outubro e novembro de 2024. Em janeiro, uma comissão militar disciplinar considerou o tenente-general Yeo In-hyung, ex-comandante da contra-inteligência militar da República da Coreia, culpado de traição por seu papel nessas operações. Os drones teriam lançado panfletos de propaganda anti-Coreia do Norte sobre diversas cidades-alvo.
A Coreia do Norte anunciou prontamente as incursões de drones de 2024, fornecendo provas fotográficas e tomando medidas para fortificar seu lado da DMZ [zona desmilitarizada], a fronteira de fato que separa as duas Coreias. A mídia internacional noticiou amplamente o incidente, mas focou na detonação de estradas e pontes pela Coreia do Norte na DMZ.
Na época, o Ministério da Defesa da Coreia do Sul ignorou as perguntas dos repórteres sobre as incursões de drones. Após a tentativa de golpe fracassada, o incidente voltou a ser alvo de escrutínio.
À medida que a promotoria desvendava o plano de golpe de Yoon, tornou-se evidente que o ex-presidente buscava provocar um novo “conflito limitado” com a Coreia do Norte para justificar a declaração de lei marcial. No entanto, esses planos não surtiram efeito, pois a Coreia do Norte recusou-se a cair na armadilha.
As incursões com drones ocorreram na sequência de uma série de outras provocações contra a Coreia do Norte durante o governo Yoon. Ao assumir o cargo em 2022, Yoon consagrou os ataques preventivos contra o Norte como parte da política militar de seu governo. Os exercícios militares com munição real com os EUA, que estavam suspensos desde 2019, foram retomados sob a gestão de Yoon e intensificaram-se explosivamente. As Forças dos EUA na Coreia realizaram exercícios de guerra por 200 dias em 2023 e 275 dias em 2024. Yoon também firmou um novo pacto de segurança trilateral com o Japão e os EUA, conhecido como JAKUS, que se tornou a plataforma para exercícios militares trilaterais anuais na península coreana.

Presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myeong
Republic of Korea/Wikicommons
Essas medidas representaram um golpe duradouro nas relações intercoreanas, tornando-se um fator importante na decisão da Coreia do Norte de renunciar ao acordo de reunificação pacífica no final de 2023. Mais provocações sul-coreanas continuaram ao longo de 2024. Balões carregando panfletos de propaganda foram enviados à Coreia do Norte por forças militares e civis, alto-falantes foram colocados na Zona Desmilitarizada para bombardear as comunidades fronteiriças com poluição sonora, e Yoon revogou o Acordo Militar Intercoreano de 2018 naquele verão, deslocando tropas para zonas de amortecimento previamente designadas. Com tal histórico de hostilidade, o Ministério Público sul-coreano encontrou pouca dificuldade em comprovar a intenção de Yoon de romper o armistício da Guerra da Coreia e retomar as hostilidades na península.
Embora o governo Lee tenha tomado medidas para expulsar as forças insurgentes remanescentes do governo, as novas revelações de incursões com drones realizadas durante sua própria Presidência, possivelmente com o apoio de agências de inteligência da Coreia do Sul, levantam a questão de se as investigações, os processos e os expurgos foram suficientes.
Em segundo plano, também paira a questão do possível envolvimento dos EUA. Embora a investigação até o momento não tenha esclarecido o conhecimento dos EUA sobre as incursões de drones mais recentes ou sobre aquelas ocorridas em 2024, a extensão da integração e do controle dos EUA sobre as Forças Armadas e os serviços de inteligência da Coreia do Sul naturalmente levanta suspeitas que ainda precisam ser completamente esclarecidas.
Os EUA detêm o controle operacional das forças armadas da Coreia do Sul desde 1950. As forças armadas dos dois países treinam juntas rotineiramente, e suas agências de inteligência também colaboram rotineiramente. Os EUA também monitoram extensivamente o espaço aéreo acima da Península Coreana, o que levanta questões sobre como tantas operações com drones puderam ocorrer sem o conhecimento dos EUA.
Reconciliação: um beco sem saída?
O governo de Lee pode esperar que seus esforços para investigar os incidentes com drones reduzam as tensões com Pyongyang. Uma declaração contundente de Kim Yo Jong, falando em sua qualidade de membro do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC), demonstra que isso pode ser mais fácil dizer do que fazer.
Embora Kim tenha expressado “apreciação pessoal” pela negação dos eventos por parte do Ministério da Defesa da Coreia do Sul e pelas promessas de investigar suas causas, ela manteve a posição de que as autoridades sul-coreanas ainda são responsáveis pelas violações da soberania da Coreia do Norte. Em resposta às alegações de que os drones poderiam ter sido enviados por operadores civis, Kim deixou clara a posição de seu partido e governo: “Não nos importamos”. Kim encerrou sua declaração alertando as autoridades sul-coreanas, às quais se referiu como “um bando de arruaceiros e desordeiros”, de que as tentativas de transferir a responsabilidade para grupos civis incentivariam as próprias organizações civis da Coreia do Norte a implantar drones no espaço aéreo sul-coreano.
A desconexão entre os dois governos demonstra uma incompreensão fundamental da posição da RPDC dentro da administração Lee.
A adoção da teoria dos dois Estados hostis por Kim Jong-un reflete a avaliação do Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC) sobre a realidade histórica da península e a natureza do Estado da República da Coreia. Não se trata de uma análise de qualquer administração ou indivíduo em particular.
A teoria dos dois Estados hostis identifica a Coreia do Sul como uma entidade fundamentalmente hostil devido à sua subordinação colonial ao imperialismo estadunidense. Embora os esforços de Lee ainda possam gerar alguma boa vontade, do ponto de vista de Pyongyang, o problema é estrutural, não pessoal.
Lee implementou diversas outras medidas para melhorar as relações com a Coreia do Norte. Seu governo desmantelou os alto-falantes direcionados à Coreia do Norte ao longo da DMZ e pôs fim a todas as campanhas civis e governamentais de envio de balões de propaganda para o norte. Sob o governo de Lee, a Coreia do Sul também repatriou pescadores norte-coreanos que haviam desaparecido no mar.
Em janeiro, Lee anunciou a intenção de seu governo de restabelecer unilateralmente o Acordo Militar Intercoreano de 2018, que havia sido desmantelado anteriormente por Yoon. Ele também explicou publicamente que, embora ainda apoie a eventual desnuclearização da Península Coreana, insistir no desarmamento da Coreia do Norte não é mais uma posição viável.
Contudo, a RPDC insiste que qualquer perspectiva de reconciliação intercoreana é incompatível com a realidade atual da política hostil dos EUA contra a RPDC, da qual a Coreia do Sul faz parte como aliada dos EUA, país que abriga dezenas de bases militares americanas e mais de 28 mil soldados americanos.
Embora tenha alardeado o compromisso de seu governo com a paz e a reconciliação, o governo Lee tomou poucas medidas para se desvencilhar dos EUA. Apesar de ter prometido retomar o controle operacional das forças armadas, isso exigirá que o governo Lee participe ainda mais dos mesmos exercícios militares que rotineiramente ameaçam a Coreia do Norte. Sob pressão das ameaças tarifárias de Trump, que recentemente se intensificaram, Lee fez novas concessões: aumentou os gastos com defesa da Coreia do Sul para 3,5% do PIB (embora alguns defendam um patamar de até 5%), prometeu US$ 25 bilhões (R$ 130,5 bilhões) em compras de armas norte-americanas na próxima década e destinou US$ 33 bilhões (R$171,6 bilhões) para apoiar financeiramente as Forças Armadas dos EUA na Coreia. Essas medidas, juntamente com o recente fiasco dos drones, apenas reforçaram a visão da Coreia do Norte de que o país não possui a independência política necessária para ser considerado um parceiro de negociação em pé de igualdade.
O impasse diplomático na Coreia não será resolvido até que o diálogo entre Washington e Pyongyang se torne possível. Para alcançar esse objetivo, a Coreia do Norte estabeleceu condições que o governo Trump ainda não cumpriu: a saber, que Washington abandone o objetivo da desnuclearização e que haja uma redução ou eliminação geral da agressão liderada pelos EUA. Uma decisão recente do Conselho de Segurança da ONU (CSNU) de permitir novas isenções humanitárias para as sanções do CSNU é um passo na direção certa, mas é preciso fazer mais.
O próximo encontro de Trump com Xi Jinping em Pequim, em abril, gerou considerável especulação de que uma cúpula com Kim também possa ocorrer na mesma época. Lee concluiu recentemente sua visita de Estado de quatro dias à China, onde destacou o potencial papel futuro da China nos assuntos da península coreana e propôs colaboração em diversos projetos regionais, incluindo a tão almejada ferrovia intercoreana que ligará Seul a Pequim.
No fim, Pequim pode se revelar a chave para desvendar o enigma diplomático na Coreia. As próprias palavras de Xi a respeito dessa questão, contudo, devem ser levadas em consideração: “Um metro de gelo não derrete de uma vez”.
























