Segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Primeira colocada do Grupo C, a Seleção Brasileira entrará em campo pela quarta vez nesta Copa do Mundo de 2026, pela fase de 16 avos de final da competição. É o primeiro duelo de eliminação direta e o adversário será o Japão, que terminou em segundo lugar no Grupo F do torneio.

Enquanto esperam pela partida que acontecerá nesta segunda-feira (29/06), na cidade de Houston, os japoneses vivem momentos de tensão geopolítica, com um país que parece estar cada vez mais mergulhado na disputa pela hegemonia planetária, envolvendo um dos anfitriões do Mundial, os Estados Unidos, e um vizinho regional, a China.

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A posição geográfica do arquipélago japonês torna o país um potencial coadjuvante da briga entre as duas superpotências.

O histórico de alianças estratégicas com os Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial, e o passado ainda mais longo de guerras sangrentas entre chineses e japoneses ao longo de séculos, indica que a posição de Tóquio nesse cenário não é difícil de deduzir – ainda mais quando se tem um governo de extrema direita no poder, como é o caso da atual administração, liderada pela primeira-ministra Sanae Takaichi.

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Segundo o analista internacional e professor universitário José Kobori, o Japão poderia ser arrastado para um papel ainda mais ativo nessa disputa entre Washington e Pequim, justamente por sua posição estratégica que poderia permitir que atuasse em uma disputa em favor da independência de Taiwan.

“Diante do cenário em que nós temos três clusters de poder, a Rússia, a China e os Estados Unidos, o Japão pode ser utilizado pelos Estados Unidos para fustigar a China, assim como a Ucrânia é usada para fustigar a Rússia, ou pelo menos para bloquear uma ascensão sem nenhum obstáculo do poder na Ásia – no caso da China – e do poder na Europa – por parte da Rússia”, comentou o analista.

O professor também acredita que é preocupante o movimento que o Japão faz nesse sentido, com a premiê Takaichi impulsionando uma reforma da Constituição para militarizar o país, medida que foi criticada pela China.

Por sua vez, o professor Alexandre Uehara, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP), aponta que a política de aumento dos gastos militares, embora reforçada no governo de Takaichi, já era observada em administrações anteriores, também incentivada pelos governos aliados norte-americanos anteriores a Trump.

Por exemplo, a Constituição japonesa do pós-guerra proíbe o uso da força como meio de resolver disputas internacionais. Porém, uma lei de 2015 – aprovada sob o governo do premiê Shinzo Abe (2012-2020), quando Barack Obama (2009-2017) liderava os Estados Unidos –, permite o exercício da autodefesa coletiva em certas situações.

Segundo Uehara, os Estados Unidos “buscam fortalecer o Japão e, com esse fortalecimento, mais do que criar uma ameaça, pretendem mostrar à China que existe ali um importante ator de dissuasão”.

No entanto, o acadêmico pondera que “nos últimos anos, os governos do Japão têm se sentido mais na posição de ameaçado do que na de ameaça à China. A população também se sente mais ameaçada (pela ascensão da China), e isso tem embasado essas políticas de fortalecimento militar”.

A questão de Taiwan

Em novembro de 2025, a primeira-ministra Takaichi fez uma declaração que preocupou o governo chinês, ao afirmar que uma eventual ameaça chinesa contra Taiwan poderia ser interpretada pelo Japão como uma “situação de risco de sobrevivência”, o que justificaria uma possível mobilização de forças militares para “exercer o direito de autodefesa”.

Os comentários da premiê japonesa foram respondidos dias depois pelas autoridades de Pequim, que questionaram se Tóquio “está tentando repetir seus erros do passado”.

“O Japão deve refletir profundamente sobre suas responsabilidades em tempos de guerra e aprender com a história”, acrescentou a nota do Ministério de Relações Exteriores chinês.

A questão de Taiwan, embora seja um conflito interno da China, também é o principal foco de tensão entre chineses e japoneses.

Politicamente, a ilha pertence à República Popular da China, situação que é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela maioria dos países do mundo – incluindo os Estados Unidos.

Entretanto, a ilha tem seu próprio governo, que funciona dentro do modelo de “Uma Só China”, no qual Pequim reconhece certa autonomia – assim como o faz com Macau e Hong Kong – mas mantendo o território dentro de suas fronteiras constitucionalmente estabelecidas.

A proximidade da ilha com o arquipélago japonês a torna um elemento de conflito com a China. O Estreito de Taiwan, que separa esses territórios, “é uma rota logística que abastece quase toda a China, e também o Japão”, ressalta o professor Kobori.

“O que o Japão pode considerar uma ameaça à sua sobrevivência é a possível reunificação da China com Taiwan, porque isso poderia levar Pequim a controlar o Estreito”, salienta o professor, que faz um paralelo com a situação vivida atualmente no Oriente Médio, onde o Irã passou a controlar as rotas marítimas pelo Estreito de Ormuz, em retaliação à agressão sofrida por Estados Unidos e Israel.

O professor Uehara faz um contraponto a essa questão, embora reconhecendo as tensões entre China, Japão e Taiwan, e o envolvimento dos Estados Unidos nesse tema, mas argumentando que “não é do interesse do Japão nem de Taiwan entrar em um conflito com Pequim neste momento”.

“O Japão não tem armas nucleares e isso faz com que a dependência dos Estados Unidos para sua defesa seja muito grande”, lembra o acadêmico. Outro fator que reforça a tese de que o Japão não tem interesse em um conflito contra a China é o fato de que “Tóquio mantém relações econômicas importantes com Pequim”.

A premiê japonesa Sanae Takaichi em encontro com o presidente chinês Xi Jinping
Governo da China

Na Copa: Japão forte, mas Brasil tem Vini Jr.

No confronto desta segunda-feira pela Copa do Mundo, o rival do Japão será outro país fundador do BRICS, mas não o C de China, e sim o B de Brasil.

Segundo Alexandre Uehara, a seleção japonesa “mostrou na fase de grupos ser um time muito bem treinado”, mas ressaltou a questão histórica, de que o futebol japonês é “discípulo do Brasil”, já que o esporte cresceu no país asiático a partir da chegada de craques brasileiros como Zico, a partir dos Anos 90.

“Eu conheço esse processo, pois tive contato com os primeiros jogadores japoneses que vieram para cá, e com os jogadores brasileiros que foram para o Japão também”, recorda o acadêmico.

Apesar de considerar o atual time selecionado do Japão um dos melhores que o país já levou para uma Copa do Mundo, Uehara acredita que o Brasil pode fazer a diferença na partida devido aos seus valores individuais, especialmente o atacante Vinícius Junior, um dos artilheiros do torneio, com quatro gols marcados até agora.

No entanto, o professor faz um alerta: “o Brasil tem que tomar cuidado na defesa, porque o Japão é um país que com essa aplicação tática envolve bastante e a defesa do Brasil tem sofrido bastante nos últimos jogos”.

José Kobori concorda com essa visão sobre o confronto entre Brasil e Japão. Para ele, “a Seleção Japonesa está muito bem estruturada, uma seleção que tem um jogo sólido, um esquema tático já que vem há algum tempo e funciona direitinho, o conjunto já é muito sólido. Mas o Brasil tem tido uma evolução durante a primeira e o talento individual do Vini Jr., pode favorecer”.

Kobori também concorda com Uehara sobre o possível ponto fraco do Brasil na disputa. “A defesa do Brasil não tão sólida, e isso pode nos causar surpresas. Então, talvez este seja um dos jogos mais difíceis para o Brasil em seu caminho para tentar chegar ao hexa”.

Apesar de serem ambos descendentes de japoneses, Uehada e Kobori disseram que torcerão para o Brasil nesta segunda-feira.