Tailândia intensifica ataques contra Camboja em meio às negociações para trégua
Segundo Ministério da Defesa cambojano, país vizinho atacou províncias fronteiriças e templos sagrados, mas ofensiva não impedirá 'conversas para cessar hostilidades'
Em meio às negociações para solucionar o conflito na fronteira com o Camboja, as forças militares tailandesas intensificaram nesta sexta-feira (26/12) as suas operações contra o país vizinho.
Segundo a porta-voz do Ministério da Defesa Nacional do Camboja, tenente-general Maly Socheata, os ataques tailandeses começaram às 05h40 no horário local, com intensos bombardeios na área do templo de Preah Vihear, na província de mesmo nome, que é em território disputado, e nos templos de Ta Krabey e Tamone, em Oddar Meanchey.
Entretanto, a província de Banteay Meanchey continua sendo um alvo prioritário, especificamente as aldeias de Prey Chan e Chouk Chey — atacada com artilharia, aviões de combate e cerca de 40 projéteis, explicou Socheata.
Segundo a porta-voz à agência de notícias AKP, outros ataques também foram relatados na cidade de Poipet. Em comunicado, o Ministério da Defesa Nacional informou que as forças cambojanas prestaram assistência aos civis feridos nos ataques e estão monitorando de perto a situação, mantendo-se firmes, corajosas e vigilantes em seu dever de proteger a integridade territorial do Camboja.
A autoridade declarou ainda que, apesar da escalada da violência, as equipes Secretariado do Comité Geral de Fronteiras (GBC, na sigla em inglês) planejam “continuar as conversas técnicas com o objetivo de garantir a cessação das hostilidades, restaurar a estabilidade regional e facilitar o retorno à normalidade para os civis deslocados”.
As delegações entram em seu terceiro dia de negociação nesta quinta-feira (26/12). Segundo o jornal britânico The Guardian, os ministros da Defesa de ambos os países devem reunir-se no próximo sábado (27/12).
“Defenderemos nossa dignidade nacional com coragem e determinação inabalável, a qualquer custo, sem ceder à coerção ou intimidação de qualquer tipo”, reafirmou o ministério da Defesa de Camboja.
Por sua vez, o Ministério do Culto e da Religião do país expressou sua forte condenação ao que chamou de “ato brutal do exército tailandês”, que destruiu uma estátua de Preah Vishnu [divindade hindu] na área de An Ses, província de Preah Vihear.
“Essa ação fere profundamente os sentimentos dos fiéis religiosos em todo o mundo, já que o público venera profundamente essa estátua, que também faz parte do patrimônio cultural comum da humanidade”, enfatizou a pasta.
Enquanto isso, líderes religiosos do Camboja emitiram na última quinta-feira (25/12) uma declaração condenando a invasão das forças armadas tailandesas contra a soberania e a integridade territorial do Camboja.
Em uma declaração conjunta, os líderes e seguidores de diversas organizações religiosas de Camboja denunciaram as “duas invasões armadas não provocadas, injustificadas e ilegais realizadas pelo exército tailandês: a primeira entre 24 e 28 de julho de 2025, e a segunda iniciada em 7 de dezembro e que continua sem cessar”.

Templo de Preah Vihear, localizado em território disputado na fronteira entre Tailândia e Camboja
PsamatheM
Histórico de conflitos
Confrontos violentos eclodiram na primeira semana de dezembro, na fronteira entre a Tailândia e o Camboja, em meio a acusações mútuas de violação do cessar-fogo acordado em julho passado. Bangkok declarou que as tropas cambojanas abriram fogo contra seus soldados na província de Ubon Ratchathani na madrugada de 8 de dezembro, “resultando em um soldado morto e quatro feridos”.
Entretanto, Phnom Penh afirmou que as forças tailandesas lançaram um ataque contra suas tropas nas províncias fronteiriças de Preah Vihear e Oddar Meanchey, acusando a Tailândia de “disparar vários tiros de tanque contra o templo de Ta Muen Thom” e outras áreas próximas ao templo de Preah Vihear.
A disputa combina elementos históricos não resolvidos, visto que a fronteira entre a Tailândia e o Camboja foi demarcada pela França em 1907, ainda durante o período colonial, mas ainda apresenta diversas áreas não delimitadas, o que levou a confrontos ao longo dos anos.
A instabilidade da demarcação das fronteiras leva à disputa pela soberania de templos antigos, como Preah Vihear, Ta Krabey e Ta Moan Thom. Os templos são um dos fatores no centro do conflito, pois ambos os países os consideram símbolos de identidade nacional, o que transforma a disputa para além da questão territorial.
A fronteira também inclui áreas com potencial agrícola e importantes rotas comerciais, o que aumenta o interesse em controlá-las.
Uma fase anterior do conflito eclodiu em 24 de julho, com acusações mútuas de quem havia disparado o primeiro tiro, resultando na morte de 43 pessoas de ambos os lados, incluindo vários civis, além de dezenas de feridos e o deslocamento de centenas de milhares pessoas.
Após cinco dias de combates, representantes dos governos em guerra assinaram um cessar-fogo em uma reunião realizada na Malásia, mediada por representantes dos Estados Unidos e da China. Com a volta dos embates semanas atrás, o presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu que o conflito entre Tailândia e Camboja, que “ele havia parado, voltou a eclodir” e prometeu “resolver tudo novamente”.
O Camboja levou a disputa territorial ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) no início de junho, justificando a ação como uma tentativa de encontrar uma solução pacífica com base no direito internacional, enquanto a Tailândia defende um acordo bilateral.
(*) Com Prensa Latina, RT en español e Sputnik
























