Tailândia mobiliza forças navais e aéreas contra Camboja, que denuncia ‘ataques brutais’
Marinha Tailandesa lançou ofensiva na fronteira para ‘suprimir inimigo’, enquanto forças cambojanas dizem ‘defender sua integridade territorial’
A Tailândia intensificou o conflito com o Camboja nesta quarta-feira (10/12) ao mobilizar forças navais e aéreas em uma nova operação militar, em meio ao aumento das tensões na fronteira compartilhada.
A ofensiva lançada pela Marinha Real Tailandesa entre as províncias de Chanthaburi e Trat é denominada “Trat Prap Porapak” e busca “suprimir o inimigo”, de acordo com a tradução. A operação inclui o navio de guerra HTMS Thepa em alerta máximo e a mobilização de aviões-caça.
Toda a tripulação da embarcação está em plena prontidão para combate, com os sistemas de armas do navio prontos para responder imediatamente a qualquer escalada, afirmaram as autoridades tailandesas.
Além disso, a Marinha alertou todos os barcos de pesca tailandeses para que evitassem navegar perto da fronteira marítima próxima ao Camboja e os instou a relatar imediatamente qualquer avistamento de navios de guerra cambojanos.
Segundo um comunicado, a entidade militar “assumiu autoridade operacional ampliada em seu setor devido à escalada das hostilidades com o Camboja”. Na última terça-feira (09/12), o navio HTMS Thepa forneceu apoio às forças terrestres tailandesas, usando seus canhões principais para atacar posições no lado cambojano, em apoio a uma operação para recapturar uma área próxima à cidade de Ban Nong Ri.
A Tailândia justificou a operação porque as forças cambojanas haviam estabelecido uma base operacional em Trat com “suas unidades com equipes de operações especiais, atiradores de elite e lançadores múltiplos de foguetes” e modernizando “suas posições e instalações táticas”.
De acordo com informações divulgadas pelo Exército tailandês, quatro soldados foram mortos e 68 ficaram feridos nos confrontos recentes. Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa tailandês, Surasant Kongsiri, citado pela agência France Presse (AFP), os embates deslocaram meio milhão de pessoas. “Civis tiveram que se retirar em massa devido a uma ameaça iminente à sua segurança”.
Camboja denuncia “ataques indiscriminados”
Por sua vez, a porta-voz do Ministério da Defesa Nacional do Camboja, Tenente-General Maly Socheata, denunciou a continuação do que chamou de “ataques brutais e indiscriminados” lançados pelas forças militares tailandesas contra o seu país.
Segundo a representante, os ataques desta manhã ocorreram no que identificam como Regiões Militares 4 e 5 e atingiram as áreas de Tamone Thom, Ta Krabey, Thmar Daun, os templos de Khnar, Boeung Trakuon e Prey Chan.
“Essas ações brutais e ilegais constituem uma grave violação do Acordo de Cessar-Fogo e da Declaração Conjunta assinada pelo Camboja e pela Tailândia em 26 de outubro de 2025”, enfatizou Socheata.
A porta-voz, citada pela agência de notícias de notícias de Camboja AKP, reafirmou também o total empenho do Ministério da Defesa Nacional e das Forças Armadas Reais do Camboja “em apoiar e implementar os esforços do Governo para resolver o conflito por meios pacíficos, em conformidade com o direito internacional”.
O Ministério da Defesa do Camboja também confirmou que caças F-16 tailandeses “violaram repetidamente” seu o espaço aéreo. “Às 9h45 (horário local), caças F-16 tailandeses sobrevoaram a comuna de O’Beichoan e a cidade de Poipet, na província de Banteay Meanchey, e cinco minutos depois, outros caças sobrevoaram a rotunda de Stung Bot em Poipet duas vezes”, detalhou.

Ofensiva lançada pela Marinha Real Tailandesa ocorre entre províncias de Chanthaburi e Trat
PH3 ALEX C. WITTE, USN
A pasta ainda acusou os aviões tailandeses de lançarem “duas bombas sobre a vila de Slor Kram, na comuna de Slor Kram, distrito de Svay Chek, província de Banteay Meanchey”.
“Este não é o primeiro caso em que caças tailandeses violaram e bombardearam território cambojano desde que as forças armadas tailandesas retomaram suas operações agressivas contra a integridade territorial do Camboja em 7 de dezembro”, observou o ministério.
Apesar do avanço tailandês, “as forças cambojanas têm lutado bravamente e permanecem firmes na defesa da integridade territorial do Camboja”.
Histórico de conflitos
Confrontos violentos eclodiram novamente esta semana na fronteira entre a Tailândia e o Camboja, em meio a acusações mútuas de violação do cessar-fogo acordado em julho passado.
Bangkok declarou que as tropas cambojanas abriram fogo contra seus soldados na província de Ubon Ratchathani na madrugada de segunda-feira (08/12), “resultando em um soldado morto e quatro feridos”.
Entretanto, Phnom Penh afirmou que as forças tailandesas lançaram um ataque contra suas tropas nas províncias fronteiriças de Preah Vihear e Oddar Meanchey, acusando a Tailândia de “disparar vários tiros de tanque contra o templo de Ta Muen Thom” e outras áreas próximas ao templo de Preah Vihear, localizado em território disputado.
A disputa combina elementos históricos não resolvidos, visto que a fronteira entre a Tailândia e o Camboja foi demarcada pela França em 1907, ainda durante o período colonial, mas ainda apresenta diversas áreas não delimitadas, o que levou a confrontos ao longo dos anos.
A instabilidade da demarcação das fronteiras leva a soberania de templos antigos, como Preah Vihear, Ta Krabey e Ta Moan Thom, a ser disputada. Os templos são um dos fatores no centro do conflito, pois ambos os países os consideram símbolos de identidade nacional, o que transforma a disputa para além da questão territorial.
A fronteira também inclui áreas com potencial agrícola e importantes rotas comerciais, o que aumenta o interesse em controlá-las.
Uma nova fase do conflito eclodiu em 24 de julho, com acusações mútuas de quem havia disparado o primeiro tiro, resultando na morte de 43 pessoas de ambos os lados, incluindo vários civis, além de dezenas de feridos e o deslocamento de quase 300 mil pessoas.
Após cinco dias de combates, representantes dos governos em guerra assinaram um cessar-fogo em uma reunião realizada na Malásia, mediada por representantes dos Estados Unidos e da China.
O presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu nesta quarta-feira (10/12) que o conflito entre Tailândia e Camboja, que “ele havia parado, voltou a eclodir” e prometeu “resolver tudo novamente”.
O Camboja levou a disputa territorial ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) no início de junho, justificando a ação como uma tentativa de encontrar uma solução pacífica com base no direito internacional, enquanto a Tailândia defende um acordo bilateral.
(*) Com Prensa Latina, RT en español e Sputnik
























