Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
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Esta é a segunda parte do especial “O Estado que vendeu mulheres: a história das sul-coreanas traficadas” de Opera Mundi, composto de três reportagens. Leia também:

– Parte 1: ‘Fábrica de dólares’: como Coreia do Sul e EUA exploraram sexualmente mulheres no pós-guerra

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– Parte 3: Documento expõe papel ativo da ditadura sul-coreana no esquema de tráfico sexual

“Essas pessoas não conseguem trazer a minha juventude de volta. Então resta apenas uma alternativa. Se nos pedirem desculpas e nos indenizarem, poderemos morrer de forma digna”, disse Lee Young Sook, uma das milhares de mulheres reféns do esquema de tráfico sexual promovido pela Coreia do Sul para servir os soldados norte-americanos, principalmente no período pós-guerra.

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Com 71 anos, Lee contou a Opera Mundi que atualmente o único local onde frequenta é o hospital. E “nem sequer o valor do hospital” foi fornecido pelo governo sul-coreano, muito menos um pedido de desculpas por parte dos Estados Unidos, a quem as denunciantes da mais recente ação judicial qualificam como “o verdadeiro culpado”.

Em setembro de 2025, as 117 sobreviventes que foram exploradas sexualmente na Coreia do Sul moveram um processo sem precedentes contra as Forças Armadas dos Estados Unidos na Coreia (USFK, na sigla em inglês). A reportagem teve acesso ao documento, que alega que os militares norte-americanos incentivaram um tráfico local que durou décadas no país asiático, começando com a chegada das primeiras tropas estrangeiras em 1945, pouco antes da eclosão da Guerra da Coreia.

Registrado no Tribunal Distrital Central de Seul, o processo apresenta graves alegações sobre o modus operandi do esquema conduzido conjuntamente entre as autoridades sul-coreanas e norte-americanas. São elas:

  • Promoção ativa e justificativa da prostituição: o Exército norte-americano não apenas tinha conhecimento do tráfico sexual, como também autorizou sua operação dentro das bases militares e campos de treinamento.
  • Gestão violenta e discriminatória de doenças: os Estados Unidos, que já haviam abolido o isolamento forçado por Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) em seu país, em 1953, exigiram e supervisionaram a implementação da medida na Coreia do Sul, entre as décadas de 1970 e 80. A Polícia sul-coreana foi conivente, e transportou mulheres para as instalações de quarentena, como as de Dongducheon, onde se aplicavam as injeções de penicilina de forma indiscriminada e clandestina. Muitas vidas foram perdidas nesse esquema.
  • Cumplicidade e falha de proteção: as forças norte-americanas negligenciaram investigações, ignoraram os crimes e agressões cometidos pelos seus soldados contra as mulheres, não fornecendo qualquer tipo de proteção, pelo contrário, incentivando a prostituição violenta.

“[Certa vez] Fui agredida por um soldado e denunciei o caso à base militar norte-americana e à polícia sul-coreana, mas não recebi nenhuma ajuda. Meus dentes da região frontal quebraram. O soldado me espancou e fugiu para a sua base. Cheguei a persegui-lo até o portão principal, mas a polícia não me deixou entrar. Insisti para que o prendessem, mas se fizeram de desentendidos. Na delegacia mais próxima, me disseram que não podiam fazer nada”, contou Kim Kyung Sook, de 75 anos, a Opera Mundi

O documento lembra que em julho de 1941, pouco antes de ingressar na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos promulgaram o chamado Ato de Maio, uma lei federal que proibia as relações dos seus soldados com prostitutas. O texto argumenta que, portanto, as autoridades militares norte-americanas deveriam ter proibido o esquema, mas optaram por ignorar a legislação.

“Em vez disso, focaram em tornar a prostituição possível ‘sem contrair doenças sexualmente transmissíveis’. Até cerca de 2004, as autoridades militares dos Estados Unidos sabiam que seus soldados norte-americanos usufruíam da prostituição em clubes e até exploravam sexualmente menores, mas não os disciplinavam nem os proibiam. Quase todas as mulheres das quais o exército dos Estados Unidos comprava sexo eram vítimas de tráfico humano, mas as autoridades militares não fizeram nada”, diz.

Responsabilização e reparação

As denunciantes do caso são idosas e, em sua maioria, vivem em condições precárias, apresentando sequelas físicas e psicológicas devido às atrocidades do passado. Para elas, a ação contra os Estados Unidos configura a “batalha final de uma vida inteira”, uma questão vai muito além da indenização. De acordo com as vítimas, é necessário que Washington reconheça a natureza criminal e sistemática da exploração não como “atos individuais”, mas como política.

Nesse sentido, exigem um pedido formal de desculpas, a criação de leis e comissões dedicadas à investigação de fatos históricos, a criação de mecanismos que evitem a repetição dos crimes passados, além da expansão do apoio médico, psicológico e social para aliviar o sofrimento contínuo das sobreviventes.

“O que eu quero dizer tanto ao governo sul-coreano quanto às forças norte-americanas é que, por favor, deixem as nossas irmãs viverem sem dor. Que elas possam passar seus últimos dias de vida sem se preocupar com, pelo menos, as despesas médicas”, disse Kim.

Coletiva de imprensa sobre ação judicial contra militares dos Estados Unidos na Coreia do Sul
Reprodução / 새움터

Vitória parcial na Coreia do Sul

O processo atual que mira os Estados Unidos representa um novo capítulo na luta das mulheres por justiça, uma vez que já obtiveram uma vitória parcial contra o Estado sul-coreano anos atrás, em uma batalha judicial que durou oito anos.

Em fevereiro de 2018, o Tribunal Superior de Seul condenou o governo a indenizar as vítimas que atuaram nos acampamentos militares norte-americanos. Na ocasião, a sentença reconheceu que a nação não apenas falhou em proteger suas cidadãs. Pelo contrário: promoveu ativamente, justificou e gerenciou a exploração sexual como parte de uma política de Estado.

A primeira instância havia concedido cinco milhões de won (cerca de R$ 20 mil) apenas para 54 demandantes, reconhecendo as ilegalidades referentes aos tópicos de isolamento forçado para tratamento de ISTs. Posteriormente, o tribunal ampliou o entendimento da denúncia e, como consequência, o número de beneficiadas. Desta forma, determinou-se o fornecimento de:

  • 7 milhões de won (cerca de R$ 28 mil) para cada uma das 74 demandantes cujas alegações sobre promoção da prostituição e isolamento forçado ilegal foram aceitas.
  • 3 milhões de won (cerca de R$ 12 mil) para cada uma das 43 demandantes que tiveram reconhecidas apenas as alegações sobre promoção da prostituição.

“Depois que ganhamos um processo contra o governo sul-coreano, a província de Gyeonggi declarou que nos apoiaria, mas fornecendo apenas 100 mil won (R$ 370) para quem não recebesse benefícios assistenciais. Ou seja, para quem recebia [benefícios assistenciais], nada. Fiquei tão chocada e brava que me recusei a aceitar esses 100 mil won”, desabafou Lee Young Sook.

‘Educação patriótica’ e exploração sistêmica

A Corte reconheceu que o Estado sul-coreano cometeu “intermediação, auxílio e instigação à prostituição”, citando, na sentença, diversas pastas ministeriais, além da Polícia e dos governos provinciais como entidades que criaram e mantiveram o esquema. Segundo a ação, os órgãos realizaram “pedidos de cooperação na prostituição para tropas estrangeiras” e buscaram ainda a “melhoria dos serviços” nesses locais, com o objetivo de “elevar e melhorar a moral das tropas” norte-americanas.

“Em 1962, a República da Coreia estabeleceu e gerenciou 104 ‘áreas específicas’ onde a prostituição era possível sob as diretrizes conjuntas do Ministério do Interior, do Ministério da Justiça e do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais, exigindo que Mulheres de Conforto recebessem certificados de exame médico e passassem por exames semanais”, afirma determinado trecho referente ao isolamento forçado para a aplicação indiscriminada de penicilina.

Um dos pontos mais graves destacados pela decisão é a chamada “educação patriótica”. O tribunal verificou que autoridades incitaram e justificaram a prostituição por meio de atividades em grupos nas quais as vítimas eram elogiadas ao serem chamadas de “patriotas que adquirem moeda estrangeira”. Elas também eram instruídas sobre como se portar com os clientes.

“Não lute contra as forças armadas dos Estados Unidos, mas seja gentil e boa”, era o slogan usado na educação patriótica.

Além disso, as mulheres eram enganadas com falsas promessas de que, em troca dos serviços sexuais, receberiam benefícios, como moradias exclusivas.

“O réu explorou o direito das autoras à autodeterminação sexual e até mesmo sua própria personalidade, representada pelo sexo, como um ‘meio’ para atingir objetivos nacionais”, diz um trecho da sentença, concluindo que o Estado fez da situação uma oportunidade para consolidar a aliança militar e adquirir divisas, causando danos psicológicos.

“Vamos morrer em breve. Mas gostaria que nos apoiassem para podermos morrer em paz”, desejou Lee.

(*) Os nomes utilizados na reportagem são fictícios conforme solicitação das entrevistadas.

(*) Nas entrevistas originais, as vítimas referem-se umas às outras de “onni” (“irmã”, na tradução em português). Na Coreia do Sul, o termo não é usado apenas no sentido biológico. A mulher pode chamar uma segunda mais velha de “onni” desde que haja um certo nível de confiança ou proximidade. Ou seja, a designação usada pelas entrevistadas revelam uma união presente entre as vítimas.