Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com o premiê espanhol Pedro Sanchéz em Barcelona nesta sexta-feira (17/04), durante a 1ª Cúpula Brasil-Espanha, que estreia a série de compromissos do líder brasileiro na Europa.

Durante o encontro, Brasil e Espanha assinaram 15 acordos abrangendo áreas como ciência, tecnologia e inovação, economia social, saúde, cultura, empreendedorismo, micro e pequenas empresas, serviços aéreos, cooperação consular, telecomunicações, igualdade de gênero e combate à violência contra as mulheres.

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A Espanha representa hoje o quinto destino global das exportações brasileiras em 2025 e o segundo na União Europeia. Do ponto de vista econômico, o país é o oitavo maior parceiro comercial brasileiro, com fluxo de comércio que atingiu US$ 12,6 bilhões em 2025 e superávit de quase US$ 5 bilhões para o Brasil. Além disso, mais de mil empresas espanholas atuam em território brasileiro.

Em coletiva de imprensa, ao lado de Lula, Sanchéz destacou que o governo brasileiro vem demonstrando que é possível governar para uma maioria social “reduzindo a desigualdade sem abrir mão do crescimento econômico” e “melhorando o presente sem hipotecar o futuro das próximas gerações”.

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Ele também destacou o Acordo de Livre Comércio entre a União Europeia e o Mercosul, salientando sua importância não apenas do ponto de vista econômico e comercial, mas também político frente à “fragmentação, confrontos e guerras”. O que queremos transmitir, salientou, é “uma mensagem de cooperação, abertura,  confiança mútua e prosperidade compartilhada”.

“Nossos governos, assim como sentem nossas populações, também querem redobrar os esforços para trabalharmos pela paz em um multilateralismo renovado e reforçado. Enquanto outros abrem feridas, nós queremos curá-las e nos dedicar ao importante que é reduzir e estancar a desigualdade”, afirmou.

O premiê espanhol salientou que “defender a paz não é apenas não ter guerras”, mas lutar por justiça social,  progresso, defesa da democracia e por “valores que estão sendo atacados pela onda reacionária, pelo autoritarismo e pela desinformação que ameaça a fortaleza de nossas instituições democráticas”.

Ao lado de Sanchéz, Lula defende multilateralismo: ‘é preciso dar esperança ao mundo’
Ricardo Stuckert / PR

Ao iniciar seu discurso, o presidente brasileiro agradeceu a dedicação de Sanchéz na conclusão do acordo entre a UE e o Mercosul, afirmando que a união entre Brasil e Espanha foi decisiva. “Mostramos ao mundo que é possível chegar a resultados vantajosos para todos, por meio da negociação”.

Lula destacou que “a democracia precisa ir além do voto e em trazer benefícios concretos para a vida das pessoas”, salientando os acordos firmados entre Brasil e Espanha, em particular, os microempreendedores individuais, a economia solidária e o cooperativismo. “A Espanha tem sido pioneira na adoção de leis e políticas que buscam responder aos atuais desafios do mundo de trabalho. Sua experiência é muito valiosa para o Brasil”.

Redes digitais

Lula e Sanchéz fizeram uma forte crítica ao ambiente de ódio na internet, a Espanha é um dos países europeus que vem tentando emplacar uma legislação para impedir o uso das redes sociais por crianças e adolescentes. O premiê espanhol contou que, segundo estudo da Unicef e Universidade de Compostela, o acesso a conteúdo pornográfico e violento atinge crianças com pouco mais de onze anos. “Temos de agir e rápido”.

Ao comentar o tema, o presidente brasileiro afirmou que “sem regras, as Big Techs vão instituir a era do colonialismo digital”. Nossos dados são extraídos, monetizados e usados para concentrar poder político e econômico nas mãos de um punhado de bilionários”, salientou Lula, ao acrescentar que “tudo o que é crime no mundo [real] tem que ser também no mundo virtual”.

“Não é possível tratar como normal e liberdade de expressão a indústria da mentira, do ódio, a violência verbal, da desinformação”, afirmou o presidente brasileiro ao ressaltar o ECA Digital, programa do seu governo, como o primeiro passo do que deve ser feito no setor digital.

“Eu não consigo chamar de rede social, porque de social tem muito pouco. Chamo de rede digital porque a maioria das pessoas não a usam para o bem”, afirmou. “Se não transformarmos a questão da violência digital com a mesma punição da vida real, a gente não conserta isso”, frisou.

Defesa da Democracia

O premiê espanhol destacou a importância da IV Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre, iniciativa da Espanha e do Brasil que reúne governos de perfil progressista. A reunião acontece neste sábado (18/04) com presença já confirmada de várias lideranças, entre elas os presidentes do México, Claudia Sheinbaum, e o da Colômbia, Gustavo Petro.

“Vamos falar sobre como enfrentar esta onda reacionária que estamos vivendo nas redes sociais. Em segundo lugar, da reforma necessária do direito multilateral. Defendemos o direito Internacional, a ordem multilateral, que alguns, de forma ativa ou passiva, ou pensam que já morreu ou tratam de destruir”, salientou.

Sanchéz também mencionou as iniciativas comuns que os governos do Brasil e da Espanha estão liderando em diferentes fóruns multilaterais, como a pressão pela taxação dos multimilionários, “uma imposição internacional para que efetivamente estes recursos econômicos cheguem aos países que precisam para realizarem transformações e serem prósperos”.

“A desigualdade é um dos principais desafios que a humanidade enfrenta. É preciso criar uma arquitetura, uma estrutura onde não só os representantes dos governos, mas também acadêmicos e cientistas possam participar e contribuir com sua inteligência e seus conhecimentos para respondermos efetivamente a este desafio”, salientou.

Extrema direita

Lula também mencionou que estamos vivendo “um extremismo negacionista que não tem nada concreto e de novo”, “nenhum programa que possa mostrar algum despertar para o futuro” e que aposta na destruição das instituições que já existem. “Por que  as pessoas votam nisso? Onde nós falhamos enquanto democratas?”, questionou.

Lembrando que Estado de bem-estar social foi criado na Europa, Lula destacou que na maioria dos países, a classe trabalhadora vem  retrocedendo em seus direitos, enquanto a concentração de riqueza aumenta. “Estão  tirando direitos humanos conquistados a sangue e suor. A democracia foi se enfraquecendo e aí ganha corpo o extremismo, em que você não tem que respeitar ninguém” e a “única coisa que vale é a imbecilidade de um discurso que não tem começo nem fim”, afirmou.

“Cabe a nós, fazendo as reuniões que estamos fazendo, criar a consciência de que a democracia precisa ter porta-vozes em nível internacional”, complementou, ao ressaltar a importância do fórum neste sábado. “Juntar as pessoas progressistas é muito importante”, salientou. “É preciso dar esperança ao mundo, ter um discurso que tenha esperança e desperte o sonho nas pessoas”, acrescentou.

Guerras e Venezuela

Ele também mencionou a batalha contra a desigualdade. “Lutamos por uma sociedade justa, onde todos possam ter uma vida plena. Trabalhamos para reduzir desigualdades dentro dos países e entre eles. Queremos um mundo onde a soberania e as regras do multilateralismo sejam respeitadas. Brasil e Espanha estão na mesma trincheira”, afirmou.

O presidente brasileiro também mencionou o contexto de guerras em várias regiões de mundo às quais “assistimos atônitos”. Ele salientou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU. Lula lembrou que ao surgir, no final da II Guerra Mundial, a ONU “teve um papel importante na criação do Estado de Israel, mas hoje não consegue consolidar o Estado palestino. Ela está muito enfraquecida”, salientou.

Ele também mencionou que as nações que criaram a entidade não a respeitam mais. “Aquilo que foi criado para fortalecer o processo democrático está se esvaindo, está se exaurindo”, lamentou.

Questionado, durante a coletiva, especificamente sobre a situação na Venezuela, o líder brasileiro disse que o destino do país caribenho é dos venezuelanos e que cabe à Venezuela cuidar do seu destino. Ele também afirmou que a presidenta Delcy [Rodríguez] está no poder legitimamente.

“Na medida em que o presidente [Nicolás Maduro] caiu, ela era vice-presidente e assumiu. Se ela quer ou não convocar eleição é um problema dela, do partido dela e do povo da Venezuela”, afirmou. “Eu já tenho muitas preocupações no Brasil para me preocupar com a Venezuela. Eu quero que a Venezuela fique bem, volte a ser um país feliz e sem tutela de ninguém”, acrescentou.

Nesta sexta-feira (17/04), Lula também irá reunir com empresários brasileiros e espanhóis, em um esforço para ampliar investimentos e fortalecer o intercâmbio econômico entre os dois países. Após a passagem pela Espanha, ele seguirá para a Alemanha e depois para Portugal.