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A Caminhada do Silêncio volta às ruas de São Paulo (SP) neste domingo (29/03) para a sua 6ª edição, com concentração às 16h diante do antigo DOI-Codi, na rua Tutóia, e cortejo mudo até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Ibirapuera.

Criado em 2019, quando o governo de Jair Bolsonaro (PL) conclamava a “comemorar” o golpe militar de 1964, o ato se inspira diretamente na Marcha del Silencio, que ocorre em Montevidéu há mais de três décadas e reúne uma multidão de uruguaios em memória das vítimas da ditadura.

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“Era o primeiro ano do Bolsonaro e ele pediu que saíssem de branco para celebrar a ditadura”, recorda a procuradora Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e uma das fundadoras do Movimento Vozes do Silêncio, coalizão que hoje reúne mais de 100 entidades.

O convite oficial à comemoração, diz ela, fez explodir a mobilização. Na estreia, mais de 10 mil pessoas iluminaram a Praça da Paz com velas e entoaram canções guiadas por músicos solidários à causa, como Renato Braz, Eduardo Gudin e Vicente Barreto. “Nós achávamos que seriam umas 500 pessoas. No domingo virou um rio de luzes dentro do Ibirapuera, foi realmente mágico”, relata Eugênia.

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Desde então, a versão paulistana cresceu, entrou no calendário oficial da cidade (Lei 17.886) e virou ponte entre violações do passado e as de hoje. A professora de psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Vera Paiva, filha do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pelo governo militar em 1971, lembra que logo na segunda edição o cortejo passou a acolher também as mães de jovens periféricos mortos pela violência policial. “A ditadura não terminou para quem mora na periferia”.

O historiador César Novelli, do Núcleo Memória, observa que o trajeto da marcha também conta uma história. Em 2024, quando os 60 anos do golpe pediam um gesto mais incisivo, a organização desceu a rua Abílio Soares, passando diante do Círculo Militar e do Comando do Sudeste.

No ano seguinte, a Polícia Militar vetou a mesma descida alegando “segurança” por causa de um ato bolsonarista na Paulista que pedia anistia para os golpistas de 8 de Janeiro. A Caminhada precisou contornar o quarteirão. Para Novelli, foi a prova de que a memória “continua andando, ainda que tentem interditar o caminho”.

Caminhada do Silêncio volta às ruas em memória das vítimas da ditadura
Tuane Fernandes/ Instituto Vladimir Herzog

Quase quatro décadas após o fim formal da ditadura, as contas permanecem abertas: 434 mortos e desaparecidos reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade, 144 sem paradeiro conhecido, 8.300 indígenas assassinados entre 1964 e 1985 e uma média atual de cinco mortes por intervenção policial por dia no país. “Esses momentos de memória são indispensáveis para que a violência de Estado não siga se repetindo”, afirma Eugênia Gonzaga.

Em 2026, a caminhada adota o lema “Aprender com o passado para construir o futuro”, com show de encerramento de João Suplicy.

O ato mantém o eixo memória, verdade e justiça, princípio que acompanha o movimento desde a primeira edição. “Nosso objetivo é, pacificamente, com velas nas mãos e rosas, homenagear nossos mortos e dizer: ditadura nunca mais”, sintetiza Vera Paiva. “Seguimos marchando porque não resolvemos todos os problemas criados pela ditadura. Para muita gente, ela não terminou”, reforça César Novelli.

Justiça avança, ainda que tardiamente

A 6ª Caminhada do Silêncio acontece num momento em que a pauta “memória, verdade e justiça” voltou a mexer no tabuleiro institucional. O primeiro fato foi a condenação de militares no Brasil por uma trama golpista, no caso do 8 de Janeiro. “Pela primeira vez os militares entenderam que não estão acima da lei, e isso é fundamental num Estado Democrático de Direito”, frisa a procuradora Eugênia Gonzaga, lembrando que, por mais de quatro décadas, o Brasil viveu sob a lógica da impunidade.

“Essa impunidade dos crimes da ditadura sempre deu confiança para que as autoridades militares do presente continuassem praticando crimes e fazendo novas vítimas de violência de Estado sob todas as formas”, avalia.

Outro movimento jurídico importante parte do Supremo Tribunal Federal. Relator de dois recursos com repercussão geral, o ministro Flávio Dino votou para que crimes continuados ‒ como ocultação de cadáver e sequestro ‒ fiquem fora do escudo da Lei da Anistia.

O processo aguarda pauta em plenário depois da devolução de vista de Alexandre de Moraes. Para Eugênia Gonzaga, trata-se de “um avanço inegável num país que passou décadas blindando torturadores”, mas que precisa ser completo. “Se o STF limitar a exceção só aos crimes continuados, estará dizendo que homicídios, estupros e falsidades seguem cobertos pela lei. Isso é gravíssimo.”

A psicóloga Vera Paiva vê ganho pedagógico em cada fissura nesse “muro de impunidade”. “Ter esses marcos de responsabilização cria uma mentalidade de que isto é crime; que não se pode sair fazendo e ficar impune”, assinala.

Ela recorda que Argentina e Chile prenderam torturadores ainda nos anos 2000, enquanto o Brasil “chega atrasado e com réus já muito idosos ou mortos”. Ainda assim, sublinha, cada decisão manda recado às novas gerações.

Para o historiador César Novelli, a marcha cumpre a função de manter as instituições sob pressão: “É muito importante que nós apoiemos e pressionemos os ministros do STF a realizarem o julgamento. Eu diria que é pedagógico estabelecer estratégias públicas para que esses julgamentos aconteçam.”

“O Brasil voltou a ser tornar uma referência mundial na defesa da democracia ou do Estado Democrático de Direito com a prisão de Bolsonaro e outros golpistas, mas precisamos ir além. Construir um país menos desigual passa pela condenação de quem praticou crimes de lesa-humanidade”, resume.

A retomada da Comissão e a disputa pela memória

A recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em julho de 2024, devolveu fôlego a uma agenda que havia sido desmontada no governo Bolsonaro e que segue no centro das reivindicações da Caminhada do Silêncio.

Para Eugênia Gonzaga, a retomada veio tarde, mais de um ano após o início do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas recolocou em movimento frentes concretas da luta por memória e reparação.

Uma das frentes mais emblemáticas desse trabalho, segundo Eugênia e Vera, é a retificação das certidões de óbito de vítimas da ditadura. O procedimento começou anos atrás, de forma quase artesanal, e ganhou escala com a articulação da comissão com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

“Nós começamos esse trabalho em 2018 e começamos assim quase que artesanalmente, fazendo certidão por certidão. E com a recriação da comissão a gente conseguiu um compromisso do CNJ [Conselho Nacional de Justiça]”, conta Eugênia Gonzaga.

O efeito, relata a presidenta da comissão, vai muito além do papel: “Pessoas que não saíam mais de casa, praticamente, senhoras de andador, foram receber esse papel, porque pelo menos elas têm esse reconhecimento formal do Estado de que a pessoa não foi, como eles falavam, um bandido; que a pessoa foi uma vítima de violência do Estado”.

Vera Paiva acompanha esse processo também do ponto de vista de quem conhece, por dentro, a violência produzida pelo desaparecimento forçado. Integrante da comissão desde 2014, ela destaca que as novas certidões ajudam a corrigir uma mentira de Estado que atravessou décadas. Mas chama atenção sobretudo para outro movimento: o de famílias pobres, negras e periféricas que só agora começam a se aproximar dessa agenda.

“Muitas famílias, especialmente de origem não branca, mais pobres, finalmente estão tendo coragem de aparecer e se juntar ao movimento, porque elas se sentiam ameaçadas cotidianamente”, relata. “Os policiais, que são adeptos dessa ideologia de achar que têm o poder de decidir quem merece viver e quem merece morrer, ameaçam diretamente. Então esse movimento tem ampliado a confiança dessas pessoas”, acrescenta.

A retomada das buscas por ossadas é outro ponto que ajuda a explicar por que a caminhada continua nas ruas. Vera cita o trabalho em cemitérios e antigas valas clandestinas, como a de Perus, em São Paulo, onde a identificação de novos corpos reabriu uma ferida histórica, mas também uma possibilidade de encerramento para algumas famílias.

“Conseguimos identificar dois corpos nas ossadas de Perus. Foi uma das cenas mais fortes e emocionantes da minha vida”, diz, em referência aos restos mortais de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, que foram encontrados em uma vala clandestina usada por agentes da ditadura no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na capital paulista.

“Você recebeu os ossos, literalmente os ossos. Mas o que aquilo significou…eu fiquei imaginando o que eu sentiria se os ossos do meu pai tivessem aparecido e a gente pudesse enterrá-lo”.

Vera também comemora a contribuição de filmes brasileiros atravessados pela memória da ditadura para sensibilizar o público sobre a importância dessa luta. Para ela, o sucesso de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto ajudou a alargar o alcance dessa conversa e a dar densidade humana a um debate que muitas vezes ficou restrito aos familiares, pesquisadores e militantes.

“Esses filmes ajudam, de alguma maneira, a gente tanto fazer a memória como pensar num mundo melhor juntos”, afirma. Na avaliação dela, a força dessas obras está em tirar a ditadura do abstrato e recolocá-la na experiência concreta das pessoas, inclusive das novas gerações.

Eugênia faz avaliação semelhante ao falar do impacto de Ainda Estou Aqui no ambiente político recente. “Com a repercussão do filme, eu acho que o tema voltou à tona e o filme teve esse poder de convencer as pessoas da importância das medidas de memória, das medidas de justiça”, diz. Para ela, o cinema não substitui o trabalho institucional, mas ajuda a abrir o terreno para que ele volte a acontecer, e para que mais gente entenda por que ainda há tanto a reparar.

O passado que ameaça voltar

A defesa de que os horrores da ditadura não se repitam também passa pela leitura do presente. Na avaliação de Vera Paiva e César Novelli, a Caminhada do Silêncio chega à sua 6ª edição em meio a sinais de recrudescimento autoritário no Brasil e no exterior.

Na avaliação da psicóloga, o mundo voltou a conviver com ameaças que pareciam enterradas. “Nós estamos vivendo nesse momento histórico, um pouco mais descaradamente, a mesma situação de estímulo às ditaduras e de perseguição das democracias pelo império americano. Eu nunca imaginei que algum dia a gente ia voltar para esse tipo de situação”, afirma.

Vera diz que a ofensiva da extrema direita, patrocinada por Donald Trump, se alimenta da produção permanente de medo, caos e paralisação, e vê na cultura uma das ferramentas para romper esse cerco. “O caos pode nos horrorizar, e a gente tem que tomar o cuidado para que ele não nos paralise”, diz.

No plano brasileiro, César Novelli chama atenção para a permanência de estruturas forjadas pela ditadura e jamais desmontadas. Ele lembra que o país ainda não sabe o paradeiro de “mais de uma centena de companheiros e companheiras que foram desaparecidos pelo regime” e tampouco desmilitarizou a polícia, que “segue sendo o braço opressor do Estado, principalmente contra as populações mais carentes e marginalizadas”.

Para o historiador, essa lógica segue operando, sob outras formas, nos territórios mais vulneráveis do país. O alvo permanece concentrado em negros e negras, população LGBTQIAP+ e povos indígenas, tratados “como se fossem o inimigo interno”, herança direta da doutrina de segurança nacional.

É também por isso que Vera insiste tanto na necessidade de renovação geracional da caminhada. Aos 72 anos, ela diz querer seguir na luta, mas espera ver mais gente jovem assumindo a defesa da democracia e da memória. “O meu sonho é passar o bastão para a sua geração e para os mais novos. Ficarei até morrer nesse movimento, mas eu quero que ele seja renovado”, afirma.

“Meu sonho é que a gente junte muita gente jovem nesse movimento, pensando e antecipando o que pode acontecer com o país de vocês se vocês não se mexerem”, completa.