Documentário sobre Flávio explicita modus operandi da ‘franquia bolsonarista’
Produção do ICL, dirigida por Patrícia Rubano, organiza escândalos recentes e evidencia papel do atual candidato à Presidência na obtenção de dinheiro para esquema familiar, apontando riscos de sua eleição
Doação do Banco Master, rachadinhas, franquia de chocolate, compra de imóveis milionários, relações com milicianos do Rio de Janeiro… São vários os “esqueletos do armário” do atual candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), que vieram à tona em uma série de escândalos nos últimos anos.
Nesse sentido, o principal mérito do documentário Flávio Bolsonaro: a verdadeira história sobre o filho zero um, produzido e divulgado pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), é reunir, de forma organizada, o que já veio à tona contra o senador bolsonarista, apresentando aos eleitores brasileiros muito mais do que um perfil, mas o modus operandi do clã Bolsonaro.
Com direção de Patrícia Rubano e roteiro de Antonio Farinaci, o documentário está disponível no canal do ICL (entre os minutos 8’38” e 52’48”) e, em pouco menos de uma hora, apresenta o panorama de um esquema familiar, reunindo o emaranhado de personagens e episódios em uma narrativa compreensível.
Jornalistas, pesquisadores e antigos aliados do bolsonarismo contribuem para a visão de conjunto dos escândalos, reforçando o argumento central do documentário em torno da construção de uma “franquia política”, ancorada na manutenção do poder para a obtenção de vantagens financeiras, sobretudo, a partir da apropriação indevida de recursos públicos.
Dentro dessa franquia, comandada por Jair Bolsonaro, seus filhos atuariam em áreas específicas na manutenção do esquema: Carlos nas redes sociais e Eduardo nas relações internacionais, enquanto Flávio assumiria o papel de “homem do dinheiro”.
O interessante no documentário é que as próprias declarações do senador são incorporadas a cada uma das declarações, permitindo ao espectador acompanhar o disparate das respostas.
Ex-bolsonaristas
Também vale acompanhar a declaração dos antigos aliados, como os ex-deputados Joice Hasselmann e Alexandre Frota, o ex-coordenador da campanha bolsonarista Julian Lemos e o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que trazem os bastidores apimentados dentro e fora do governo.
Pastor da Assembleia de Deus, há 30 anos, Otoni de Paula menciona a cegueira bolsonarista que, segundo ele, o contaminou em 2018. “Eu estava mais parecido com Bolsonaro do que com Jesus”, afirma. Julian Lemos, por sua vez, conta como foi afastado do grupo, assim como Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, que sofreu um infarto “em circunstâncias nunca plenamente esclarecidas”, frisa o documentário.
Hasselmann, por sua vez, relembra sua passagem pela base governista e traz um relato importante sobre o estilo de vida milionário de Flávio: “quando cheguei na casa do Flávio, eu vi que ele era ladrão na hora porque era absolutamente incompatível o lugar que ele morava, as obras de arte que ele tinha em casa, os móveis, o lavabo da casa dele”.
Tanto ela quanto Frota foram afastados, segundo os relatos, após se recusarem a defender o senador das acusações envolvendo as rachadinhas. Em sua linguagem desbocada, o ex-deputado conta que após afirmar na tribuna “eu também quero o Queiroz preso”, recebeu uma ligação de Bolsonaro questionando: “quer foder meu filho, caralho?”. A mesma pergunta, no mesmo tom, lhe foi feita pelo próprio Flávio horas depois.

Documentário sobre Flávio explicita modus operandi da ‘franquia bolsonarista’
Divulgação ICL
Esquemas
O documentário também mergulha em cada um dos escândalos. No caso das rachadinhas, mostra o papel do ex-policial Fabrício Queiroz, braço direito de Jair Bolsonaro, tanto no esquema de recolhimento dos salários e benefícios dos funcionários dos gabinetes bolsonaristas, quanto na aproximação de Flávio com as milícias do Rio de Janeiro.
As várias homenagens do então deputado aos milicianos é recuperada pelo documentário, em particular, na figura de Adriano da Nóbrega, preso pelo assassinato de uma testemunha que denunciou o esquema de seu batalhão. Além de receber uma medalha de Flávio e ganhar dele uma defesa aguerrida no Parlamento, Adriano teve familiares contratados por ele em seu gabinete. Pelo menos 16 policiais receberam homenagens públicas de Flávio e Carlos Bolsonaro.
Flávio também foi um dos dois únicos deputados que votaram contra a CPI das Milícias no Rio de Janeiro. O segundo foi Domingos Brazão, atualmente preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).
Além das relações com os milicianos, o documentário também aborda as suspeitas de lavagem de dinheiro, como a franquia da loja de chocolates aberta por Flávio em 2015, lembrando que mais de R$ 2 milhões teriam sido identificados como incompatíveis com o caixa da empresa; além da compra de imóveis em dinheiro vivo e as mansões milionárias dos filhos de Bolsonaro.
As suspeitas levantadas em torno do Banco Master, após as denúncias do Intercept, ocupam boa parte do documentário. Além da relação de amizade entre Flávio e Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro que deu um calote de mais de R$ 3 bilhões em aposentados e pensionistas, a produção questiona o verdadeiro destino dos R$ 61 milhões depositados por Vorcaro em um fundo no Texas.
Flávio afirma que o dinheiro é para o filme DarK Horse, uma cinebiografia focada na campanha eleitoral do pai em 2018. O documentário, no entanto, organiza os argumentos que questionam essa versão, apontando uma conexão entre o montante e a vida nababesca que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro vem levando nos Estados Unidos.
Escalado para salvar a pele do pai no exterior, o ex-deputado vem realizando um verdadeiro ataque às instituições democráticas e a própria soberania brasileira em conluio com a extrema direita norte-americana e internacional, Steve Bannon incluso.
Riscos reais
Além do resgate das acusações, o documentário termina com uma reflexão sobre os reais riscos de uma eleição de Flávio à Presidência do país no próximo mês de outubro. Apresentado como “laranja de Bolsonaro”, a atuação parlamentar de Flávio é esvaziada na mesma proporção de seu sucesso como operador do esquema familiar, cuja sobrevivência depende agora das urnas.
A produção também aborda as disputas internas, em particular os conflitos com Michelle Bolsonaro, alijada do núcleo de poder por não possuir “sangue de Bolsonaro” – e, claro, por ser mulher.
As previsões são duras ao considerar o futuro do Estado brasileiro em um cenário de vitória bolsonarista, incluindo os riscos da captura do país por interesses não apenas privados, mas sobretudo criminosos. E, notoriamente, a submissão da soberania brasileira aos interesses de Washington, já declaradas pelo senador que já ofereceu as riquezas nacionais, e o apoio às tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.
O documentário “ainda está no ar”, alerta Eduardo Moreira, à frente do ICL. Nos oito primeiros minutos do documentário, ele conta que recebeu uma representação visando impedir a exibição do documentário, sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada. O veículo responderá a todos os questionamentos, mas ainda é incerto até quando ele ficará disponível.
Em meio aos recortes da extrema direita que ainda dominam as redes, direcionando a opinião de uma multidão que não conseguem acompanhar os telejornais e se perde em meio a tantas versões, vale muito assistir ao documentário para organizar os argumentos nas discussões que prometem se acirrar nos próximos meses e, sobretudo, compartilhá-lo nos espaços em que a campanha Lula não chega, como os Whatsapps de família.
A questão, agora, é por quanto tempo ele ficará no ar.






















