Quinta-feira, 16 de abril de 2026
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* Matéria atualizada às 19h19 de 01/04

O Ministério das Relações Exteriores, com participação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH) e do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), realiza no próximo dia 16 de abril um evento sobre antissemitismo no Palácio do Itamaraty.

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Entre os convidados, no entanto, constam majoritariamente lideranças sionistas, incluindo os principais dirigentes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), entidade defensora de Israel.

Sob coordenação da assessora presidencial Clara Ant, o evento intitulado “Enfrentamento ao antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional”, ocorre no Dia Nacional da Lembrança do Holocausto.

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Programação

O evento irá discutir “Antissemitismo: diferentes definições”, partindo das definições da Aliança Internacional pela Memória do Holocausto (IHRA), do Projeto Nexus e da crítica expressa à definição na “Declaração de Jerusalém”.

“Apresentadas em diferentes contextos, as definições divergem em alguns aspectos, pois, além de descrever o fenômeno, apresentam zonas cinzentas entre o tolerável e o proibido, a liberdade de expressão e o discurso de ódio, as críticas ao Estado de Israel e a negação da autodeterminação judaica”, afirma a programação do evento.

Também serão discutidas experiências nacionais e internacionais de monitoramento e enfrentamento do antissemitismo, além do tratamento do tema no cenário multilateral.

Itamaraty organiza seminário com lideranças sionistas
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Na programação, no entanto, estão ausentes temas como a pena de morte contra os palestinos aprovada nesta semana pelo Parlamento israelense. Também inexiste menção ao genocídio palestino e os crimes de guerra do Estado de Israel em Gaza.

A agenda destaca preocupação com o crescimento do antissemitismo em diferentes países, que “tem levado ao desenvolvimento de diversos mecanismos de monitoramento e de políticas de enfrentamento”, no entanto, não menciona que os crimes perpetrados pelo Estado israelense são, justamente, o motivo de crescimento do antissemitismo em todo o mundo.

‘Ausência de pluralidade’

Para o professor Bruno Huberman (PUC-SP), o seminário tem algumas qualidades e grandes problemas. “A única mesa que de alguma forma consegue chegar em algum debate equilibrado é a primeira”, afirma, citando a participação do professor Michel Gherman (UFRJ) e Benjamin Seroussi da Casa do Povo.

“É a única mesa que de alguma forma representa um pouco mais da pluralidade existente na comunidade judaica, mas todas as mesas estão dentro do espectro do sionismo”, avalia. Citando também a presença do advogado Fábio Tofic Simantob no evento, Huberman aponta que “parece haver um equilíbrio entre esquerda e direita sionista, com três nomes de cada lado, reduzindo o debate ao interior do sionismo”.

Ele explica que isso é um limitador importante, “porque o sionismo tem um ponto de vista muito claro historicamente a respeito do antissemitismo como um mal endêmico dos gentios, ou seja, dos não judeus, defendendo como única solução a constituição de um estado exclusivamente judaico na Palestina”.

“E os movimentos antissionistas que vem buscando expandir esse debate do antissemitismo? Um debate verdadeiro a respeito do enfrentamento do antissemitismo deveria incluir vozes envolvidas na luta antirracista de forma geral”, avalia Huberman.

‘Evento inócuo’

Para a professora Arlene Clemesha (USP), “a iniciativa em si é boa”, ao dar uma resposta à demanda da comunidade judaica, “preocupada que a reação indignada de amplos setores da população brasileira contra o genocídio do povo palestino transborde, indevidamente, ao crescimento do ódio a judeus em geral”.

Clemesha destaca, no entanto, que o programa “é parcial” e apresenta poucos especialistas, estudiosos ou acadêmicos. “Muitos são nomes de lideranças sionistas nessa programação, que tendem fortemente a confundir o antissionismo, posição política legítima, com antissemitismo, uma forma inaceitável de ódio racial”, avalia.

“O tema mais sensível, mais relevante, não consta dessa programação, qual seja, a relação entre o genocídio palestino e o crescimento do antissemitismo”, pontua. “O motivo é simples: as lideranças sionistas não querem falar dos crimes perpetrados por Israel, que os comete sempre em nome dos judeus e da segurança dos judeus”.

Para Clemesha, o seminário não abordará a principal fonte do antissemitismo nos dias de hoje. “Será um seminário inócuo e um espaço para o lobby sionista se sentir contemplado”, declarou.

Questionado pela ausência desses temas, um dos palestrantes do evento, o professor Michel Gherman (UFRJ), ressaltou que os palestrantes possam incluir esses temas em suas falas. “Eles serão diversos e tem a capacidade de julgar o que será ou não importante nessa ocasião”, afirmou.

Resposta do governo

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que não é responsável pela organização do evento citado. A pasta recebeu convite para participação, na condição de convidada, informou o órgão.

O Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) também afirmou não ter nenhuma responsabilidade e não estar na organização do seminário. “É uma iniciativa do Ministério de Relações Exteriores. Nós não estamos na organização desse evento”, afirma o órgão.

Já a assessoria de imprensa do Itamaraty respondeu dizendo que “o evento mencionado constitui iniciativa voltada a qualificar o debate público e institucional sobre o enfrentamento ao antissemitismo, cujo crescimento foi identificado em 2019, quando Ahmed Shaheed, Relator Especial da ONU sobre liberdade de religião ou crença, destacou que o avanço desse fenômeno pode sinalizar a erosão de valores democráticos”.

“O seminário buscará aportar elementos que contribuam para o desenvolvimento de políticas públicas e mecanismos de monitoramento do fenômeno. O encontro tem por objetivo discutir definições, formas de monitoramento e estratégias de combate ao fenômeno, considerando as especificidades brasileiras e as melhores práticas internacionais”, acrescentou.

A resposta também afirma que “os palestrantes terão plena liberdade para abordar o tema a partir das perspectivas que considerarem mais conveniente e a audiência, que incluirá acadêmicos, representantes governamentais e membros do corpo diplomático, poderá contribuir para esse importante e necessário debate”.

A consulta feita pela reportagem incluiu uma pergunta sobre se o evento irá abordar a questão palestina e sobre os ataques e violações aos direitos humanos cometidos pelas forças israelenses à população da Faixa de Gaza desde outubro de 2023, mas a resposta dada pelo Itamaraty não esclareceu esse ponto.

Opera Mundi também tentou contato com Clara Ant, não obtendo resposta até o momento.