Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu oficialmente neste domingo (16/08) sua campanha à reeleição em um dos locais mais simbólicos de sua trajetória política: o Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, conhecido historicamente como Vila Euclides. Foi ali que, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva ganhou projeção nacional à frente das greves dos metalúrgicos que desafiaram a ditadura militar.

O ato, que reuniu milhares de apoiadores, as estimativas divulgadas pela imprensa variaram entre 20 mil e 30 mil pessoas, marcou o início oficial da sétima campanha presidencial de Lula e da busca por um quarto mandato. O slogan escolhido é “o Brasil pronto para mais”, acompanhado da frase “onde tudo começou”, conectando a imagem atual do presidente à origem operária e sindical que marcou sua carreira.

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Durante cerca de 35 minutos de discurso, Lula alternou lembranças pessoais, defesa das realizações de seus governos, críticas ao campo político de direita e promessas para um eventual novo mandato. O tom foi marcado pela emoção, mas também por uma mensagem de confronto eleitoral com a extrema direita e o projeto entreguista defendido por seus líderes.

‘Não vou deixar a direita voltar’

Um dos principais eixos do discurso apresentou a eleição como uma disputa entre dois projetos políticos. Lula afirmou que não pretende permitir o retorno da direita ao poder e responsabilizou o governo de Jair Bolsonaro pela condução da pandemia de covid-19, que deixou mais de 700 mil mortos no Brasil – estudos epidemiológicos apresentados em debates públicos, como na CPI da Pandemia, estimam que cerca de 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas.

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A crítica ao adversário político, cujo filho, Flávio Bolsonaro, além de outros candidatos à Presidência, se coloca como herdeiro, foi acompanhada de um apelo para que a militância esteja preparada para comparar os resultados de sua administração com os do governo anterior. Lula cobrou dos apoiadores uma postura mais ativa na defesa dos indicadores econômicos e sociais de sua gestão.

A estratégia reforça uma das linhas centrais da campanha: transformar a comparação entre os governos Lula e Bolsonaro em um dos principais instrumentos de disputa pelo eleitorado, na medida em que o governo do atual presidente supera o do seu antecessor, que hoje cumpre pena por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Segurança pública ganha espaço central

A segurança pública apareceu como uma das principais novidades programáticas do discurso. Lula voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública, proposta que já havia sido apresentada pelo governo e que dependerá da aprovação da legislação correspondente.

A iniciativa representa uma tentativa de ampliar a presença do governo federal em uma área tradicionalmente explorada eleitoralmente pela direita. A campanha pretende apresentar a União como coordenadora de uma política nacional de combate ao crime, ao mesmo tempo em que mantém a atuação dos estados.

O tema ganha importância especial diante do cenário eleitoral de 2026, no qual a segurança pública aparece entre as principais preocupações do eleitorado e é uma das bandeiras centrais do campo bolsonarista.

Soberania nacional

Outro ponto destacado por Lula foi a defesa da soberania nacional. O presidente relacionou o tema às atuais tensões diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos e procurou apresentar o Brasil como um país que deve tomar suas próprias decisões sem submissão a interesses externos.

A defesa da soberania já vinha ocupando espaço importante no discurso político do presidente. Em fevereiro, ao falar na abertura do Ano Judiciário, Lula havia afirmado que o Brasil não poderia ser colocado sob tutela de qualquer outra nação.

Na campanha, o tema ganha dimensão eleitoral e se combina com a ideia de defesa da indústria nacional, dos recursos naturais e dos chamados minerais estratégicos, assunto que também apareceu entre as promessas apresentadas no ato de São Bernardo.

Mulheres no centro da campanha

Lula também dedicou atenção especial às mulheres, em uma tentativa de ampliar a presença feminina na comunicação eleitoral do PT. O movimento ocorre depois de críticas à convenção partidária que lançou sua candidatura, marcada pela ausência de mulheres nos principais momentos do palco.

No ato de São Bernardo, a primeira-dama Janja da Silva teve papel de destaque. Ela homenageou Marisa Letícia, ex-mulher de Lula, lembrando sua participação na trajetória sindical do presidente e seu papel na história do Partido dos Trabalhadores. Janja também dividiu o palco com o pastor Kleber Lucas, num gesto de aproximação com o eleitorado evangélico.

Lula durante evento em São Bernardo do Campo
Ricardo Stuckert

Educação e redução da desigualdade

Lula também voltou a apresentar a educação como instrumento de transformação social. Em seu discurso, associou a expansão do ensino superior e programas educacionais às oportunidades oferecidas durante seus governos.

A defesa das políticas sociais apareceu ligada a uma mensagem mais ampla de redução da desigualdade. A campanha procura, assim, combinar a imagem histórica de Lula como representante dos trabalhadores com a apresentação de resultados concretos de suas administrações.

Entre os feitos lembrados no discurso estiveram obras e políticas dos governos anteriores, como a transposição do Rio São Francisco e a expansão do ensino superior federal.

Retorno ao palco das greves

A escolha de São Bernardo foi, por si só, uma parte importante do discurso político. O estádio 1º de Maio foi palco das assembleias dos metalúrgicos lideradas por Lula durante a ditadura militar e se tornou um dos símbolos da mobilização sindical que ajudou a impulsionar a redemocratização brasileira.

O PT trabalhou para transformar o retorno ao local em uma espécie de reencontro entre o presidente de 80 anos e o líder operário que surgiu politicamente há quase cinco décadas. Antes do discurso, um vídeo recuperou imagens da trajetória de Lula entre os metalúrgicos do ABC.

A operação de campanha é deliberada: diante de uma eleição competitiva, Lula tenta recuperar elementos de sua identidade política original – trabalhador, sindicalista e defensor dos setores populares – sem abrir mão da condição de presidente que busca apresentar resultados de governo.

Confronto com extrema direita

O discurso de São Bernardo deixou claro que a campanha de Lula será construída sobre três pilares principais: a defesa do legado de seus governos, a comparação com o período Bolsonaro e a promessa de avançar sobre temas que hoje são considerados prioritários pelo eleitorado, especialmente segurança pública e economia.

Ao mesmo tempo, o presidente procurou reativar a memória afetiva de sua trajetória. A escolha da Vila Euclides, as referências à mãe, aos trabalhadores do ABC e às pessoas que participaram de sua ascensão política deram ao lançamento um caráter autobiográfico e emocional.

A estratégia ocorre em uma eleição que começa marcada pela polarização entre Lula e o campo bolsonarista. Levantamentos recentes citados pela imprensa apontam uma disputa apertada para o segundo turno, com Lula e Flávio Bolsonaro em situação de empate técnico em algumas pesquisas.

Lula procurou apresentar a eleição de 2026 como uma escolha entre a continuidade de um projeto iniciado em seus primeiros governos e o retorno da extrema direita ao Palácio do Planalto, ao mesmo tempo em que tenta convencer o eleitor de que sua história política ainda pode ser apresentada como uma promessa de futuro.