Brasil adere a iniciativa da China para regulação da Inteligência Artificial: o que isso significa?
Em nota, Itamaraty afirma que novo organismo, que conta com participação de 29 países, defende ‘aplicação da tecnologia de forma benéfica, segura, ética, confiável e orientada ao ser humano’
A ampliação do uso de inteligência artificial (IA) no cotidiano das pessoas e nos sistemas de produção e desenvolvimento econômico dos países tem despertado cada vez mais iniciativas buscando criar legislações e mecanismos capazes de regular essas novas tecnologias, com o intuito, sobretudo, de coibir os possíveis efeitos colaterais disso na vida dos seres humanos.
Foi com essa diretriz que o governo da China anunciou, meses atrás, uma iniciativa global para defender a regulação das ferramentas de inteligência artificial: a Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, por sua sigla em inglês). A WAICO foi apresentada oficialmente há uma semana, durante a Conferência Mundial sobre Inteligência Artificial (WAIC), realizada em Xangai, na China.
O Brasil foi um dos países que participou, representado por uma delegação de diplomatas enviada pelo Itamaraty, e assinou a ata que o tornou um dos membros fundadores da WAICO. Em nota, a chancelaria informou que a nova organização será estabelecida como “organismo internacional intergovernamental independente, com personalidade jurídica própria e sede em Xangai”.
“A WAICO terá por objetivo promover a cooperação internacional em inteligência artificial, com ênfase no desenvolvimento, na implantação e aplicação da tecnologia de forma benéfica, segura, ética, confiável e orientada ao ser humano”, segundo o comunicado do Ministério de Relações Exteriores do Brasil.
Segundo a diplomacia brasileira, a WAICO também buscará contribuir para a “redução de lacunas no acesso a tecnologias e serviços de inteligência artificial” e para o “enfrentamento coletivo de riscos e desafios associados ao avanço da tecnologia”.
“Entre suas competências, a WAICO deverá atuar como plataforma de aproximação entre ofertas e demandas dos Estados-membros em matéria de inteligência artificial, apoiar iniciativas de capacitação, favorecer a coordenação de estratégias nacionais, bem como promover o diálogo, a interoperabilidade e o compartilhamento de boas práticas”.
O Itamaraty também destaca que a organização deverá estimular a “cooperação científica e tecnológica em IA”, contando com ecossistemas de código aberto, e “manter articulação com processos e organismos internacionais relevantes, em particular no âmbito das Nações Unidas”.
“A participação brasileira insere-se no acompanhamento dos debates internacionais sobre governança da inteligência artificial e no esforço de fortalecer mecanismos multilaterais de cooperação tecnológica. O processo de adesão do Brasil observará os procedimentos internos aplicáveis, inclusive quanto à eventual ratificação do acordo constitutivo”.
Sobre a WAICO
A WAICO foi lançada oficialmente durante a WAIC, cujo evento de inauguração, realizado no dia 17 de julho, foi encabeçado pessoalmente pelo presidente da China, Xi Jinping, em uma demonstração da importância dada pelo país asiático à iniciativa.
No discurso de abertura, Xi enfatizou que, para Pequim, “é imprescindível que as nações adotem uma abordagem sobre o desenvolvimento tecnológico, centrada nas pessoas e orientada para o bem comum”.
“Devemos garantir que a IA seja um importante motor da prosperidade compartilhada e da segurança comum, e construir conjuntamente um sistema de governança global de IA justo e equitativo”, adicionou o mandatário chinês.
A fundação da WAICO contou com a adesão inicial de 29 países. Além da China e do Brasil, também formam parte do organismo: África do Sul, Argélia, Bielorrússia, Camboja, Camarões, Cuba, Etiópia, Indonésia, Cazaquistão, Quênia, Quirguistão, Laos, Lesoto, Malásia, Moçambique, Mianmar, Nicarágua, Omã, Paquistão, República Democrática do Congo, Rússia, Senegal, Sérvia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Venezuela e Zâmbia.
‘Sinfonia de cooperação internacional’
Em outro momento do discurso, Xi fez uma metáfora para diferenciar o que considera como o uso correto e o uso incorreto das novas tecnologias: “uma corda sozinha não faz música, e uma árvore sozinha não forma uma floresta”.

Presidente chinês Xi Jinping liderou evento de lançamento da WAICO, em Xangai
Xinhua / Li Xueren
“É preciso trabalhar em conjunto no desenvolvimento da inteligência artificial, para que seu avanço se torne um esforço solitário de um único país, e sim uma sinfonia de cooperação internacional”, completou o presidente chinês.
A partir dessa analogia, o mandatário anunciou que a China oferecerá cinco mil vagas em programas de treinamento em IA e seminários especializados para profissionais de países em desenvolvimento.
As vagas estarão disponíveis para interessados que vivem em países membros da WAICO e em países que formam parte de entidades que apoiam a iniciativa para regulação das IAs, como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), a Liga Árabe, a União Africana, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e o BRICS.
Código aberto
Também durante a conferência WAIC, a empresa chinesa Moonshot AI apresentou o Kimi K3, ferramenta descrita como “o maior modelo de IA de código aberto do mundo”.
O anúncio durante o evento buscou enfatizou a capacidade da nova IA de “diferenciais, a capacidade de trabalhar com contexto de até um milhão de tokens, analisando grandes volumes de informações em um só prompt”, com o objetivo de posicioná-la como um concorrente equiparável aos principais sistemas criados por empresas dos Estados Unidos.
Segundo os realizadores do projeto, o Kimi K3 conta com 2,8 trilhões de parâmetros e foi desenvolvido para tarefas complexas de raciocínio, programação de longo prazo e trabalho intelectual.
Também durante a WAIC, a China anunciou que fornecerá a 30 países um mecanismo de acesso gratuito ao MAZU, seu sistema de alerta meteorológico precoce baseado em IA, para proteger áreas povoadas de desastres naturais.
Ameaça chinesa… aos EUA
Dias depois da conferência WAIC, e da fundação da organização WAICO, um incidente envolvendo sistemas de inteligência artificial desenvolvidos por empresas dos Estados Unidos chamou a atenção justamente por enfatizar a eficiência chinesa nesse âmbito até mesmo para lidar com problemas causados pelos produtos norte-americanos.
A controvérsia teve início na última terça-feira (21/07), quando a OpenIA admitiu publicamente que seus sistemas de inteligência artificial invadiram, por conta própria, os servidores de outra empresa de IA e não puderam ser detidos até que a vítima, a Hugging Face, implantasse um modelo chinês para combater o ataque cibernético totalmente autônomo.
Por sua vez, a Hugging Face, em sua nota, reconheceu ter executado o modelo chinês em sua própria infraestrutura para analisar mais de 17 mil vestígios deixados pelos invasores.
A necessidade de recorrer a um produto de origem estrangeira gerou preocupações de que empresas americanas estejam agora dependentes da China para suas defesas cibernéticas.
No entanto, dias depois, a OpenIA e a Anthropic divulgaram comunicados acusando empresas chinesas de estarem, supostamente, “opiando modelos avançados desenvolvidos nos Estados Unidos”.
Em suas notas, as duas companhias norte-americanas usaram o mesmo argumento, alegando que as concorrentes da China estariam utilizando uma técnica conhecida como “destilação”, pela qual treinam sistemas próprios a partir de respostas geradas por modelos norte-americanos.
Ambas as denúncias também se igualam na retórica de que tal situação, segundo essas empresas, “ameaça a vantagem tecnológica dos Estados Unidos e pode trazer impactos para a segurança nacional”.























