Domingo, 1 de fevereiro de 2026
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A emissora norte-americana CNN revelou em uma reportagem que o governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump, assumiu “riscos extraordinários” para sequestrar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante o ataque de 3 de janeiro.

Com base na análise de mais de 50 vídeos e imagens do ocorrido, a emissora mapeou as rotas de voos dos helicópteros estadunidenses e reconstruiu o ataque promovido contra Caracas.

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Com os documentos, o canal concluiu que a operação de Washington foi “audaciosa” por ter “culminado em um intenso tiroteio, no qual os helicópteros dos EUA foram expostos a um nível extraordinário de risco” ao tentarem infiltração no complexo militar Forte Tiuna — onde Maduro foi sequestrado.

“Imagens mostram que, nos momentos que antecederam a descida para esta área, houve intenso fogo cruzado entre aeronaves de ataque [norte-]americanas que sobrevoavam o local e as defesas aéreas venezuelanas”, escreve a reportagem.

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A análise detalhou que o tiroteio durou, incessantemente, dois minutos — período em que um helicóptero de transporte pousou e decolou, “se movendo lentamente e em baixa altitude”, no complexo onde estava o líder venezuelano.

Os riscos da operação foram revelados antes mesmo de sua realização, em um documento do Departamento de Justiça datado de 23 de dezembro, mas que foi publicado apenas após a agressão contra Caracas. O memorando alertava que as forças estadunidenses poderiam encontrar “resistência significativa, incluindo dezenas de baterias antiaéreas capazes de abater helicópteros”.

O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu que a ação poderia “ter corrido muito, muito mal”, e que seu país poderia “ter perdido muitas pessoas”. Mesmo assim, optou por dar sequência à operação.

Às 1h30, bombardeios abriram caminho

O sequestro de Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, foi “preparado com bastante antecedência”, apontou a CNN. Bombardeios em diversas cidade da Venezuela, que afetaram “a infraestrutura de radares, comunicações e defesa aérea”, foram os responsáveis por “abrir caminho para os helicópteros” que capturaram o presidente.

A reportagem lembrou o equipamento militar usado pelos EUA, detalhado pelo general da Força Aérea Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA: “mais de 150 aeronaves — incluindo bombardeiros, caças e plataformas de inteligência e vigilância — foram lançadas de 20 bases em terra e no mar”.

O primeiro bombardeio ocorreu por volta das 1h30 locais (2h30 no horário de Brasília), na cidade costeira de Higuerote, que fica a cerca de 80 quilômetros a leste da capital Caracas. Segundo a CNN, este ataque visou atingir um aeroporto que abriga sistemas da defesa aérea venezuelana, “incluindo um sistema de mísseis terra-ar Buk-M2 de fabricação russa, projetado para atingir aeronaves”.

A análise da emissora foi confirmada pelo relato de um morador de Higuerote. “Ouvimos um som de assobio no ar, como se algo estivesse caindo, e então a explosão”, afirmou, sob anonimato.

Segundo NR Jenzen-Jones, diretor da Armament Research Services, consultado pela CNN, as imagens deste primeiro ataque sugerem que os EUA utilizaram drones de ataque unidirecionais, que vêm sendo desenvolvidos na Guerra da Ucrânia.

Às 1h58, helicópteros rondavam Maduro

Momentos após o primeiro bombardeio, em Higuerote, a CNN aponta que “dois helicópteros de transporte MH-47 Chinook dos EUA foram vistos voando baixo em direção ao Forte Tiuna”, em Caracas.

Em meio ao tiroteio já mencionado, dois helicópteros pousaram no complexo militar. De acordo com especialistas militares consultados pela emissora, essas aeronaves teriam desembarcado tropas para combater as forças de segurança terrestres venezuelanas.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu que ação militar poderia “ter corrido muito, muito mal”
Official White House Photo by Daniel Torok

A reconstrução da rota vai ao encontro com o horário que as forças estadunidenses chegaram ao complexo, segundo informou o general da Força Aérea Dan Caine: 2h01 da manhã. Essas tropas “revistaram o complexo e capturaram o líder venezuelano”, escreveu o jornal.

Esse foi o momento em que as tropas estadunidenses foram expostas à maior vulnerabilidade, segundo especialistas. “Qualquer helicóptero é mais vulnerável um minuto antes do pouso e um minuto após a decolagem”, explicou Wes Bryant, sargento-mestre aposentado da Força Aérea dos EUA e ex-controlador aéreo tático de operações especiais, à CNN.

Poucos minutos depois, o sequestro

Com a exposição de suas tropas, os EUA prosseguiram e sequestraram Maduro. “Um minuto e 44 segundos após vermos um helicóptero pousando, o vídeo mostra uma nuvem de poeira do lado de fora do complexo fortificado, seguida por uma saraivada de foguetes e a decolagem de um helicóptero Chinook. Cerca de 20 segundos depois, outro helicóptero o segue”, detalha a emissora sobre o momento exato da captura do presidente.

A localização exata do local em que Maduro foi sequestrado no Forte Tiuna e os detalhes do momento não foram revelados. Contudo, a reportagem lembra que dois fatores marcaram a ofensiva: “as características residenciais do complexo, como uma grande piscina e um pátio, também servem como lembrete da natureza extraordinária desta missão: capturar um presidente e sua esposa em casa”.

A CNN insiste em classificar a operação como “arriscada”, especialmente porque o Forte Tiuna é extremamente protegido, tanto naturalmente quanto por construções militares.

“A natureza fortemente fortificada deste local – naturalmente protegido por colinas íngremes em três lados e com altos muros que garantem privacidade e múltiplos pontos de controle de segurança – demonstra o quão arriscado era para as tropas americanas desembarcarem ali”.

Mesmo diante dos riscos, após deixar a área do complexo Forte Tiuna, um dos helicópteros de transporte, sem luzes, ganhou altitude e deixou o território.

Com a captura de Maduro, iniciou-se a segunda fase

Após o sequestro, os EUA iniciaram a segunda fase de sua missão. Com base na sincronização de 10 vídeos documentais, a análise revelou que “helicópteros de ataque dos EUA forneceram cobertura aérea protetora, combatendo as defesas aéreas venezuelanas, enquanto helicópteros de transporte dos EUA retiravam Maduro e as forças que o capturaram de seu complexo”.

Essa fase foi marcada por outro “intenso tiroteio” entre os helicópteros estadunidenses, possivelmente “MH-60 Black Hawk, do tipo Direct Action Penetrator (DAP) que dispararam canhões automáticos de 30 milímetros”, segundo especialistas, e as forças de defesa venezuelanas.

Os embates e tiroteios cessaram por volta das 3h da manhã na Venezuela, segundo uma testemunha à CNN. Já as últimas aeronaves, que estavam “protegendo a rota do helicóptero de Maduro” deixaram o espaço aéreo do país latino-americano uma hora depois, por volta das 4h.

Após a agressão estadunidense, o governo venezuelano revelou que a operação deixou 100 mortos, incluindo 32 cubanos que faziam parte da equipe de segurança presidencial de Maduro. Já do lado norte-americano, Trump declarou que não houve nenhuma vítima.

Consultado pela reportagem da CNN, o Comando Sul dos EUA — responsável pelo ataque — disse não ter nenhum comentário além das informações pontuais concedidas pelo general da Força Aérea Dan Caine.

Já Bryant afirmou que a operação foi uma “bomba-relógio”, uma vez que “entrou no coração de uma nação soberana” e sequestrou seu presidente.

“Se fizermos um paralelo, imagine a Rússia ou a China entrando e tentando sequestrar o presidente dos EUA. Considerando a quantidade de resistência que vemos nas imagens, em qualquer outro contexto a operação poderia ter sido inviável”, concluiu.