‘Ataque à Venezuela expõe colapso da ordem internacional’, avalia Celso Amorim
Diplomata e assessor especial da Presidência rejeita ideia de 'quintal' dos EUA e defende papel ativo do Brasil na defesa da soberania regional
O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, defendeu o papel desempenhado pelo Brasil ao rechaçar a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, o diplomata brasileiro considerou preocupante e “totalmente descabida” a captura de um presidente “para ser julgado em outro país, independentemente do que se pense dele”. Segundo Amorim, “o que existe hoje, esse voluntarismo absoluto, sem nenhum respeito a nenhuma norma, leva o mundo ao que era a caracterização feita por Hobbes, no século 17, da “guerra de todos contra todos”.
Para Amorim, é grave a “identificação de áreas de influência” e a ideia de que somos o quintal dos Estados Unidos. “Nós não somos quintal de ninguém. Não queremos ser. Tampouco queremos ser antagônicos. Queremos ter boas relações, mas com base no respeito mútuo”, disse.
Leia na íntegra a entrevista de Opera Mundi com Celso Amorim:
Opera Mundi: como o senhor avalia o recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a condução de Nicolás Maduro a um julgamento em Nova York?
Celso Amorim: como o presidente Lula já disse, inclusive, é totalmente inaceitável o uso da força militar para qualquer objetivo, a não ser aqueles previstos na Carta da ONU, o que não é o caso. Também é totalmente descabida a captura de um presidente para ser julgado em outro país, independentemente do que se pense dele.
O governo brasileiro repudiou a ação militar, denunciou que é ilegal e se juntou a outros países pedindo respeito à soberania venezuelana. Como o senhor entende o papel do Brasil nesse momento?
O Brasil é o maior país da América do Sul e o maior país da América Latina. No caso da América do Sul, inclusive, temos dez fronteiras. Portanto, o Brasil precisa ter um papel relevante. Acho que essa manifestação de vários países é interessante. O número de envolvidos talvez não seja tão expressivo, porque não houve tempo para coordenar tudo. Foi uma iniciativa da Colômbia, mas o papel do Brasil foi muito importante.
Considero importante acrescentar o pronunciamento que o Brasil fez na segunda-feira (05/01) no Conselho de Segurança da ONU, com uma declaração forte e adequada, denunciando a ação dos Estados Unidos, o uso da força e, obviamente, afirmando que não é isso o que se espera em uma região de paz. A propósito da ONU, quero fazer um comentário sobre algo que me preocupa muito. Trata-se de um conceito que nunca foi totalmente abandonado, mas que tem ressurgido com grande força recentemente: o conceito de hemisfério ocidental. Sempre achei isso muito discutível, porque não existe hemisfério oriental. Se não existe hemisfério oriental, não pode haver hemisfério ocidental.
Isso pode parecer uma brincadeira, mas é grave a identificação de áreas de influência, essa ideia de que somos o quintal dos Estados Unidos. Nós não somos quintal de ninguém. Não queremos ser. Tampouco queremos ser antagônicos. Queremos ter boas relações, mas com base no respeito mútuo.
A ação militar dos Estados Unidos instaura uma nova era na diplomacia mundial? O senhor concorda com as análises de que a ordem internacional vigente até então foi enterrada por essa agressão militar?
Eu não diria que instaura uma nova era. Acho que estamos voltando a eras passadas, que julgávamos superadas, como a chamada diplomacia das canhoneiras, conhecida na política em relação à própria América do Sul. Mas, veja bem, ações como essa, na América do Sul, não aconteciam desde o século 19. Mesmo em 1902, quando surgiu essa expressão da “diplomacia das canhoneiras” e veio a Doutrina Monroe, essas práticas não chegaram a ser usadas dessa forma. Eram mais ameaças, geralmente para cobrança de dívidas. Ainda assim, é algo obviamente inaceitável.
Agora, chegamos a algo até pior, porque houve o uso efetivo da força, a retirada de um presidente de seu país pela força, inclusive com imagens chocantes. A ordem internacional já é algo extremamente discutível há algum tempo. Mas, quando há uma ação militar dessa gravidade — e também em outros terrenos, como o econômico e o comercial, com os tarifaços e a forma de encarar o comércio mundial de maneira bilateral e pela força — tudo isso é totalmente absurdo. Portanto, a ordem internacional, que já vinha sendo abalada, sofreu agora um golpe muito forte. Precisamos pensar na reconstrução dessa ordem, mas ela não pode ser a mesma. Tem que levar em conta as realidades de hoje.

Manifestação em Caracas pede libertação de Nicolás Maduro < br / > RS/Fotos Públicas
Em 1945 não havia BRICS. Os Estados Unidos eram a única grande potência, nem mesmo a Inglaterra fazia frente. A União Soviética, obviamente, era uma potência, mas, a partir desse cenário, foi criada uma certa ordem, com muitas imperfeições, que, bem ou mal, tinha alguma previsibilidade. O que existe hoje é um voluntarismo absoluto, sem respeito a nenhuma norma. Isso, obviamente, leva o mundo ao que Hobbes, no século 17, caracterizou como a guerra de todos contra todos.
É mais ou menos o que o próprio presidente dos Estados Unidos está implicitamente dizendo, e o secretário de Estado reafirma: “se é no hemisfério ocidental, nós vamos agir independentemente das regras”. Isso é muito grave. O presidente George W. Bush (2001–2009), quando decidiu a invasão do Iraque — que foi rejeitada pela ONU —, levou o assunto ao Conselho de Segurança. Houve pelo menos esse resquício de respeito. No caso da Venezuela, não se discute, não se dá satisfação a ninguém.
Após o ataque e o sequestro de Maduro, Trump continua ameaçando, inclusive, Colômbia, Cuba e México. Como o governo brasileiro observa essa movimentação?
Primeiro, é preciso repensar muitas coisas que achávamos que eram apenas ameaças, porque uma delas acabou ocorrendo, no caso da Venezuela. Portanto, é necessário levar essas ameaças a sério. Em segundo lugar, a mera ameaça já representa um desrespeito à ordem internacional — uma ordem que já não existe plenamente, mas cujas normas ainda são, digamos, teoricamente vigentes. Essa atitude é voltada especialmente para a América Latina e o Caribe. Por isso, volto a enfatizar que isso não ocorria, na América do Sul mais especificamente, desde o período da colonização ou logo após as independências.
Também considero importante reforçar que, independentemente da questão ideológica, o Brasil quer viver em um mundo com relações amplas com todos os países, mantendo boas relações com os Estados Unidos e com a China, sem abrir mão de sua soberania. Soberania não é uma palavra abstrata; é a capacidade de um povo viver da maneira que decide viver.
O senhor salientou que essa ação dos Estados Unidos não teve nenhum cuidado em tentar se legitimar pelos mecanismos internacionais, como a ONU. Diante disso, qual seria uma resposta internacional capaz de dar algum sentido a esse momento?
Sinceramente, não tenho condições de responder neste momento. Vejo uma Europa muito preocupada com sua autodeterminação e com sua integridade territorial, como no caso da Ucrânia — preocupação legítima —, mas que, no caso da Venezuela, parece não enxergar isso e acaba seguindo a retórica de que “ninguém gostava do Maduro”. E não se trata de gostar ou não do Maduro. A questão é o respeito à soberania dos países.
Há diferenças nas reações. A Espanha, por exemplo, teve uma reação distinta. Ainda assim, esse episódio parece mostrar que o Sul Global tem se comportado melhor do que a Europa na defesa do sistema multilateral.
Episódios como os de sábado podem aumentar os temores sobre possíveis intervenções no Brasil, ainda mais em um ano eleitoral? Ademais, como o governo analisa o relatório da Abin, publicado no ano passado, que considera possível uma interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026?
Acho que devemos estar preparados para reagir e nos defender. Sei que existe essa preocupação, mas não posso afirmar que haverá algo específico. E não falo apenas das eleições, mas também de questões de longo prazo.
O Brasil tem minérios, petróleo, riquezas naturais e precisa ter uma capacidade adequada de defesa. É necessário um mínimo de capacidade de dissuasão, que, aliás, está prevista na nossa Estratégia Nacional de Defesa. Não se trata de pensar em uma guerra com a China, os Estados Unidos, a Rússia ou a Europa.
O Brasil precisa ter uma capacidade mínima de causar um dano que torne uma invasão menos atraente para qualquer potência. No caso da América do Sul e da América Latina, quem mais tem verbalizado esse tipo de postura são os Estados Unidos.
Por fim, como o senhor analisa o cenário da região? E qual é o futuro da Venezuela, na sua avaliação?
Primeiro, quem deve decidir o futuro da Venezuela são os próprios venezuelanos. Fui enviado especial do presidente Lula durante as eleições de 2024, fiz minhas críticas, mas isso não significa concordar com a invasão de um país ou com a imposição de sanções econômicas. O povo venezuelano precisa encontrar sua própria solução. Nós podemos ajudar, facilitar um diálogo para que as forças se entendam. Isso é possível. Já houve entendimentos em outros países onde isso parecia impossível. Portanto, nossa escolha será sempre pelo diálogo e pela diplomacia, nunca pelo uso da força.
Agora, é preciso compreender, seja de direita ou de esquerda, a importância da integração da América do Sul. Isso é algo vital para todos nós. O gás, a energia, o acesso ao mercado e aos portos. Veja bem a integração de infraestrutura, quando a gente fala hoje de fazer uma ferrovia que chegue ao Pacífico, nós estamos fazendo no século 21 o que os Estados Unidos fizeram no século 19, o que a América, digamos, o norte fez e a América do Sul tem que fazer. Então, a integração é fundamental.
No entanto, é um processo complexo. É claro que é muito melhor quando os países estão em um caminho comum. Essa visão de democracia e convívio pacífico são os mais importantes. O Brasil não quer ameaçar ninguém e também não acha graça na ameaça dos outros países. Mesmo que não tema, não acha graça.























