Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Os ataques letais contra barcos no Pacífico e ameaças contra a Venezuela seriam um “plano b” dos Estados Unidos. Segundo reportagem do Washington Post (WP), a intenção inicial do governo Donald Trump era promover tensões contra o México.

Com base em declarações de autoridades do governo norte-americano, o WP revelou que a Casa Branca planejava, inicialmente, “combater os cartéis de drogas mexicanos”. A estratégia contava com a liderança de Stephen Miller, conselheiro de segurança interna de Trump e identificado por funcionários do governo como “força motriz por trás da campanha antidrogas dos Estados Unidos”.

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Miller, que iniciou seu trabalho no cargo pressionando por resultados e operações militares, tinha o México como alvo desde o início do governo republicano, uma vez que era conhecido como “o arquiteto das políticas anti-imigração e de controle de fronteiras de Trump” — uma das principais pautas defendidas pelo presidente.

Ao WP, um funcionário atual e dois ex-funcionários do governo norte-americano revelaram que, juntamente com a questão imigratória, Miller e Trump “discutiam a possibilidade de iniciar uma nova guerra contra as drogas, atacando cartéis e supostos traficantes no México”.

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Na lógica republicana, “atacar os cartéis diminuiria seu poder e ajudaria a estabilizar os países latino-americanos”, de modo que menos pessoas usassem as rotas migratórias.

Contudo, o plano de Trump e Miller encontrou um obstáculo. Mesmo com o envio de milhares de soldados para a fronteira sul do país, aumento dos voos de vigilância e demais medidas de controle, o governo dos Estados Unidos foi confrontado com um fator inesperado: que o México, sob a Presidência de Claudia Sheinbaum, estava trabalhando pela restrição das ações dos cartéis de drogas.

Uma vez que a Casa Branca não conseguiria justificar ações militares contra um país que já estava combatendo o narcotráfico, “Miller e sua equipe foram em busca de outro alvo”.

EUA miram na Venezuela

“Quando você fica na expectativa de que algo aconteça e isso não ocorre, você começa a olhar para os países ao sul do México”, disse uma das fontes do WP, sob condição de anonimato.

Assim foi iniciada a campanha “sem precedentes no uso de força letal pelas forças armadas dos Estados Unidos contra supostos grupos de narcotráfico”, afirmou o jornal norte-americano. As ações, iniciadas sob a justificativa de combate ao crime organizado, “evoluíram para atender à antiga ambição da equipe de Trump de depor o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a quem o presidente acusou de supervisionar ‘narcoterroristas’ que atacam os Estados Unidos”.

Assim, Miller foi o responsável por liderar uma operação assinada por Trump que autorizava os militares norte-americanos “a usar força letal contra duas dezenas de grupos criminosos estrangeiros”, após eles serem designados como terroristas, de acordo com um ex-funcionário do governo ao WP.

Ações iniciadas sob justificativa de combate ao narcotráfico, “evoluíram para atender à antiga ambição de depor Maduro”
Official White House Photo by Daniel Torok

Esse memorando é tido como “o pecado original de toda a operação” no Pacífico, que já deixou cerca de 100 mortos em execuções classificadas como extrajudiciais. O WP aponta que o Pentágono não divulgou publicamente a identidade das vítimas, até porque talvez não tenha todas as informações.

Contudo, Trump diz, sem apresentar provas, que as tropas norte-americanas sabem “tudo sobre seus alvos”. “Sabemos onde moram. Sabemos onde moram os maus”, disse. Por outro lado, o Pentágono confirmou saber a identidade das vítimas do primeiro ataque, em 2 de setembro. Já o senador Mark R. Warner (membro do Partido Democrata, do estado da Virgínia), vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, admitiu que as forças “não sabem a identidade de todos os indivíduos em muitos dos outros barcos”.

Para Todd Huntley, ex-advogado militar que assessorou as Forças de Operações Especiais por sete anos no auge da campanha antiterrorista dos Estados Unidos, as ações da Casa Branca no Caribe são “uma campanha contra civis e supostos criminosos que está ultrapassando os limites do direito internacional, a ponto de se tornar totalmente irreconhecível”.

Mesmo assim, a campanha obteve apoio do secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, que “havia sido abalado por vários erros e estava ansioso para mostrar que poderia cumprir uma missão de alta prioridade”.

Para Rebecca Ingber, professora da Faculdade de Direito Cardozo e ex-especialista em direito da guerra do Departamento de Estado, o termo “organizações terroristas designadas” usado pelo governo norte-americano “é inteiramente inventado como fonte de autoridade para direcionar alvos, sem qualquer fundamento legal”.

“A ideia de que um governo mataria pessoas com base na ‘certeza razoável’ de que elas são membros de um cartel de drogas é inaceitável. Qualquer órgão da ONU consideraria isso uma grave violação dos direitos humanos” disse ao WP Ryan Goodman, ex-conselheiro especial do Pentágono que trabalhou em questões de direcionamento antiterrorista no governo Obama.

Além de ilegais de acordo com os próprios especialistas norte-americanos, as ofensivas são baseadas em “ataques seletivos” já utilizados por Washington em ataques a drones realizados no Afeganistão, Paquistão e Iêmen “contra indivíduos ou grupos cujas identidades eram desconhecidas, mas que foram selecionados com base em um padrão de comportamento ou outras características associadas à atividade terrorista”.

Essa classificação fez com que os 11 mortos pelo primeiro ataque, de 2 de setembro, fossem denunciados por Trump como parte do grupo Tren de Aragua, que operavam “sob o controle” de Maduro. Contudo, a própria comunidade de inteligência dos Estados Unidos afirmou que o Tren de Aragua não era dirigido pelo governo venezuelano.

Sem autorização do Congresso, diferentemente das operações norte-americanas no Oriente Médio, a campanha de Trump contra a Venezuela se amplia. “Eliminamos 96% das drogas que entravam por via marítima. E agora estamos começando por via terrestre, e por terra é muito mais fácil, e isso vai começar a acontecer”, declarou o presidente, sem provas dos supostos resultados.