Brasil adota ‘cautela’ diante das ameaças de Trump contra Venezuela
Opera Mundi apurou que governo Lula aguarda desdobramentos para posição, mas rejeita qualquer escalada militar na fronteira amazônica
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva não deve se pronunciar, pelo menos “neste momento”, sobre as tensões fomentadas pelo presidente norte-americano Donald Trump contra a Venezuela, ao adotar uma política diplomática “mais silenciosa e cautelosa”. De acordo com fontes do governo consultadas por Opera Mundi nesta quarta-feira (17/12), o Planalto tenta evitar qualquer escalada que possa levar a um conflito militar na fronteira norte do Brasil.
“Não nos interessa em absoluto qualquer tipo de confronto militar na nossa fronteira norte, na nossa fronteira amazônica”, disse, indicando que a fronteira terrestre com a Venezuela é fator central na preocupação brasileira. A não confrontação é, segundo o alto funcionário, uma visão unânime no espectro político nacional.
Tradicionalmente, Brasília evita notas condenatórias contra crises globais pelo risco, segundo a fonte, delas serem “contraproducentes”. Desta forma, inclina-se a soluções que compreendam os meios diplomáticos, como o “diálogo” e a “moderação”. “O Brasil não pretende, neste momento, soltar uma nota, mas o cenário pode ir mudando”, afirmou.
Na semana anterior, o presidente Lula e seu homólogo venezuelano Nicolás Maduro tiveram uma breve conversa telefônica durante a qual abordaram a pressão militar norte-americana sobre o Caribe – iniciada em setembro sob o pretexto de se tratar de um mecanismo de combate contra o tráfico de drogas regional – e na América do Sul – com a retomada da “Doutrina Monroe” em suposta estratégia de segurança nacional. “Não foi para tratar de questões bilaterais”, reforçou a fonte. E muito antes, em 26 de outubro, o líder brasileiro havia realizado o seu primeiro encontro com o republicano, na Malásia.
“Ele [Lula] nunca se ofereceu para ser mediador, nada do tipo, mas se ofereceu de maneira mais aberta a ajudar na questão. Nesse espírito, conversou com o presidente Maduro na semana retrasada por telefone”, disse, e acrescentou que “o Brasil conversa com as partes. É muito importante a gente observar com atenção. Tudo isso está sendo observado com muita atenção, sendo tocado aqui pela presidência com muita cautela”.
A postura cautelosa, segundo o funcionário do governo, decorre pela importância simultânea das relações com os Estados Unidos e com a Venezuela.
“Os Estados Unidos são um parceiro econômico e comercial muito importante. Em termos de investimentos também. E a Venezuela é muito importante pelo caráter geoestratégico: na nossa fronteira norte, nossa fronteira amazônica, com terras indígenas binacionais”, ressaltou. “E outra. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Isso tem que sempre entrar em toda equação. E para a equação do presidente Trump. Ele não estaria mexendo com a Venezuela se fosse um país geoestrategicamente menos relevante”.

Governo brasileiro de Luiz Inácio Lula da Silva adota postura cautelosa sobre tensões entre Venezuela e os Estados Unidos
Arquivo
Particularmente sobre as relações entre Brasília e Caracas, há um entendimento nos bastidores do Itamaraty de que o não reconhecimento brasileiro das eleições presidenciais que resultaram na vitória de Maduro em julho de 2024 gerou um “grande distanciamento”, episódio que teria afetado muito mais que a não inclusão do país caribenho no BRICS.
“A parceria política Brasil-Venezuela fica profundamente prejudicada depois das eleições do ano passado”, afirmou, destacando que o primeiro contato de alto nível desde então foi o recente telefonema “rápido” entre Lula e Maduro.
























