Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
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O Brasil é um “grande agente da diplomacia internacional” e tem o potencial de mobilizar uma série de organizações multilaterais para defender a soberania venezuelana em meio às crescentes ameaças intervencionistas conduzidas pelos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro. Por sua vez, meios militares não são alternativas para auxiliar o país com o qual faz fronteira, conforme a analista internacional Ana Prestes destacou a Opera Mundi.

“O Brasil pode atuar através da ONU (Nações Unidas), através do BRICS e na OEA (Organização dos Estados Americanos), embora saibamos que esta última é totalmente subordinada às determinações dos Estados Unidos”, disse ela, ao acrescentar que Brasília tem autonomia para reunir as governanças sul-americanas em prol de Caracas.

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Após o presidente estadunidense Donald Trump determinar a Venezuela como uma “organização terrorista estrangeira”, na noite de terça-feira (16/12), a reportagem consultou a diplomacia brasileira, que revelou uma posição “mais cautelosa” do governo de Luiz Inácio Lula da Silva frente aos desdobramentos na região caribenha. 

Para Prestes, “é para ontem” que o Brasil deveria convocar uma reunião de alto nível para tratar dos ataques norte-americanos, em uma campanha que também tem afetado países do sul com a adoção da nova estratégia de segurança nacional — esta que chega a mencionar a retomada da Doutrina Monroe. “Pelo menos uma cúpula ministerial para tratar deste tema que é um ataque frontal não só à Venezuela, mas à América do Sul como um todo”.

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A analista também avalia um certo desgaste na relação entre Brasília e Caracas, uma situação derivada do não reconhecimento brasileiro às eleições presidenciais da Venezuela em julho de 2024 que reelegeram Maduro. Além disso, o veto à participação venezuelana no BRICS presidido pelo Brasil, em 2025.

“O governo brasileiro poderia ter atuado mais em relação às ameaças à Venezuela. Poderia ter feito mais e ainda pode fazer mais”, disse Prestes.

Apesar da “posição vacilante”, a especialista lembra a ligação telefônica entre Lula e Maduro na última semana, na qual o assunto da paz na América Latina e no Caribe foi a questão central. Os detalhes da conversa não foram publicados pelo Itamaraty nem pelo governo venezuelano, mas fontes ouvidas pela reportagem confirmaram que o diálogo presidencial não tocou no tema das relações bilaterais. 

América Latina sofre com falta de articulação conjunta

Por sua vez, a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carolina Pedroso avalia que a América Latina não consegue articular uma resistência caso os EUA decidam por ataques militares em território venezuelano. “Se os Estados Unidos quiserem dar o próximo passo, não vai haver nenhuma potência latino-americana capaz de impedir em termos reais. Não há nenhum elemento concreto para utilizarmos como tentativa de diminuir essa pressão militar”, afirmou a Opera Mundi

A professora relaciona essa postura “à própria deficiência dos países em termos de defesa” em comparação com os EUA. “Na prática, não há nenhum elemento dissuasório para evitar que os Estados Unidos continuem essas incursões militares no Caribe. Nós não somos país militarizados”.

No caso do Brasil, Pedroso critica a “incapacidade de exercer um papel de liderança na América Latina” como o país já fez nos outros dois mandatos do presidente Lula (2003-2011). Para ela, o país já teve “algum papel de liderança na região”, mas agora “não está conseguindo levar isso adiante”. Para ela, essa “incapacidade regional de articulação” é muito preocupante.

Pedroso usa como exemplo a crise de deportação promovida pelos EUA em janeiro, na qual os países latino-americanos não conseguiram produzir uma resposta conjunta. “Uma nota da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) parecia ser importante, mas não passou de uma declaração. Não houve realmente uma articulação conjunta dos países e basicamente foi discutida de forma bilateral entre os países e os Estados Unidos”.

Segundo a professora, essa falta de articulação conjunta levou à “degringolada da situação”, com as consecutivas imposições de medidas unilaterais por Washington, seja no âmbito comercial, tarifário e agora militar. Apesar da existência de “vozes um pouco mais aguerridas”, como a do presidente da Colômbia Gustavo Petro, Pedroso disse que ele, como mandatário, tem “limitações internas” que o impedem de agir. 

Em sua análise, quem poderia “eventualmente auxiliar” a América Latina seria a Rússia, uma vez que faz treinamentos constantes com militares venezuelanos e fornece aparatos e equipamentos para Caracas. Mas “há dúvidas sobre sua disposição”, uma vez que todo seu esforço de guerra está voltado para a Ucrânia. “A China também eventualmente poderia auxiliar, mas tem os seus próprios problemas no seu entorno geopolítico, agora as tensões com o Japão e Taiwan”, afirmou, em referência às declarações militaristas da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, em relação à ilha reivindicada por Pequim. 

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu homólogo venezuelano Nicolás Maduro em maio de 2023
Ricardo Stuckert/PR Palácio do Planalto – Brasília – DF.
Foto: Ricardo Stuckert/PR

Falta de consenso nos EUA equilibra tensões

Uma possível ajuda da Rússia ou da China na América Latina ecoa a forma que os dois países passaram a ocupar mais espaço na região, fazendo os EUA perderem posição de influência com os países latinos — motivo pelo qual a Casa Branca, sob o governo Trump, tenta recuperar sua hegemonia, segundo Pedroso. “A Venezuela é o inimigo perfeito neste momento [dos EUA] porque simboliza muitas das questões que o MAGA [Movimento Make America Great Again] se alicerça. Fazer a América Grande de Novo exige recolocar os Estados Unidos como uma grande potência regional que foi perdendo espaço ao longo do tempo”, afirmou. 

Em sua análise, a Venezuela é esse epicentro porque “se coloca de maneira frontal contra os interesses norte-americanos e porque abriu seu território para a presença de outras potências rivais, que competem com a hegemonia dos Estados Unidos”. 

Em relação à justificativa de Washington em combater o narcotráfico, Pedroso diz ser “balela”, mas “extremamente conveniente para justificar suas ações externas”, considerando a preocupação em relação ao uso e tráfico de drogas nos EUA. Para a docente, Trump usa essa prerrogativa, classificando os navios petroleiros da Venezuela e o governo Maduro como terroristas, para que suas decisões militares não precisem passar pela aprovação do Congresso

Além disso, a crescente tensão militar na região é uma “tentativa de desviar o foco” dos problemas internos de Trump nos EUA, como a aprovação do orçamento federal que levou a um shutdown nos serviços públicos e os escândalos envolvendo o republicano, como sua proximidade com o financista acusado de tráfico sexual, Jeffrey Epstein. 

Por outro lado, a professora avaliou que “a falta de consenso interno nos EUA sobre a efetivação dos ataques contra a Venezuela equilibra um pouco as tensões” na região. “Entre os apoiadores do Maga, há um consenso de que Maduro precisa deixar o governo venezuelano, mas não sobre como produzir isso”. De acordo com sua análise, os EUA “querem produzir uma pressão contra o governo Maduro de modo que as Forças Armadas não precisem efetivamente intervir”.