Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
APOIE
Menu

Neste final de semana, membros do Congresso norte-americano, de ambos os partidos, declararam na mídia norte-americana que o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, poderia ter cometido um crime de guerra no Caribe. As declarações foram feitas após o Washington Post revelar uma ordem do secretário para eliminar os náufragos de um ataque a uma embarcação pesqueira, ocorrido em 2 de setembro.

Com base em relato de sete pessoas com conhecimento das operações no Caribe, a reportagem afirma que “enquanto dois homens se agarravam a um navio em chamas e atingido, alvo do SEAL Team 6, o comandante das Operações Especiais Conjuntas, cumpriu a ordem do secretário de defesa de não deixar sobreviventes”.

Os senadores democratas Chris Van Hollen e Tim Kaine, membros do Comitê de Relações Exteriores do Senado, disseram no domingo (30/11) que, se confirmada, a ordem pode ser considerada um crime de guerra.

“Se este relatório for verdadeiro, ele constituiria uma clara violação das próprias leis de guerra do Departamento de Defesa e das leis internacionais sobre como tratar indivíduos nessa situação. Portanto, se este relatório for verdadeiro, ele se eleva ao nível de crime de guerra”, afirmou Kaine à CBS.

A mesma posição foi manifestada pelos senadores democratas Mark Kelly e Ed Markey. Kelly disse à CNN, também no domingo, que, se verdadeira, a ordem é “claramente contra a lei”. Markey, por sua vez, postou em sua conta X, que “Pete Hegseth é um criminoso de guerra e deve ser demitido imediatamente.”

Os deputados republicanos Mike Turner e Don Bacon também se manifestaram. Turner disse que “se algo assim acontecesse, seria uma situação muito séria, concordo que seria um ato ilegal”. Já Bacon afirmou à ABC que, se isso acontecesse como descrito no artigo, seria uma “violação da lei da guerra.”

“Não acho que ele seja tolo o suficiente para tomar uma decisão como ‘matar todo mundo, matar os sobreviventes’, porque isso é uma clara violação da lei da guerra. Portanto, duvido muito que ele pudesse ter feito tal coisa, pois iria contra o bom senso”, afirmou Bacon.

Congressistas pedem explicações à Casa Branca sobre possível crime de guerra no Caribe
Reprodução / @SecWar

‘Momento perigoso’

Segundo o prêmio Pulitzer, Spencer Ackerman, os ataques letais conduzidos pela administração Trump contra supostos “barcos de traficantes” no Caribe e no Pacífico, somados ao fechamento total do espaço aéreo ao redor da Venezuela e à ameaça explícita de uma ofensiva militar, configuram um momento “realmente perigoso da história americana”.

Ao Democracy Now!, o jornalista, autor do premiado “Reign of Terror”, afirmou que as ações da Casa Branca revelam o legado corrosivo da guerra ao terror dentro das Forças Armadas. “Agora temos a guerra ao terror refletida na forma como o governo Trump está mirando a Venezuela, o Equador, Honduras — desculpe, Venezuela, Colômbia, Honduras e além”, disse.

Ele também mencionou o segundo ataque inicial contra as embarcações no começo de setembro. “Isso foi além até de muitas das ações ilegais cometidas durante a guerra ao terror. No entanto, isso mostra a degeneração moral que a guerra ao terror deixou como legado nas Forças Armadas dos EUA, não apenas a tática de um ataque de drone, mas a disposição de matar civis.”

Ackerman explicou que o double tap — segundo ataque sobre um alvo já atingido para garantir que não haja sobreviventes – é proibido mesmo em cenários de conflito armado. “Se não estamos de fato em guerra […], então isso é simplesmente, como todos os outros ataques, que já mataram mais de 80 pessoas, um ato criminoso de assassinato”, disse.

‘Precisamos impedir Hegseth’

Em sua avaliação, “este é um momento decisivo para a democracia americana. Precisamos que Hegseth seja impedido. Precisamos que Bradley seja impedido. […] Esses homens não podem ser autorizados a permanecer em seus cargos. Eles estão transformando os militares em uma operação criminosa.”

Ackerman lembrou que Hegseth demitiu os principais advogados militares do Pentágono — justamente os que poderiam vetar ordens ilegais — e também afastou o presidente do Estado-Maior Conjunto “simplesmente por ser negro”. Segundo o jornalista, “trata-se de alguém que nunca deveria ter estado em nenhum lugar próximo ao Gabinete do Secretário de Defesa, um dos cargos mais poderosos do mundo”.

Ele também lembrou que no próximo dia 12 de dezembro, o almirante Alvin Holsey, comandante do SOUTHCOM, deixará oficialmente as Forças Armadas para não cumprir ordens consideradas criminosas. Em sua avaliação, “será crucial levar Holsey às audiências no Congresso para falar exatamente sobre o que ele fez antes de sua decisão de sair, o que Hegseth ordenou que ele fizesse, o que outras pessoas no gabinete do secretário de Defesa ordenaram que ele fizesse e que, ao que tudo indica, ele não estava disposto a fazer”.

“Este será um momento crucial de investigação, se quisermos recuperar qualquer aparência de legalidade sobre os militares dos EUA”, complementou.

Hegseth não negou a reportagem e ainda publicou um meme nesta segunda-feira (01/12) comemorando os ataques. No post, ele coloca o desenho de Franklin, a Tartaruga, atirando de um helicóptero contra barcos. A postagem foi considerada um deboche do Secretário de Defesa frente às graves acusações.

Republicanos e democratas no Congresso já anunciaram que abrirão investigações sobre o ataque.