Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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O governo dos Estados Unidos retirou uma de suas principais acusações contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixando de atribuir ao mandatário a liderança de uma suposta organização de narcotráfico chamada “Cartel de Los Soles”.

A mudança está em uma nova versão do ato de acusação contra Maduro, tornada pública pelo Departamento de Justiça norte-americano após o sequestro do líder chavista no último sábado (03/01).

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No documento original, de 2020, Maduro era descrito como o líder do suposto Cartel de Los Soles, termo mencionado 32 vezes. Esse também foi o tom adotado pela gestão do presidente Donald Trump durante todo o ano de 2025, quando o alegado grupo foi declarado como “terrorista” pela Casa Branca.

A nova acusação — apresentada no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Sul de Nova York —, no entanto, cita a organização apenas duas vezes, descrevendo-a não como um cartel formal, mas como um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentada por recursos do narcotráfico.

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A nova acusação, em vez de descrevê-la como uma organização hierárquica dedicada ao narcotráfico, define-a como uma “cultura de corrupção” composta por altos funcionários civis e militares venezuelanos que “protegem e promovem o narcotráfico”, uma definição muito distante da de um cartel de drogas com o qual Trump justificou um destacamento militar sem precedentes no Mar do Caribe, antes do ataque direto à Caracas.

Agora, de acordo com a nova acusação, Maduro e o líder da revolução Hugo Chávez, “participaram, perpetuaram e protegeram” esse suposto esquema de clientelismo.

Inconsistências

Na última segunda-feira (05/01), Maduro declarou-se inocente das acusações contra ele diante de um tribunal de julgamento em Nova York. O líder chavista afirmou que foi “sequestrado” para comparecer ao tribunal norte-americano.

“Fui capturado em minha casa, em Caracas. Sou inocente, não sou culpado”, disse Maduro, acrescentando que é o presidente da Venezuela e um homem “decente”.

Mudança está em nova versão do ato de acusação contra Maduro, tornada pública pelo Departamento de Justiça norte-americano 
RS/Fotos Públicas

A correção da acusação por parte do Departamento de Justiça ganha ainda mais relevância porque, em fevereiro de 2025, o Departamento do Tesouro e, posteriormente, o Departamento de Estado — sob a administração Trump — designaram o “Cartel de Los Soles” como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO).

Apesar da designação, a medida não encontra respaldo nos relatórios técnicos da Agência de Combate às Drogas (DEA), do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da União Europeia, que não mencionam o grupo em suas avaliações anuais sobre o tráfico de drogas.

A DEA, em sua Avaliação Nacional de Ameaças de Drogas de 2025 , detalha com precisão as rotas do tráfico de drogas nas Américas, mas não inclui a Venezuela como um importante país de trânsito, nem menciona o “Cartel de Los Soles” em nenhuma seção. O mesmo ocorre em relatórios da ONU e do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência.

Já Elizabeth Dickinson, diretora adjunta para a América Latina do International Crisis Group, consultada pelo The New York Times, afirmou que a nova descrição do Cartel de los Soles é “exatamente fiel à realidade”, contrariando a versão de 2020. Segundo a especialista, a correção foi feita porque as autoridades norte-americanas “sabiam que não conseguiriam provar isso em tribunal”.

Ainda assim, autoridades estadunidenses, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio, insistem em tratar o “Cartel de Los Soles” como uma organização real. Na última segunda-feira (05/01), Rubio afirmou que “o líder desse cartel, está agora sob custódia dos EUA”, referindo-se a Maduro.

Por sua vez, Trump, em discurso oficial aos republicanos no Congresso nesta terça-feira (06/01), insistiu em classificar Maduro como “um cara violento que já matou milhões de pessoas”.

O republicano avaliou positivamente o seu próprio mandato como “bem-sucedido”, enquanto declarou que a nação teve “um dia muito bom há dois dias”, em referência à invasão e agressão ilegais na Venezuela que resultaram no sequestro de seu presidente, como também da primeira-dama Cilia Flores, além de dezenas de mortes.

Ao chamar de “brilhante” e “incrível” a operação militar de 3 de janeiro que atingiu várias localidades venezuelanas, incluindo a capital Caracas, Trump disse que “foi [uma operação] incrível. E pense bem, ninguém morreu. E, do outro lado, muitas pessoas foram mortas”.

(*) Com Ansa e TeleSUR