Departamento de Justiça dos EUA retira acusação de Maduro sobre liderança do ‘Cartel de Los Soles’
Apesar de novo documento, que não define organização como cartel formal, Trump insiste em retórica e chama presidente venezuelano de ‘violento’
O governo dos Estados Unidos retirou uma de suas principais acusações contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixando de atribuir ao mandatário a liderança de uma suposta organização de narcotráfico chamada “Cartel de Los Soles”.
A mudança está em uma nova versão do ato de acusação contra Maduro, tornada pública pelo Departamento de Justiça norte-americano após o sequestro do líder chavista no último sábado (03/01).
No documento original, de 2020, Maduro era descrito como o líder do suposto Cartel de Los Soles, termo mencionado 32 vezes. Esse também foi o tom adotado pela gestão do presidente Donald Trump durante todo o ano de 2025, quando o alegado grupo foi declarado como “terrorista” pela Casa Branca.
A nova acusação — apresentada no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Sul de Nova York —, no entanto, cita a organização apenas duas vezes, descrevendo-a não como um cartel formal, mas como um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentada por recursos do narcotráfico.
A nova acusação, em vez de descrevê-la como uma organização hierárquica dedicada ao narcotráfico, define-a como uma “cultura de corrupção” composta por altos funcionários civis e militares venezuelanos que “protegem e promovem o narcotráfico”, uma definição muito distante da de um cartel de drogas com o qual Trump justificou um destacamento militar sem precedentes no Mar do Caribe, antes do ataque direto à Caracas.
Agora, de acordo com a nova acusação, Maduro e o líder da revolução Hugo Chávez, “participaram, perpetuaram e protegeram” esse suposto esquema de clientelismo.
Inconsistências
Na última segunda-feira (05/01), Maduro declarou-se inocente das acusações contra ele diante de um tribunal de julgamento em Nova York. O líder chavista afirmou que foi “sequestrado” para comparecer ao tribunal norte-americano.
“Fui capturado em minha casa, em Caracas. Sou inocente, não sou culpado”, disse Maduro, acrescentando que é o presidente da Venezuela e um homem “decente”.

Mudança está em nova versão do ato de acusação contra Maduro, tornada pública pelo Departamento de Justiça norte-americano
RS/Fotos Públicas
A correção da acusação por parte do Departamento de Justiça ganha ainda mais relevância porque, em fevereiro de 2025, o Departamento do Tesouro e, posteriormente, o Departamento de Estado — sob a administração Trump — designaram o “Cartel de Los Soles” como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO).
Apesar da designação, a medida não encontra respaldo nos relatórios técnicos da Agência de Combate às Drogas (DEA), do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da União Europeia, que não mencionam o grupo em suas avaliações anuais sobre o tráfico de drogas.
A DEA, em sua Avaliação Nacional de Ameaças de Drogas de 2025 , detalha com precisão as rotas do tráfico de drogas nas Américas, mas não inclui a Venezuela como um importante país de trânsito, nem menciona o “Cartel de Los Soles” em nenhuma seção. O mesmo ocorre em relatórios da ONU e do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência.
Já Elizabeth Dickinson, diretora adjunta para a América Latina do International Crisis Group, consultada pelo The New York Times, afirmou que a nova descrição do Cartel de los Soles é “exatamente fiel à realidade”, contrariando a versão de 2020. Segundo a especialista, a correção foi feita porque as autoridades norte-americanas “sabiam que não conseguiriam provar isso em tribunal”.
Ainda assim, autoridades estadunidenses, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio, insistem em tratar o “Cartel de Los Soles” como uma organização real. Na última segunda-feira (05/01), Rubio afirmou que “o líder desse cartel, está agora sob custódia dos EUA”, referindo-se a Maduro.
Por sua vez, Trump, em discurso oficial aos republicanos no Congresso nesta terça-feira (06/01), insistiu em classificar Maduro como “um cara violento que já matou milhões de pessoas”.
O republicano avaliou positivamente o seu próprio mandato como “bem-sucedido”, enquanto declarou que a nação teve “um dia muito bom há dois dias”, em referência à invasão e agressão ilegais na Venezuela que resultaram no sequestro de seu presidente, como também da primeira-dama Cilia Flores, além de dezenas de mortes.
Ao chamar de “brilhante” e “incrível” a operação militar de 3 de janeiro que atingiu várias localidades venezuelanas, incluindo a capital Caracas, Trump disse que “foi [uma operação] incrível. E pense bem, ninguém morreu. E, do outro lado, muitas pessoas foram mortas”.
(*) Com Ansa e TeleSUR























