'É preciso parar essa loucura pelo bem da humanidade', avalia ex-vice-presidente de Chávez sobre ataque à Venezuela
Elías Jaua analisa agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela e pede apoio da comunidade internacional ao governo da presidente interina Delcy Rodríguez
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela não diz respeito apenas ao país caribenho. Ele revela que a ordem internacional, construída após a II Guerra Mundial, já não existe mais. “É o que vimos no último dia 3 de janeiro”, avalia Elías Jaua, vice-presidente da República Bolivariana durante o governo de Hugo Chávez e ex-ministro da Educação do governo Maduro.
Em entrevista a Opera Mundi, Jaua analisou a atual situação na Venezuela e pediu à comunidade internacional que apoie o governo da presidente interina Delcy Rodríguez. Ele comentou a fragilidade das acusações de Washington contra o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os interesses de Donald Trump no petróleo e recursos venezuelanos.
Apontando que a agressão norte-americana é um problema posto a todas as nações do mundo, Jaua destacou que está em jogo a própria existência dos Estados nacionais. “Esta é a contradição na Venezuela neste momento: continuamos uma república ou cedemos e nos tornamos uma colônia?”
Diretor do Centro de Estudos para a Democracia Socialista (CEDES), destacou que o Brasil, como líder da América Latina e do Caribe, deveria propor um grande debate sobre a gravidade da situação no âmbito das Nações Unidas e nas diferentes instâncias internacionais. “É preciso parar essa loucura pelo bem da humanidade e pela paz no mundo”, afirmou.
Confira a entrevista:
Como o senhor avalia as relações entre Venezuela e Washington neste momento?
Elías Jaua – A Venezuela sempre esteve disposta a chegar a um acordo de respeito mútuo com os diferentes governos dos Estados Unidos. Nas condições atuais, após a covarde agressão militar contra nosso país, mais do que nunca é necessário um acordo que permita uma resolução pacífica das contradições entre a elite norte-americana e o governo da Venezuela.
Como é de conhecimento público, estão ocorrendo comunicações e conversas entre as autoridades de ambos os países para chegar a um acordo que, na minha opinião, deve respeitar a soberania nacional e o regime republicano que a Venezuela conquistou desde 1811.
O senhor acredita que pode ter havido uma traição ao presidente Nicolás Maduro, para explicar a ineficácia de seu dispositivo de defesa diante do ataque norte-americano de 3 de janeiro?
O que eu poderia dizer seria especulação e, em um momento tão delicado como o que vive a República, é muito irresponsável especular sobre os cenários que poderiam ter ocorrido. Os responsáveis por essa questão, no momento que considerarem oportuno, explicarão ao país e ao mundo o que aconteceu.
Quais são as expectativas em relação ao governo interino de Delcy Rodríguez? O chavismo corre perigo frente à intervenção dos EUA?
Não o chavismo, a Venezuela está em perigo diante de um governo que demonstrou não ter nenhum respeito pelo direito internacional, nem pelas normas mínimas de desenvolvimento de um conflito militar. A Venezuela está ameaçada e o mundo precisa se mobilizar em defesa não de um governo, mas de um Estado nacional, de uma república independente e soberana.
O governo da presidente interina Delcy Rodríguez é um governo que emana do estabelecido na Constituição da República Bolivariana da Venezuela e requer todo o apoio nacional e internacional para, em meio a uma agressão tão grave e uma ameaça que persiste, poder garantir a paz, a estabilidade e recuperar o caminho do bem-estar para o nosso povo.
Meu apelo à comunidade internacional é para que apoie o governo da presidente interina, até que haja uma resolução do conflito e uma restauração do Estado de Direito internacional.
O senhor acredita que Maria Corina Machado e a direita venezuelana poderiam assumir o governo por pressão dos Estados Unidos?
Os Estados Unidos não devem decidir quem governa a Venezuela. Delcy Rodríguez é a presidenta encarregada, porque assim está previsto na Constituição vigente no país.
Como o senhor avalia as acusações e o julgamento do presidente Maduro e da primeira-dama nos Estados Unidos?
Nós vimos a apresentação perante o tribunal do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores. Foram lidas as acusações que destacam, como já é público através do New York Times e outros jornais, que não existe no processo o sujeito denominado Cartel de Los Soles, qualificado como organização terrorista sobre a qual foi montada toda esta campanha, que teve como desfecho a agressão militar contra a cidade de Caracas e outras populações da Venezuela.
Desse modo, é possível perceber que estamos novamente diante de uma nova história construída como tantas outras. Infelizmente, nós já vimos as armas químicas na Síria, as armas de destruição em massa no Iraque, e assim por diante. A política instaurada a partir do governo norte-americano de construir histórias para invadir países e produzir mudanças de regime.
Estou absolutamente seguro de que, a cada dia que passa, ficará mais claro como foi construída essa história para justificar a agressão a um país soberano e tentar sua subordinação política e a espoliação de seus recursos.

‘É preciso parar essa loucura pelo bem da humanidade’, avalia ex-vice-presidente de Chávez sobre ataque à Venezuela
Reprodução vídeo / Vocesenlucha YouTube
Trump afirmou que controlará a produção petrolífera do país, abrindo o mercado às empresas americanas. Quais são as possibilidades de isso acontecer?
É a evidência clara do que a Venezuela e esquerda venezuelana sempre disseram: o único objetivo dos Estados Unidos para a Venezuela é administrar e apropriar-se dos imensos recursos de hidrocarbonetos que o país possui e de outros materiais estratégicos.
Os Estados Unidos de Trump se encarregaram de revelar abertamente o que tem sido o sentido e o objetivo principal da política de diversos governos norte-americanos, sejam eles democratas, republicanos ou agora MAGA, em relação à Venezuela: apropriar-se, administrar e aproveitar os recursos petrolíferos venezuelanos, como fizeram até 1976, sem quaisquer limites, sem nenhum benefício para o país, sem qualquer tipo de contribuição para o desenvolvimento integral da nossa nação.
A Venezuela nunca se fechou à participação de empresas norte-americanas na exploração petrolífera do país, nos termos estabelecidos na Constituição da República Bolivariana da Venezuela, em nossa legislação vigente e no respeito à soberania do nosso país.
Portanto, a possibilidade de empresas norte-americanas – como a Chevron tem feito ao longo de todos esses anos – extrair, processar e exportar petróleo venezuelano não seria nenhuma novidade, desde que seja feita nos termos estabelecidos na nossa Constituição vigente.
Todos os países da América Latina, do Caribe e do mundo, incluindo os países europeus, precisam entender que o que aconteceu na Venezuela nos remete ao século XVI, anterior à existência dos Estados nacionais. O que Trump pretende, como ele próprio declarou, é governar um Estado nacional soberano, como a República Bolivariana da Venezuela, e administrar diretamente suas riquezas petrolíferas.
O problema não é mais a Venezuela. A questão é se, neste mundo concebido por Trump, os Estados nacionais vão existir ou não. Isso não diz respeito apenas à Venezuela, mas a todos os países do mundo.
Com todo o respeito, o Brasil, como líder da América Latina e do Caribe, deveria liderar um grande debate no âmbito das Nações Unidas e para além, nas diferentes instâncias internacionais, sobre a gravidade da situação. Hoje, a principal contradição do mundo é se seremos colônias ou repúblicas. Essa é a contradição na Venezuela neste momento. Se somos uma república ou se cedemos e nos tornamos uma colônia, como pretende o senhor Donald Trump.
Pouco se falou sobre a resistência do povo venezuelano durante o ataque, sabe-se que pelo menos 80 pessoas morreram. Qual é o clima dentro do país neste momento?
Foi um ataque covarde, nas primeiras horas da madrugada, com mais de 150 aviões, em uma incursão surpresa focada no local de residência do presidente da República, de forma que o povo venezuelano não teve nenhuma possibilidade de reagir a essa agressão covarde, com os meios tecnológicos avançados que os Estados Unidos utilizaram.
Para o bem de nossa pátria e nossa história, o povo venezuelano manteve a paz, compreendeu a situação e não provocou o caos que muitos acreditavam que iria ocorrer em uma situação como esta. Isso demonstra que a liderança popular venezuelana nos bairros e nas comunidades conseguiu manter a ordem e garantir o desenrolar da vida cotidiana da população.
Na maior parte do país há eletricidade, serviço de água, combustível, transporte público, o comércio está funcionando. Isso é uma demonstração de resistência, organização e disciplina de um povo que não quer a guerra, mas quer a paz e recuperar o bem-estar, a tranquilidade e o direito de viver em paz como nação. O povo venezuelano é um grande povo e está demonstrando isso neste momento.
Vários países, como China, Rússia e Irã, repudiaram o ataque. O que a comunidade internacional pode realmente fazer diante da ação imperialista de Trump?
Agradecemos a solidariedade dos países, especialmente o debate realizado ontem nas Nações Unidas em ambas as instâncias. No entanto, voltamos ao problema fundamental: não se trata apenas de emitir solidariedade à Venezuela.
A questão fundamental que deve ser levantada, especialmente pelas potências mundiais, é a vigência do Estado nacional do regime republicano, que existe na maioria dos países do mundo, e o direito à independência e à autodeterminação dos povos.
Esse é o debate e isso implica definitivamente uma recomposição da ordem internacional que nasceu após a Segunda Guerra Mundial na Conferência de Yalta e, posteriormente, em Potsdam. Trata-se de construir uma nova ordem internacional em que sejam restaurados os princípios do respeito às nações, aos Estados nacionais e à coexistência saudável entre as nações; e a resolução pacífica, e não o uso da força militar, diante dos conflitos.
Tudo isso está desmoronando. Não apenas com a agressão covarde contra nossa pátria no último sábado, 3 de janeiro. A maior expressão disso é o genocídio cometido contra o povo palestino em Gaza e outras atrocidades que temos visto, especialmente após a chamada guerra contra o terrorismo decretada pelos Estados Unidos depois do ataque às Torres Gêmeas de Nova York.
A ordem internacional vem sendo desconstruída a tal ponto, que podemos dizer que ela não existe mais. Nós, venezuelanos, acabamos de vivenciar isso em 3 de janeiro. Estamos diante da ausência do direito internacional e de uma ordem internacional que permita a segurança e a paz para cada povo.
Apelamos para uma maior solidariedade com o povo venezuelano. Todos os povos do mundo precisam entender que o que fizeram com a Venezuela pode ser feito com qualquer um. O México e a Colômbia já estão sob ameaça do governo dos Estados Unidos, a Dinamarca também. É preciso parar essa loucura pelo bem da humanidade e pela paz no mundo.























