Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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O jornal argentino Página 12 publicou nesta terça-feira (02/12) que “a Casa Rosada incentiva um banho de sangue no Caribe” em meio à escalada de agressões e ameaças dos Estados Unidos contra o governo venezuelano de Nicolás Maduro. O artigo foi veiculado um dia depois que a gestão de Javier Milei cobrou do Tribunal Penal Internacional (TPI), por meio de seu representante, uma “ação imediata” para prender o líder de Caracas, como também o ministro do Interior e líder do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) Diosdado Cabello.

A posição argentina no tribunal de Haia de Diego Emilio Sadofschi, que também alegou suposta fraude nas eleições de 2024 no país caribenho, foi logo rebatida por Caracas. O embaixador venezuelano, Héctor Constant Rosales, acusou o governo Milei de ser um “falso defensor dos direitos humanos”, e de “politizar” a conferência para atacar “de forma inoportuna” a legitimidade do regime chavista.

De acordo com o Página 12, “o que o embaixador Diego Emilio Sadofschi fez foi um simples discurso, não uma apresentação séria ao escritório do promotor fornecendo elementos ou comprovando uma medida”, uma vez que atualmente o TPI não possui nenhum mandado de prisão contra Maduro, diferentemente do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, nem sequer há decisão formalizada referente à investigação em andamento sobre supostas violações de direitos humanos no país.

“Trata-se de seguir Trump, buscando legitimar uma guerra no continente. O pior adicional é que os Estados Unidos não reconhecem o Tribunal Penal porque não querem que os crimes de seus soldados ao redor do mundo sejam julgados por um tribunal internacional”, acrescentou o jornal.

O veículo argentino também apontou o fato de Sadofschi não ser um embaixador, mas sim um encarregado de negócios da Argentina na Holanda. Destacou ainda ser “curioso” o tipo de discurso tomado pelo representante em um órgão como o TPI, já que se trata de um congresso destinado à aprovação de medidas. Segundo o Página 12, “foi apenas um discurso político destinado a justificar qualquer ação de Trump”.

“Desde 2021, quando começou a investigação sobre a violação dos direitos humanos na Venezuela, houve pouco progresso. É necessário mandados de prisão e investigações rigorosas, porém rápidas”, disse Sadofschi, na segunda-feira (01/12).

Presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump
The White House

A posição argentina na Corte é dada no contexto recente em que Washington mobilizou uma enorme frota na costa venezuelana e, de forma unilateral, ordenou o fechamento do espaço aéreo do país bolivariano. Para o Página 12, “tudo indica que o representante da Casa Rosada foi instruído a fazer um discurso em apoio a Trump”, embora “o apoio de Milei não tenha um peso enorme”.

Porém, ainda segundo o jornal, a investida argentina “acontece em um momento em que Trump precisa de qualquer opinião favorável para apoiar o que está fazendo”, uma vez que a ofensiva norte-americana é acusada pelos jornais de oposição de ser “mais uma cortina de fumaça diante da enorme perda de popularidade do presidente norte-americano devido ao aumento dos preços devido às tarifas impostas às importações, à perseguição de imigrantes e, em geral”.

Nesse contexto, o veículo interpreta que o alinhamento argentino com os Estados Unidos rompe a adoção de posições tradicionais do país, como a não intervenção em conflitos internos de cada nação, resultando em maior isolamento. Além do teor ideológico, o Página 12 avalia que o endosso ao intervencionismo norte-americano é “acima de tudo econômico”.

“Eles o resgataram da corrida das taxas de câmbio na preparação para as eleições de outubro, depois houve uma interferência decisiva na época das eleições e hoje ele continua a precisar do respirador de Washington diante dos desequilíbrios de câmbio, comércio, turismo e falta de dólares”, escreveu o jornal. “Milei exagera todos os dias. Ele dança em Mar-a-Lago, residência de Trump, viaja mais para os Estados Unidos do que para qualquer província argentina e se dedica ao apoio de uma operação de guerra que tem pouco precedente na história das Américas. Um banho de sangue não é descartado e teria o endosso libertário”.