Escalada militar dos EUA não é somente contra a Venezuela, avaliam especialistas
Ao Democracy Now, Phil Gunson e Alexander Aviña desmentem argumento de narcoestado e criticam ações no Caribe; 83 pessoas já morreram
O analista Phil Gunson e o historiador Alexander Aviña fizeram duras críticas à escalada militar dos Estados Unidos no Caribe, em entrevista ao Democracy Now, nesta terça-feira (25/11). Eles rechaçaram a acusação do Governo Trump de que o presidente venezuelano Nicolás Maduro seria líder do grupo narcotraficante Cartel de los Soles.
Na segunda-feira (24/11), o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, visitou Porto Rico. No mesmo dia, a Casa Branca formalizou a acusação de terrorismo contra o Cartel de los Soles. Segundo o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, a medida oferece “um monte de novas opções” para as investidas militares norte-americanas contra Caracas.
Mais de 15 mil soldados norte-americanos estão na região, onde está atracado o maior porta-aviões do mundo, com navios, mísseis e aviões de guerra. As operações norte-americanas já destruíram mais de 20 embarcações, matando ao menos 83 pessoas, sem qualquer prova de ligação dessas mortes com o narcotráfico.
‘Não é só sobre a Venezuela’
De Phoenix, Alexandre Aviña, professor de América Latina na Arizona State University, afirmou que “este é um momento potencialmente realmente assustador”, ao considerar o movimento de Washington como “abertamente uma operação de mudança de regime” na Venezuela.
Aviña contestou as comparações feitas por analistas que classificam o movimento como potencialmente “limpo” ou de baixo custo. E lembrou o histórico sangrento da invasão dos EUA ao Panamá, em 1989. “As pessoas ainda estão cavando e procurando covas clandestinas de civis panamenhos que foram mortos”, afirmou, ao citar os bombardeios no bairro operário de El Chorrillo, considerado uma outra Guernica.

Escalada militar dos EUA ‘não é somente contra a Venezuela’, alertam especialistas
Alyssa Joy/Marinha dos EUA
Ele advertiu as que operações classificadas como de “combate ao narcotráfico” servem de pano de fundo para guerras sujas em toda a América Latina. “Há um plano mais amplo dentro do governo Trump para toda a região, não apenas para a Venezuela”, afirmou, ao lembrar o alerta do secretário de Defesa de que “para colocar a América em primeiro lugar, temos que colocar as Américas em primeiro lugar”.
O professor também destacou que a Casa Branca vem intervindo, publicamente ou nos bastidores, na Argentina, Honduras, México e Guatemala. “Cuba é o alvo final. Para esse movimento no sul da Flórida, Cuba é o ponto central de tudo que está errado na América Latina… e esse é o verdadeiro prêmio aos olhos deles”, acrescentou.
Cartel de Los Soles
Democracy Now também ouviu, diretamente de Caracas, o analista Phil Gunson, do International Crisis Group. Ele relatou um clima de intensa ansiedade na Venezuela. “Estamos numa situação em que há pouquíssimas companhias aéreas internacionais voando para dentro e fora da Venezuela… Estamos ficando isolados do mundo”, disse.
Gunson afirmou ser uma mentira a designação dos EUA sobre o Cartel do los Soles. “É um rótulo que tem sido aplicado nas últimas décadas, mesmo antes de Hugo Chávez chegar ao poder em 1999, a oficiais militares corruptos que recebiam dinheiro de traficantes de drogas”, explicou.
“Não é uma organização. Não é um cartel. Não é uma organização de tráfico de drogas. Chamar isso de cartel narcoterrorista é, francamente, ridículo”, disse.
“Essas pessoas estão nisso pelo dinheiro. Eles não pretendem enviar drogas para os Estados Unidos para minar a civilização ocidental”, reiterou, acrescentando que “a maior parte da cocaína que passa pela Venezuela vai para a Europa e não para os Estados Unidos.”























