Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Os Estados Unidos atacaram o território venezuelano na madrugada deste sábado (03/01) e sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a primeira-dama Cilia Flores. Durante coletiva de imprensa, concedida em Mar-a-Lago, na Flórida, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que ambos são acusados “formalmente, por sua campanha de narcoterrorismo mortal contra os Estados Unidos”; e não escondeu o principal interesse de sua administração no país caribenho: o petróleo.

Na avaliação da socióloga Rita Coitinho, doutora em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em integração latino-americana, a agressão coordenada por Washington na Venezuela “foi uma verdadeira ação de bandoleiros e de gângsters”, observando que “esses bandidos são a maior potência militar do planeta e dividem conosco o mesmo continente”.

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Em entrevista a Opera Mundi, ela destacou a consternação generalizada da ofensiva no sábado e avaliou ser “inacreditável” a entrevista coletiva de Trump e seu staff, destacando, em particular, a figura do secretário de Estado, Marco Rubio, “sem sombra de dúvida, o cérebro por traz desse ato de absoluto desrespeito com a soberania e a autodeterminação do povo venezuelano”.

Coitinho observou que a presença de termos como “Doutrina Monroe” e “interesses” saíram com facilidade da boca dos mandatários, mostrando ao mundo que o “‘sistema internacional baseado em regras’  que antes fora o canto de sereia com que os Estados Unidos propagandeavam o sistema internacional de que eram os principais fiadores foi definitivamente abandonado”. Com isso, ressalta, “impõe-se para a América Latina a lei do mais forte, o ‘big stick’ de Theodore Roosevelt revisitado, reinaugurando em nosso continente a política sem véus”.

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Nessa mesma linha, a analista de Relações Internacionais, Ana Prestes, avaliou que Trump pretende fazer da América Latina “um território de guerra”, desferindo também ameaças a países como Cuba e Colômbia, no âmbito de uma “escalada neocolonial” em sua agenda, composta de sanções unilaterais, ameaças públicas e, como vimos no dia anterior, até sequestros de presidentes eleitos de nações soberanas.

“E tudo isso está em consonância com a anunciada nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos que não passa de uma readequação da bicentenária Doutrina Monroe e um retorno à imposição de uma visão geopolítica de um mundo dividido em eixos ou campos de influência. Não deixa de ser também um ataque à Rússia, à China e aos países líderes do Sul Global”, explicou a especialista a Opera Mundi, criticando o ataque terrorista coordenado “pela dupla Trump e Marco Rubio”.

O professor Reginaldo Nasser, livre-docente na área de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), concorda com suas colegas e acrescenta que “desde setembro, quando o acordo de cessar-fogo em Gaza já era iminente, Trump já indicava a Venezuela como principal alvo dos seus ataques, dentro dessa premissa de que a América Latina deve ser mantida como uma área de influência dos Estados Unidos”.

“Essa é uma interpretação (da Doutrina Monroe) que foi seguida pelo (ex-presidente) Theodore Roosevelt (1901-1909), diferente da do (também ex-presidente) Woodrow Wilson (1913-1921), que é mais defendida pelo Partido Democrata, e que é mais voltada a buscar a hegemonia global”, acrescentou Nasser.

‘Terrorismo de Estado’

Membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Coitinho salientou que as mentiras usadas para “julgar Maduro” por um suposto tráfico internacional de drogas revelam “a nova faceta do terrorismo de Estado norte-americano, substituindo a ‘guerra ao terror’ das duas primeiras décadas deste século”.

Ela advertiu que os governos latino-americanos “que indiretamente contribuíram com a campanha de mentiras dos Estados Unidos, não reconhecendo o governo de Maduro e fazendo coro com as mentiras acerca de ‘tráfico internacional de drogas’ devem ficar atentos, afinal, não há nenhuma iniciativa soberana que esteja livre da possibilidade de ingerência dos Estados Unidos, agora de forma direta, sem rodeios”.

EUA abandonam sistema internacional baseado em regras, afirmam analistas
Reprodução vídeo / VTV

Por sua vez, do lado brasileiro, Prestes defendeu que o governo federal deve se posicionar “com muita iniciativa e protagonismo”, coordenando uma reação na América Latina como um todo, que incluam lideranças como o colombiano Gustavo Petro e a mexicana Claudia Sheinbaum, para impedir que a região se consolide como uma “zona de guerra”.

“Defender com altivez e contundência que os Estados Unidos não vão transformar nossa região em uma zona de guerra. Defender a soberania e a autodeterminação de cada país latino-americano. Defender nossa democracia, justiça, Parlamento e processo eleitoral das garras de Trump e Rubio, que querem promover um assalto às riquezas de nossas terras”, destacou.

Já Reginaldo Nasser acredita que, mesmo no projeto de Trump de reforçar sua influência na América Latina, “países como Brasil e México podem ter um tratamento diferenciado, pelo seu tamanho, por poder econômico e pela complexidade de ambas as sociedades, acho que são países que correm menos riscos, talvez mais ligados a sanções ou perseguições a personalidades específicas, como foi o caso do ministro (do STF) Alexandre de Moraes”.

Segundo o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, os países que devem se preocupar com o cenário surgido a partir do ataque à Venezuela são Colômbia e Cuba.

“Trump já deixou claro na entrevista deste sábado, deu um aviso diretamente ao (presidente Gustavo) Petro, dizendo que ele pode ser o próximo. Também há um recado muito forte a Cuba”.

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Por fim, sobre os possíveis desdobramentos da recente ação norte-americana em Caracas, Coitinho avaliou que o cenário ainda está incerto.

“Há indícios de colaboração interna, mas por enquanto tudo são suposições. Trump anunciou que os Estados Unidos controlarão o petróleo venezuelano e tutelarão um governo provisório, aparentemente, da vice-presidenta, Delcy Rodriguez”, afirmou.

Nasser também levanta dúvidas sobre essa possível colaboração interna venezuelana com o ataque norte-americano. “Ainda não há informações detalhadas, mas a forma na qual ele foi capturado é muito estranha. A Venezuela gastou US$ 6 bilhões em equipamentos de defesa da Rússia e não vimos esse sistema funcionando neste episódio, e as primeiras notícias dizem que não foi disparado sequer um míssil, foram vistos helicóptero voando a baixa atitude, não teve nenhum tiro”, comentou.

Coitinho completa observando que “não é possível saber ainda qual será a reação das Forças Armadas venezuelanas, nem sobre a disposição de resistência das lideranças do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Há movimento nas ruas, populares que pedem a volta do presidente, mas é ainda muito cedo para se saber qual será o desfecho”, observou.