‘Futuro da Venezuela é também o da América Latina’, diz historiadora
Para a venezuelana Anabel Díaz, resposta popular e continental será determinante para conter agressão militar e preservar a governabilidade do país
Os ataques e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos não foram apenas contra à soberania venezuelana, mas um episódio que coloca em disputa o destino político de toda a região da América Latina diante da nova ordem multipolar global. Essa é a avaliação da historiadora venezuelana Anabel Díaz.
Para a historiadora, o episódio expõe uma encruzilhada histórica: ou a América Latina aceita uma nova subordinação aos Estados Unidos, em moldes neocoloniais, ou responde de forma coordenada e continental para afirmar sua soberania. “O que está em jogo não é apenas a Venezuela, mas a posição da região no mundo que está se configurando”, afirmou a Opera Mundi.
Díaz sustenta que todas as hipóteses, incluindo falhas ou infiltrações no esquema de segurança presidencial, estão sendo investigadas pelos órgãos competentes. Ao mesmo tempo, destacou que o governo, agora liderado interinamente pela vice-presidente Delcy Rodríguez, ativou uma ampla estratégia que combina mobilização popular, unidade nacional e diplomacia internacional, com o lançamento de uma campanha global pela libertação de Maduro e da primeira-dama.
“A Venezuela não vai se render. Este povo não se entregará nem colocará seus recursos a serviço da sobrevivência de uma hegemonia em decadência.” Segundo ela, a resistência continuará até que seja garantida a soberania plena sobre o território e os recursos naturais, em benefício das atuais e futuras gerações.
Leia na íntegra a entrevista de Anabel Díaz a Opera Mundi:
Opera Mundi: gostaria de começar perguntando sobre a situação atual do país. Como os venezuelanos reagiram aos ataques e ao sequestro do presidente Maduro e da primeira-dama Cilia?
Anabel Díaz: o povo venezuelano mantém-se atento e mobilizado nas praças e nas ruas para exigir a libertação do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. O povo venezuelano está muito fortalecido moralmente, também devido — e apesar — da situação triste e difícil que estamos atravessando, porque os povos do mundo também têm manifestado seu apoio ao povo venezuelano.
Como avalia essa agressão militar dos Estados Unidos? Algumas análises não previam uma operação militar dessa magnitude.
É de conhecimento geral que o Exército dos Estados Unidos é obtém maior tecnologia, maior força, maior capacidade de fogo e também maior quantidade de homens em armas nesta parte do mundo, pelo menos neste continente. Eles atuaram antes do sequestro do presidente e durante os combates com a Guarda de Honra, que foram bastante intensos, fato que o próprio Donald Trump teve de reconhecer na coletiva de imprensa que concedeu na Flórida, ao admitir que haviam neutralizado todos os sistemas de comunicação e impedido a resposta defensiva do Exército venezuelano. Atacaram as antenas localizadas no cerro do vulcão, em Caracas, e as antenas da Base Aérea de La Carlota. Dessa forma, deixaram, por assim dizer, a Força Armada Nacional Bolivariana “cega” e puderam então penetrar com helicópteros que eles chamam de furtivos, capazes de enganar a defesa aérea. Após fortes combates com três batalhões conseguiram realizar o sequestro criminoso e ilegal do presidente Maduro e de Cilia.
No entanto, é preciso destacar que Trump já havia anunciado uma operação cirúrgica dessa magnitude para sequestrar o chefe de Estado. Esse era um dos cenários previstos. Ainda assim, o presidente havia assinado, dias antes, e deixado pronto um decreto de Estado de exceção por agressão externa, informando a comunidade nacional de que esse instrumento conferia aos poderes públicos a capacidade de reagir e garantir o funcionamento do Estado caso faltasse o primeiro mandatário. É esse recurso constitucional que está sendo aplicado agora, já previamente aprovado pelo presidente e agora ativado por meio do Tribunal Supremo de Justiça, órgão responsável por sua aplicação constitucional.
Podemos dizer que Trump alcançou parcialmente seus objetivos em relação à Venezuela, pois conseguiu sequestrar o presidente da República e exibi-lo como um troféu diante da opinião pública estadunidense, que em grande parte o aplaude. Para ele, isso representa uma conquista, sobretudo porque ainda tinha pendente o fracasso e o ridículo da operação Gideon, além da necessidade de justificar todos os custos da mobilização militar no Mar do Caribe. Cabe destacar também que houve manifestações dentro do território dos Estados Unidos contra a agressão à Venezuela e exigindo a libertação de Maduro.

Donald Trump e equipe assistem ao sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro
Reprodução/The White House
Na sua opinião, houve algum erro estratégico na segurança do presidente Maduro?
Falhas na segurança, infiltração no anel de proteção do presidente — todas essas hipóteses estão sendo avaliadas pelos órgãos de segurança do Estado venezuelano. Mas uma coisa precisa ficar clara: o Exército dos Estados Unidos compreendeu que não será fácil uma ação armada contra a Força Armada Nacional Bolivariana e o povo venezuelano. Estamos dispostos a responder. Eles alcançaram parcialmente seus objetivos neste momento, mas ativaremos toda a diplomacia de paz, toda a diplomacia possível. A mobilização popular e a manutenção da unidade nacional são fundamentais neste momento, assim como a resposta continental e a reação dos povos do mundo, para aumentar a pressão sobre um governo que já enfrenta sérios problemas de legitimidade, o de Trump, para que liberte o presidente Maduro.
A vice-presidente Delcy foi empossada como presidente interina pelo Tribunal Supremo. Poderia nos contar como está a situação atual do governo venezuelano?
O governo venezuelano está em plena operatividade. Os órgãos do Estado estão assumindo suas responsabilidades, a ordem interna se mantém no país e o povo continua mobilizado nas ruas, atendendo às convocações do partido, dos movimentos sociais e das lideranças da revolução. Ou seja, estamos coordenados para dar uma resposta e trabalhar pela libertação do nosso presidente.
Inclusive, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, concedeu uma coletiva de imprensa anunciando que, a partir desta segunda-feira (05/01), será retomada a normalidade, com o retorno das atividades laborais e, na próxima semana, das atividades escolares. O objetivo é restabelecer progressivamente a normalidade do aparelho produtivo e defensivo, mantendo-se atentos a qualquer nova agressão por parte do Exército e do governo dos Estados Unidos.
Como avalia o futuro da Venezuela?
O futuro da Venezuela — e talvez soe exagerado ou pouco humilde dizer isso — é também o futuro da América Latina, que está sendo definido hoje na Venezuela. Ou, como região e hemisfério, voltamos a ficar subordinados aos desígnios dos Estados Unidos, sob uma condição de neocolônias, ou nos unimos e avançamos como região, como bloco, ocupando um lugar com voz própria e peso próprio na nova multipolaridade que define o mundo atual. Essa é a resposta que precisamos dar: uma resposta coordenada e continental.
Que os Estados Unidos entendam que isso significará uma resposta continental dos povos, conscientes, mobilizados e decididos a não permitir que a região seja novamente subjugada por uma economia e uma política em decadência, por uma hegemonia decadente como a estadunidense. Trump não tem estatura moral para governar povos: um homem acusado de crimes graves, corrupto, que escapou do alcance da lei por meio do dinheiro obtido de forma ilícita, não possui legitimidade moral nem capacidade para liderar. Pode ter força militar, mas nós entendemos que a moral, a razão e a justiça estão do nosso lado. O povo venezuelano e os povos latino-americanos seguirão mobilizados de forma permanente até alcançar nosso objetivo: a soberania plena sobre nossos territórios e nossos recursos, em benefício dos nossos povos e do desenvolvimento das futuras gerações.
O povo já sabe o que fazer. Cada líder comunitário, territorial, chefes de comunas, chefes de rua e de comunidades conhecem suas responsabilidades. Neste momento, por exemplo, encontro-me na cidade de Barcelona, no estado de Anzoátegui. No dia dos bombardeios, às quatro da manhã, os chefes de rua, autoridades de governo e todas as pessoas que exercem cargos relevantes no município e no estado foram convocados. Todos já têm planos operacionais para garantir a ordem pública, os serviços públicos e a distribuição de alimentos. Trata-se de um povo preparado para uma guerra prolongada de resistência. A Venezuela não vai se render. Isso precisa ficar claro para o Exército dos Estados Unidos. Este povo não se entregará, e não garantiremos a sobrevivência de uma hegemonia decadente com nossos recursos. Isso lhes custará muito sangue.























