Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
APOIE
Menu

A centralidade do petróleo na economia venezuelana ajuda a explicar, segundo o professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) Danilo Caruso, os limites da ofensiva dos Estados Unidos contra o país. Para o acadêmico, uma ruptura abrupta do governo chavista criaria um cenário de instabilidade capaz de afetar a produção petrolífera no curto, médio e longo prazos – um desfecho que não interessa a Washington.

Nesse contexto, Caruso avalia, a estratégia mais eficaz para os Estados Unidos é pressionar a própria cúpula bolivariana, única com capacidade de conter ou administrar uma reação popular chavista. A opção do presidente Donald Trump por não forçar uma transição política no país reforça essa leitura.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Informação pronta para compartilhar
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize em Opera Mundi

“Toda a política e a economia venezuelana giram em torno do petróleo, desde princípios do Século 20, e agora não é diferente. O melhor cenário para os Estados Unidos imporem seus interesses é fazer a cúpula bolivariana ceder, inclusive porque só ela terá condições de evitar ou controlar uma eventual reação popular chavista. O fato de Trump haver descartado sumariamente a possibilidade de empossar María Corina Machado ou outro nome da oposição deixa isso claro”, disse a Opera Mundi.

Nesta terça-feira (06/01), o governo de Donald Trump disse, sem apresentar detalhes oficiais do suposto acordo, que a gestão interina de Delcy Rodríguez aceitou entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo ao país. Ainda não há confirmação por parte dos venezuelanos.

Mais lidas

De acordo com Trump, o petróleo do país sul-americano será vendido a preço de mercado, transportado por navios de armazenamento e descarregado em portos norte-americanos. O mandatário dos Estados Unidos disse ainda que ele será o responsável por controlar os recursos provenientes das vendas.

Segundo Caruso, a agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela deve ser compreendida a partir de interesses estratégicos mais amplos, que extrapolam o cenário interno do país e se inserem na disputa geopolítica global.

“Para além do gravíssimo ataque à legislação internacional, à soberania da Venezuela e à Revolução Bolivariana, trata-se também de uma sinalização explícita, para quem quiser ver, do papel que nos reserva o imperialismo, frente à ascensão da China: fazer de nós meras colônias, de modo a dar sustentação à hegemonia estadunidense. Hoje é o petróleo venezuelano; amanhã, nossas terras raras (ou nossos aquíferos, a Amazônia, etc)”, afirmou.

A fala de Caruso remete ao ataque militar perpetrado pelos norte-americanos contra o território venezuelano. A ação, na madrugada de sábado (03/01), resultou na morte de mais de 80 pessoas e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores.

O líder venezuelano e a primeira-dama foram levados ilegalmente a Nova York, no qual foram apresentados a um tribunal sob alegação de narcoterrorismo. O professor do IFRJ apontou as acusações apresentadas por Washington para justificar o sequestro “são completamente frágeis”.

pdvsa

Exploração do petróleo venezuelano está na centralidade da economia e política do país
Wilfredor / Wikimedia Commons

“Não há nenhuma prova de que realmente exista o tal Cartel de los Soles. Não há nenhuma evidência – além das ‘fontes anônimas’ do Departamento de Enfrentamento às Drogas (DEA), sempre citadas na mídia hegemônica – de que eles conformem um grupo articulado”.

O próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou a acusação de Maduro sobre liderança do Cartel de Los Soles, definindo-a, agora, como uma “cultura de corrupção” composta por altos funcionários civis e militares venezuelanos que “protegem e promovem o narcotráfico”, uma definição distinta da propagada por Trump meses antes da agressão militar.

Para o professor, é ainda menos plausível a acusação direta contra Maduro. “Menos crível ainda é a ideia de que Maduro faça parte dessa suposta organização criminosa”, afirma, ao destacar que o controle estatal sobre as divisas do petróleo tornaria desnecessário qualquer envolvimento com estruturas ilegais. “Não haverá nenhum ‘julgamento’ de Maduro, mas apenas uma condenação sumária e ilegítima”, avaliou.

Acordo entre Caracas e Washington?

Caruso comentou sobre as narrativas de um possível acordo entre Washington e setores do alto escalão militar da Venezuela. Ainda que essa percepção não esteja comprovada, ele destaca seu peso político. “Essa percepção, tendo ou não lastro na realidade, torna-se um fato político de enorme importância”, diz, ressaltando os desafios do novo arranjo de poder.

“Em termos pragmáticos, a ‘traição’ já é assunto corrente nas ruas e será ‘comprovada’ se o governo venezuelano ceder nos acordos que virão, referentes ao petróleo”. Para ele, o governo interino caminha sobre uma linha extremamente delicada. “Esse é o fio da navalha sobre o qual terá que se mover agora o governo interino”.

A soberania nacional, segundo Caruso, segue como elemento estruturante da identidade venezuelana. “Milhões votaram por Maduro, mesmo sabendo que isso implicaria na manutenção das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos”, frisou.

Para o professor, esse comportamento revela uma rejeição clara à submissão externa: “isso mostra a disposição dos venezuelanos em não se submeteram ao jugo externo”.