Na OEA, EUA dizem que petróleo da Venezuela ‘não pode ser controlado por adversários’
Caracas, que detém maior reserva petrolífera do mundo, responde por menos de 1% do mercado mundial do combustível devido à falta de estruturas para refino, que são encontradas em fábricas norte-americanas
Na reunião de emergência convocada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), nesta terça-feira (06/01), para discutir o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Washington declarou que o petróleo do país latino-americano “não pode ser controlado por adversários do Hemisfério Ocidental”.
O embaixador norte-americano junto à organização, Leandro Rizzuto, disse que seu país “não vai permitir que a Venezuela se transforme em um hub de operações para o Irã, Rússia, Hezbollah, China e agências cubanas de inteligência” porque “essa é a vizinhança dos EUA”.
O diplomata reproduziu a narrativa da Casa Branca de que os Estados Unidos não invadiram a Venezuela. Segundo Rizzuto, a operação tinha como objetivo a prisão de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, resultado de uma ordem judicial de um indiciamento criminal.
“Não foi uma interferência na democracia da Venezuela. Na verdade, a ação removeu o principal obstáculo para a democracia”, afirmou. “Queremos um futuro democrático para a Venezuela e pedimos a soltura imediata dos cerca de mil prisioneiros políticos”, acrescentou.
As declarações norte-americanas na OEA foram bastante similares às feitas no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), na última segunda-feira (05/01).
O representante dos EUA na ONU, embaixador Michael Waltz, disse que a ação em território venezuelano teve caráter jurídico e não militar. Na retórica estadunidense, houve “aplicação da lei, facilitada pelas Forças Armadas”. Assim, negou que seu país esteja em guerra ou ocupando a Venezuela.
Apesar de não ter mencionado diretamente o petróleo do país, disse que “não se pode continuar a ter as maiores reservas de energia do mundo sob o controle de adversários dos Estados Unidos e de líderes ilegítimos”.
O embaixador falou também sobre o papel de Washington em impedir que a Venezuela “se transforme no centro de operações do Irã, do Hezbollah, gangues, agentes de inteligência cubanos e outros atores malignos”.

Ter maior reserva de petróleo do mundo não significa ter acesso imediato a ela, diz especialista
IkerAlex10/Wikicommons
Venezuela no mercado mundial de petróleo
Apesar do interesse declarado dos EUA nas reservas de petróleo da Venezuela, o país latino-americano responde por menos de 1% do mercado mundial do combustível, mesmo detendo a maior reserva petrolífera do mundo, devido à falta de estrutura para refino.
Diante do cenário, o ataque dos Estados Unidos à Venezuela teve reflexos nas cotações do ouro e dólar, e também nos preços de comercialização do petróleo. Segundo especialistas ouvido pela Agência Brasil, essa volatilidade de preços, no entanto, tem caráter mais especulativo do que pela relevância do petróleo venezuelano para o comércio mundial do produto.
O Professor do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Alexandre Szklo, lembra que a Venezuela responde, atualmente, por “menos de 1%” do mercado de petróleo do mundo.
O especialista atribui essa pequena participação a dois motivos: o primeiro é relativo aos embargos impostos pelos Estados Unidos à Venezuela; o segundo é por conta das características do petróleo venezuelano que, por ser muito pesado, requer um tipo específico de refinarias localizadas no Golfo do México e nos EUA.
Ter a maior reserva de petróleo do mundo não significa, necessariamente, ter acesso imediato a esta riqueza. O processo de refino do petróleo passa por diversas etapas que começam em planejamento e pesquisas preliminares, para entender as características do produto a ser explorado em cada novo poço; até a extração, tratamento nas refinarias, distribuição e, por fim, sua comercialização.
“Hoje, a Venezuela produz e oferece muito pouco para o mercado internacional de petróleo. Uma coisa é seu potencial em produzir óleos, sobretudo extrapesados. Outra coisa é quanto ela de fato atende as necessidades mundiais. Atualmente, é menos do que 1%”, explicou o professor da UFRJ, referindo-se ao fato de que a maior parte do petróleo venezuelano está em reservas sem estruturas para exploração.
“O impacto de curto prazo da Venezuela no mercado internacional de petróleo, portanto, é bastante limitado”, complementou.
Além disso, há questões relacionadas às especificidades do petróleo que é majoritariamente encontrado na Venezuela. Segundo o professor, não são todas as refinarias que têm capacidade para refinar e tratar óleos pesados.
“Então, na prática, esse óleo acaba impactando muito mais nas refinarias de maior complexidade da costa do Golfo do México e dos Estados Unidos. [O petróleo venezuelano] atenderia potencialmente as refinarias de maior complexidade, localizadas na região”, complementou, explicando o verdadeiro interesse norte-americano na região.
(*) Com Agência Brasil























