Países africanos condenam ataque dos EUA à Venezuela: 'retorno ao imperialismo'
Governos, movimentos sociais e sindicatos pedem reunião urgente da ONU; partidos socialistas classificam ação como 'guerra por petróleo' e 'alerta para todo o Sul Global'
A invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em 3 de janeiro de 2026 provocaram uma onda de forte condenação em toda a África. Governos, partidos políticos, sindicatos, movimentos revolucionários e redes de solidariedade denunciaram a ação como uma flagrante violação do direito internacional, um retorno ao imperialismo do “força faz o direito” e uma perigosa escalada que ameaça a paz mundial.
Dos canais diplomáticos oficiais na África do Sul aos partidos socialistas na Zâmbia e na Tunísia, e dos sindicatos militantes às plataformas anti-imperialistas em todo o continente, as vozes africanas responderam com uma clareza e unidade incomuns.
A África do Sul, em comunicado oficial, o Departamento de Relações Internacionais e Cooperação solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, salientando que a invasão constitui uma “violação manifesta” da Carta da ONU.
O chefe da diplomacia do país, Clayson Monyela, expressou alarme e perguntou publicamente: “Onde está a ‘ordem internacional baseada em regras’? Voltamos à lei da selva?”.
O embaixador da Venezuela na África do Sul, Carlos Feo Acevedo, descreveu o ataque como “atos criminosos e terroristas claros” da administração dos EUA.
O Ministério das Relações Exteriores de Gana também divulgou um comunicado à imprensa, afirmando estar alarmado com a invasão unilateral e não autorizada da República Bolivariana da Venezuela pelos Estados Unidos da América e o subsequente sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Expressando fortes reservas contra o uso unilateral da força, deploram veementemente tais atos que violam a Carta das Nações Unidas e o direito internacional, bem como a soberania, a integridade territorial e a independência política dos Estados. Observam que as tentativas de ocupação de territórios estrangeiros e o aparente controle externo dos recursos petrolíferos têm implicações extremamente adversas para a estabilidade internacional e a ordem global. Também preocupam o Gana as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, de que os EUA “governarão” a Venezuela “até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa” e que as grandes empresas petrolíferas americanas serão solicitadas a “entrar”. Essas declarações remetem à era colonial e imperialista.
Sindicatos e movimentos da classe trabalhadora
O Sindicato Nacional dos Metalúrgicos da África do Sul (NUMSA) emitiu um comunicado à imprensa, condenando a invasão como uma operação ilegal de mudança de regime destinada a sufocar a Revolução Bolivariana e a se apoderar das riquezas petrolíferas e minerais da Venezuela.
A NUMSA enquadrou o ataque à Venezuela num padrão mais amplo de conduta imperialista dos EUA, ligando-o a sanções, guerras comerciais e à agressão econômica contra a própria África. O sindicato lembrou as tarifas norte-americanas sobre produtos sul-africanos, o colapso dos benefícios da AGOA e as medidas comerciais punitivas contra países como o Lesoto como prova de que a África também tem sido vítima do poder coercitivo de Washington.
Ao classificar o sequestro do presidente Maduro como um crime internacional, a NUMSA exigiu ação urgente dos BRICS, instou à resistência em massa ao imperialismo e alertou que a agressão desenfreada dos EUA levaria o mundo à barbárie.
“O mundo enfrenta hoje uma escolha drástica: barbárie capitalista ou socialismo”, concluiu o comunicado.
Partidos socialistas e comunistas de toda a África se manifestam
Em todo o continente, os partidos socialistas e comunistas reagiram com uma notável coerência ideológica.
Na Zâmbia, o presidente do Partido Socialista, Dr. Fred M’membe, condenou os ataques como um crime de guerra, descrevendo o desaparecimento do presidente Maduro como uma escalada perigosa. Ele afirmou que a operação foi motivada pela incapacidade de Washington de tolerar um governo que prioriza o bem-estar social em detrimento dos interesses de corporações multinacionais.
Na Tunísia, o Partido dos Trabalhadores denunciou o ataque como um ato de “banditismo e terrorismo de Estado”, alertando que a agressão à Venezuela abre as portas para a arbitrariedade internacional e espelha as guerras em curso na Palestina e no Oriente Médio. O partido enquadrou a invasão como parte de uma estratégia imperial mais ampla para reafirmar o domínio dos EUA sobre a América Latina, há muito tratada como o “quintal” de Washington.
O Partido Comunista da Suazilândia descreveu o bombardeio da Venezuela como bárbaro e reafirmou a solidariedade com a classe trabalhadora e o campesinato venezuelanos, declarando que a luta contra o imperialismo é inseparável da luta pela libertação global.
Solidariedade anti-imperialista e pan-africana
Plataformas revolucionárias e anti-imperialistas também se mobilizaram rapidamente. A Plataforma Mundial Anti-Imperialista convocou seus membros em todo o mundo a organizar protestos em frente às embaixadas dos EUA, emitir declarações de condenação e fortalecer as brigadas internacionais de defesa em solidariedade à Venezuela. Invocando o legado das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola, a plataforma lançou o lema “No Pasarán!”, declarando apoio inabalável à resistência venezuelana.
Em Marrocos, a Rede Democrática em Solidariedade com os Povos anunciou protestos em massa em frente ao parlamento, condenando o que descreveu como arrogância imperial dos EUA e de Israel e alertando que o sequestro de um presidente em exercício representa um desafio direto a todo o sistema internacional.
Na República Democrática do Congo, a Internacional Antifascista denunciou o ataque como uma tentativa imperialista de destruir o legado revolucionário de Simón Bolívar e Hugo Chávez, apelando à unidade global contra o capitalismo e a dominação imperial.
O ativista guineense Oyé Beavogui, falando em nome da Revolução Democrática Africana, descreveu o sequestro do presidente Maduro como um “sequestro de Estado” e um insulto histórico à dignidade e soberania dos povos latino-americanos.
Em comunicado, a Pan Africanism Today declarou sua solidariedade incondicional ao povo venezuelano, reafirmando seu apoio ao governo bolivariano e ao presidente Maduro, ressaltando que a Revolução Bolivariana é um movimento popular de massas que envolve milhões de pessoas, e não um projeto centrado em um único indivíduo. A organização também destacou que o ataque foi motivado por interesses venezuelanos. Traçando paralelos históricos, a Pan Africanism Today comparou a situação na Venezuela à intervenção da OTAN na Líbia em 2011. Argumentou que táticas semelhantes – sanções econômicas, propaganda internacional e força militar – foram utilizadas para desmantelar a soberania líbia, levando à instabilidade de longo prazo no Norte da África e no Sahel.
A Organização dos Povos da África Ocidental (WAPO/OPAO) também condenou o que descreveu como um ato de agressão inaceitável dos Estados Unidos contra a Venezuela, após relatos de um ataque militar e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa.
A WAPO afirmou que “condena veementemente este ato de agressão, que é contrário a todas as normas e princípios internacionais, em particular ao respeito pela soberania dos Estados independentes”.
O Movimento Socialista do Gana também emitiu uma declaração de solidariedade ao povo da Venezuela contra a agressão, afirmando que este é um momento decisivo que exige clareza, coragem e ação. A defesa da Venezuela hoje é a defesa de todos os povos que resistem à exploração, à dominação e ao controle imperialista. “A história nos ensina que o silêncio diante da agressão imperialista só a encoraja. Testemunhamos as consequências das intervenções na Líbia, no Iraque e na Síria: Estados destruídos, centenas de milhares de mortos, crises de refugiados e o florescimento do terrorismo. Nosso protesto coletivo hoje pode ser o fator de dissuasão que impede uma guerra em grande escala.”
Na África Oriental, a ação foi amplamente condenada por movimentos e partidos sociais, incluindo o Fórum Socialista da Tanzânia, que afirmou que a agressão constitui uma clara violação do direito internacional. O Fórum citou o Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial e a independência política de qualquer Estado, bem como o Artigo 51, argumentando que a Venezuela não representava nenhuma ameaça que justificasse alegações de legítima defesa por parte dos Estados Unidos.
O Partido Comunista Marxista do Quênia (CPM-K) emitiu uma declaração de solidariedade à República Bolivariana da Venezuela. O partido expressou “solidariedade militante e inabalável” ao povo venezuelano, às forças armadas do país e ao governo bolivariano liderado pelo presidente Nicolás Maduro. A declaração afirma que a Venezuela enfrenta um ataque imperialista que visa minar sua soberania e independência política.
Uma mensagem africana comum
As reações africanas convergem em torno de várias reivindicações fundamentais:
- A invasão da Venezuela pelos EUA é amplamente vista como uma grave violação do direito internacional e da soberania;
- O sequestro do presidente Maduro é descrito como terrorismo de Estado e uma escalada sem precedentes;
- Muitos atores africanos relacionam o ataque ao imperialismo de recursos, particularmente à riqueza petrolífera da Venezuela;
- Existe uma profunda preocupação de que as instituições globais, especialmente a ONU, corram o risco de se tornarem irrelevantes se tais ações não forem contestadas;
- O ataque é visto como parte de um padrão mais amplo de violência imperial, da Palestina à África e à América Latina;
Para grande parte da África, essa solidariedade é crucial porque o destino da Venezuela não é uma questão distante da América Latina, mas um alerta de como o poder imperial continua a operar contra qualquer povo que tente trilhar um caminho independente em defesa de seus recursos e soberania.























