'Trump não é um lunático, tem uma estratégia neofascista', diz pré-candidato à presidência da Colômbia
Senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, denuncia em Madri articulação geopolítica dos EUA para transformar a América Latina em 'inferno de guerra' e ameaçar soberanias
O senador colombiano Iván Cepeda, pré-candidato à presidência pelo Pacto Histórico – mesma coalizão que elegeu Gustavo Petro em 2022 –, afirmou que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, é o articulador de uma estratégia geopolítica neofascista que ameaça a soberania dos países da América Latina.
“Trump não é um lunático, ele tem uma estratégia neofascista”, disse, durante viagem à Europa, onde denunciou a ingerência estadunidense na região e alertou para os riscos de uma escalada autoritária global.
A declaração foi feita ao jornal espanhol elDiario.es, na quarta-feira (07/01), em Madri, após um encontro com a diáspora colombiana na sede do sindicato União Geral de Trabalhadores (UGT). No mesmo dia, o senador discursou diante de apoiadores e lideranças políticas locais, condenando a recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela – episódio que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores.
Cepeda alertou que a ação não deve ser interpretada como um fato isolado. “A intervenção militar em Caracas não é a primeira ação, mas a continuidade de uma escalada que vai do poder brando ao ataque violento”, afirmou. Segundo ele, a operação se insere em uma ofensiva geopolítica que pretende “acabar com os recursos naturais sem misericórdia” e transformar a América Latina em “um inferno de guerra”, rompendo com o princípio de que o continente deve ser mantido como zona de paz.
‘Não somos uma colônia’
Ao longo do discurso, Cepeda enfatizou a defesa da soberania nacional e rejeitou o papel que, segundo ele, os Estados Unidos querem impor à Colômbia. “Não somos uma colônia, nem um protetorado, nem sequer um dos governos incondicionais dessa potência”, declarou.
O pré-candidato também denunciou que o governo dos EUA incluiu Gustavo Petro em uma lista de narcotraficantes sem apresentar provas. Para Cepeda, a manobra busca interferir nas eleições presidenciais de 2026, com o objetivo de impedir a continuidade de um governo progressista no país. “Essa campanha contra nosso presidente Petro busca influenciar a opinião pública e deslegitimar a possibilidade de um segundo governo do mesmo campo político”, afirmou.
Durante sua fala, Cepeda ainda denunciou que vozes da extrema direita colombiana têm defendido abertamente a interrupção do governo antes do fim do mandato. Ele citou declarações recentes do ex-presidente Álvaro Uribe, que, segundo o senador, sugeriu a necessidade de uma “mudança de governo o mais rápido possível”, sem passar pelas urnas.

Iván Cepeda durante ato com a comunidade colombiana em Madri, na Espanha, em 7 de janeiro
Ivan Cepeda/X
Uma ‘internacional neofascista’
Para Cepeda, os ataques à soberania da América Latina fazem parte de uma reorganização global da extrema direita. “A extrema direita se converteu numa internacional neofascista”, disse, acrescentando que o projeto promovido por Trump representa uma ameaça concreta à democracia, à paz e aos direitos humanos no mundo.
O senador alertou que, além da Venezuela, países como Honduras e até mesmo territórios como a Groenlândia estão na mira da política geoestratégica estadunidense. A nova estratégia de segurança nacional dos EUA, segundo ele, assume abertamente a doutrina Monroe como base para restaurar a “preeminência” dos Estados Unidos sobre o hemisfério ocidental. “Essa doutrina retira sentido do direito internacional, liquida o princípio da soberania dos Estados e transforma as democracias em rituais vazios”, disse.
Cepeda também afirmou que Miami e o estado da Flórida se consolidaram como centros de articulação entre o supremacismo estadunidense e as extremas direitas latino-americanas. Para ele, “Trump não é um homem desequilibrado e emotivo, mas a expressão de uma realidade política que deve ser enfrentada com urgência”.
Chamada à mobilização
Diante desse cenário, Iván Cepeda propôs a criação de uma frente internacional contra o avanço do autoritarismo. Segundo ele, derrotar o neofascismo “não é uma consigna, mas uma condição para preservar a vida e construir um mundo verdadeiramente democrático”.
Ele afirmou que governos progressistas da região, movimentos populares e até mesmo setores democráticos dos Estados Unidos devem se mobilizar para impedir o avanço da extrema direita. “Nosso governo quer a melhor relação com o povo dos Estados Unidos, mas sobre as bases do respeito mútuo e da dignidade”, declarou. “Como futuro presidente da Colômbia, o que está acima de tudo é nosso honor, nossa liberdade, nossa independência e nossa soberania.”
Quem é Iván Cepeda
Filho do senador comunista Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994 durante a campanha de extermínio contra integrantes do partido político União Patriótica (UP), Iván Cepeda iniciou sua militância na defesa dos direitos humanos e da memória das vítimas da violência política. A morte do pai é tratada como marco fundador de sua trajetória pública.
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Nos anos 2000, foi um dos fundadores do Movimento de Vítimas de Crimes de Estado (Movice), articulação nacional que atua por verdade, justiça e reparação. Ingressou no Congresso em 2010 como deputado e, desde 2014, é senador.
Cepeda tem atuação destacada nos processos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e com o Exército de Libertação Nacional (ELN), e também é uma das vozes mais incisivas contra o ex-presidente Álvaro Uribe. Foi dele a denúncia que deu origem ao processo judicial contra Uribe por manipulação de testemunhas nos processos que o acusavam de paramilitarismo – caso que resultou em condenações judiciais recentes contra o ex-presidente.
Aos 63 anos, Cepeda foi escolhido em outubro de 2025 como pré-candidato do Pacto Histórico para disputar a presidência da Colômbia. “Temos todas as condições para buscar um segundo governo progressista”, afirmou ao ser indicado. Ele defende uma “revolução ética” como eixo de sua plataforma e promete aprofundar as transformações sociais iniciadas no atual governo.
























