O Natal em Yaroun, no sul do Líbano, após a ocupação de Israel
Sem energia elétrica, nem água encanada, moradores de vila libanesa reconstroem suas vidas após rastro de destruição deixado pelo Exército israelense
A entrada de Yaroun anuncia o nível de destruição das construções civis e o sofrimento dos seus habitantes – daqueles que morreram de ataques israelenses; dos que foram forçados a deixar suas casas, seus trabalhos, sua história e sua vila para trás; e também daqueles que, a despeito de tamanha devastação, voltaram para suas casas ou o que sobrou delas – depois da retirada de Israel, em 18 de fevereiro de 2025.
Sob o sobrevoo constante de quadricópteros israelenses, a reportagem de Opera Mundi esteve na vila de Yaroun, no sul do Líbano, localizada a pouco mais de dois quilômetros da chamada Linha Azul, uma ‘’fronteira’’ não oficial traçada pela ONU em 2000 para marcar e confirmar a retirada do exército israelense do território libanês à época. Na prática, a Linha Azul funciona como demarcação entre o Líbano e a Palestina Ocupada (Israel).
Dez meses depois da retirada de Israel, o cenário da estrada que leva à Yaroun é de cunho apocalíptico, fantasmagórico: as poucas casas que ainda permanecem de pé estão inabitadas e mantêm a numeração de tinta vermelha feita pelo exército israelense.
Do que um dia foi o centro da vila de Yaroun – de onde é possível avistar a Palestina ocupada, do outro lado do muro erguido por Israel a poucos quilômetros dali – emerge a latente aparência da intenção israelense de reduzir o local à condição de inabitável.

Yaroun, no sul do Líbano
Giovanna Vial / Opera Mundi
Além de escombros, ferros retorcidos, carcaças de carros e estilhaços, restos de pertences dos moradores emergem dos destroços da vila: uma bicicleta infantil vermelha, com as rodas deformadas pelo peso da casa que caiu sobre ela; um pequeno aviãozinho de brinquedo; um álbum de fotografias; um estojo do homem-aranha.
Por dentro da ocupação
Ao entrar em uma das poucas casas que ainda permaneciam de pé, a reportagem de Opera Mundi constatou indícios de que o imóvel havia sido utilizado como base por soldados israelenses durante a ocupação de Yaroun.
Incursões como essa exigem extremo cuidado já que é amplamente conhecida a prática do exército israelense de deixar artefatos explosivos e minas ocultas ao se retirar de territórios ocupados. Em fevereiro de 2025, uma mina deixada por forças israelenses dentro de um sofá, na vila de Tayr Harfa, no sul do Líbano, matou uma família de quatro pessoas, incluindo duas crianças.
No que antes havia sido o lar de um residente da vila de Yaroun, latas de alimentos consumidos pelos membros do exército israelense, descartadas no próprio local, acumulavam-se no espaço que um dia fora considerado uma cozinha. Os pertences dos ex-moradores estavam revirados: não havia uma única gaveta fechada ou intacta; um único canto da casa que não houvesse sido vasculhado ou saqueado. Documentos e objetos pessoais cobriam o chão do que antes funcionava como sala de estar.
Os dois banheiros, tomados por resíduos de fezes humanas, e colchões jogados no chão da residência, reforçavam os sinais de ocupação militar recente. Ao lado de um dos colchões, a reportagem encontrou uma peça de roupa íntima feminina deixada exposta no chão.
Símbolos religiosos destruídos
A dimensão da violência sofrida pela população de Yaroun é percebida não só pela destruição material de suas casas, mas também pelo ataque deliberado a símbolos religiosos e identitários daqueles que costumavam viver na vila. Em diversas residências, estátuas da Virgem Maria haviam sido decapitadas pelo exército israelense.

Em diversas residências, estátuas da Virgem Maria haviam sido decapitadas pelo exército israelense
Giovanna Vial / Opera Mundi
Da mesquita, restaram apenas exemplares do Alcorão – livro sagrado do Islã – parcialmente queimados. Já da igreja católica de Yaroun, sobreviveu apenas a estrutura externa: escadarias e paredes em que os moradores penduraram enfeites para celebrar o Natal.
A população da vila, que antes da invasão terrestre israelense em outubro de 2024 era de aproximadamente 2000 habitantes, era majoritariamente muçulmana xiita, mas Yaroun também abrigava uma minoria cristã católica significativa, representando cerca de 20% da população.
Entre as famílias cristãs que retornaram a Yaroun por ausência de alternativas para garantir sua subsistência, está a dos irmãos Nassim e Habib. Eles receberam a reportagem de Opera Mundi em sua casa, espaço que hoje dividem com a irmã e a mãe, de 89 anos.
Os irmãos relataram que voltaram à vila em abril, pouco mais de um mês após o fim da ocupação israelense, para retomar o trabalho de colheita e venda de azeitonas, atividade da qual dependem e que está diretamente ligada às terras que possuem na região.
Enquanto Habib oferecia café e biscoitos à equipe, Nassim explicou que os moradores que retornaram à Yaroun desde a retirada israelense não têm acesso à energia elétrica nem à água encanada, dependendo da compra de água e do uso de painéis solares para suprir necessidades básicas.
Nassim acrescentou que não há, até o momento, perspectivas concretas de reconstrução da vila, devido à falta de recursos financeiros da prefeitura. Na saída, os irmãos mostraram à reportagem projéteis encontrados no jardim de sua casa, remanescentes da ocupação.

Nassim contou que moradores de Yaroun não têm acesso à energia elétrica, nem à água encanada
Giovanna Vial / Opera Mundi
Continuidade da presença israelense
O caso de Nassim e Habib é uma exceção. A maior parte dos ex-moradores de Yaroun não pôde retornar às suas casas, como é o caso do brasileiro-libanês Youssef Salah e sua família.
“Eu, minha mãe e irmãs saímos de Yaroun dia 9 de outubro de 2023”, contou Youssef, de 38 anos, à reportagem. “Desde então, nossa vida mudou completamente. Agora nos dividimos entre Sour (cidade no sul do Líbano) e Beirute. Como a maioria da população, temos a preocupação de não poder mais voltar para Yaroun. Hoje a preocupação é de que Israel queira criar ali uma região sem casas ou população’’.
Apesar do cessar-fogo declarado entre o Hezbollah e Israel, em 27 de novembro de 2024, as forças israelenses só se retiraram de Yaroun e de outras vilas no sul do Líbano em 18 de fevereiro de 2025, permanecendo ainda em cinco pontos territoriais estratégicos da região, dos quais se recusaram a se retirar.
Em fevereiro, o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que, enquanto mantinha restrições ao retorno de civis a vilas do sul do Líbano, o Exército israelense destruiu dezenas de casas em Yaroun, entre 29 de janeiro e 5 de fevereiro. Não havia moradores na vila no momento das demolições, indicando que a destruição teve como objetivo tornar a área inabitável após a retirada israelense. Em 29 de janeiro, um soldado e três civis também ficaram feridos após serem atingidos por disparos israelenses.
Segundo a Legal Agenda, organização sem fins lucrativos de pesquisa e advocacy sediada em Beirute, 643 casas foram destruídas pelos israelenses em Yaroun, o que corresponde a cerca de 60% de suas residências. Deste total, 258 casas foram destruídas após o cessar-fogo iniciado em novembro de 2024. Um vídeo no Instagram, da conta oficial da vila de Yaroun, mostra o antes e depois da destruição deixada por Israel.
Em outubro de 2025, a UNIFIL, Força Interina das Nações Unidas no Líbano, realizou um levantamento geoespacial do muro de concreto erguido pelas forças israelenses, a sudoeste da vila; e constatou que ele se estende para além da chamada Linha Azul e tornou “mais de 4.000 metros quadrados de território libanês inacessíveis ao povo libanês’’.
























