Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Apesar da omissão aos combustíveis fósseis no documento final da COP30, a conferência em Belém foi finalizada “com um aceno positivo” dos países dispostos a trabalhar pelo “caminho da transição energética”, o chamado “road map”, avaliou Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

“Mais de 80 países, ou seja, quase metade das delegações presentes na COP30, estão dispostas a trabalhar para esse road map”, afirmou a Opera Mundi.

Segundo Baitelo, a realização de uma conferência na Colômbia, em parceria com a Holanda, em abril de 2026, focada na discussão de caminhos para o fim do uso do petróleo, é um indício dessa disposição. Além disso, até a Turquia assumir a realização da próxima conferência, a COP31, o Brasil preside a iniciativa. “Ainda há coisas a se desenrolarem. Não é o caso de nos prendermos ao papel do documento final, mas sim ver quais vão ser as iniciativas nos próximos meses”.

Para o especialista, com o fim do evento em Belém, analisar futuras propostas pode ser mais proveitoso, uma vez que “historicamente os pontos importantes nos acordos finais, como as NDC’s [Contribuições Nacionalmente Determinadas], que são voluntários, não são cumpridos”.

Segundo especialista, assuntos mais importantes da COP30 foram discutidos por fora do acordo final
Bruno Peres/Agência Brasil

Baitelo também explicou que essa continuidade da discussão pelo fim dos combustíveis fósseis — que almeja interromper o aumento da temperatura global — deve ser acompanhada porque, não apenas o Brasil, mas o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava apoiando a pauta.

Questionado por Opera Mundi sobre a dualidade do Brasil defender o fim do uso dos combustíveis fósseis ao mesmo tempo em que almeja a continuidade da produção e exportação de seu petróleo, inclusive para o mercado doméstico, o gerente de projetos do IEMA afirmou que “o que estava em jogo” em Belém era justamente o road map, o estabelecimento de um caminho para a transição dessas fontes de energia não renováveis.

A pressão e oposição à menção aos combustíveis fósseis vieram justamente de grandes países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita, resultando em dificuldades nas negociações para o acordo final.

“É bastante comum que as conferências atrasem. Não tenho registro de nenhuma COP que tenha terminado dentro do horário da sexta-feira, ela sempre estende até sábado ou domingo. Naturalmente, houve a questão do incêndio na Blue Zone [local onde ocorreram as negociações] que atrasou em seis horas a discussão”, disse sobre a prolongação das discussões para além do dia 21 de novembro e a publicação do documento final apenas no dia 22.

Para Baitelo, a situação não foi “necessariamente um impasse” porque “há visões e posições diferentes, especialmente entre blocos de países desenvolvidos e em desenvolvimento, desde o começo das conferências”.

Diante disso, o especialista analisou que os assuntos mais importantes da COP30 foram discutidos por fora do acordo final. “Apesar de mencionar a criação do Belém Action Mechanism (BAM), que vai endereçar a transição justa para os trabalhadores da indústria do petróleo, ou o aumento dos recursos para adaptação de países vulneráveis e em desenvolvimento, não há muitos pontos significativos nos textos produzidos nas conferências”.

“Eu diria que o mais importante foi discutido fora dos textos, como o aceno do presidente da COP, André Corrêa do Lago, em conduzir os road maps, para zerar o desmatamento do mundo, e o próprio Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) [iniciativa brasileira que reuniu 63 países e US$ 6,7 bilhões (R$ 36,18 bilhões) para financiar a preservação das florestas tropicais do mundo]”, afirmou.