‘COP30 mostrou que países estão dispostos à transição dos combustíveis fósseis’, diz especialista
Para Ricardo Baitelo, apesar da omissão ao fim do uso do petróleo em acordo final, conferência em Belém estabeleceu esforços para transição energética
Apesar da omissão aos combustíveis fósseis no documento final da COP30, a conferência em Belém foi finalizada “com um aceno positivo” dos países dispostos a trabalhar pelo “caminho da transição energética”, o chamado “road map”, avaliou Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
“Mais de 80 países, ou seja, quase metade das delegações presentes na COP30, estão dispostas a trabalhar para esse road map”, afirmou a Opera Mundi.
Segundo Baitelo, a realização de uma conferência na Colômbia, em parceria com a Holanda, em abril de 2026, focada na discussão de caminhos para o fim do uso do petróleo, é um indício dessa disposição. Além disso, até a Turquia assumir a realização da próxima conferência, a COP31, o Brasil preside a iniciativa. “Ainda há coisas a se desenrolarem. Não é o caso de nos prendermos ao papel do documento final, mas sim ver quais vão ser as iniciativas nos próximos meses”.
Para o especialista, com o fim do evento em Belém, analisar futuras propostas pode ser mais proveitoso, uma vez que “historicamente os pontos importantes nos acordos finais, como as NDC’s [Contribuições Nacionalmente Determinadas], que são voluntários, não são cumpridos”.

Segundo especialista, assuntos mais importantes da COP30 foram discutidos por fora do acordo final
Bruno Peres/Agência Brasil
Baitelo também explicou que essa continuidade da discussão pelo fim dos combustíveis fósseis — que almeja interromper o aumento da temperatura global — deve ser acompanhada porque, não apenas o Brasil, mas o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava apoiando a pauta.
Questionado por Opera Mundi sobre a dualidade do Brasil defender o fim do uso dos combustíveis fósseis ao mesmo tempo em que almeja a continuidade da produção e exportação de seu petróleo, inclusive para o mercado doméstico, o gerente de projetos do IEMA afirmou que “o que estava em jogo” em Belém era justamente o road map, o estabelecimento de um caminho para a transição dessas fontes de energia não renováveis.
A pressão e oposição à menção aos combustíveis fósseis vieram justamente de grandes países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita, resultando em dificuldades nas negociações para o acordo final.
“É bastante comum que as conferências atrasem. Não tenho registro de nenhuma COP que tenha terminado dentro do horário da sexta-feira, ela sempre estende até sábado ou domingo. Naturalmente, houve a questão do incêndio na Blue Zone [local onde ocorreram as negociações] que atrasou em seis horas a discussão”, disse sobre a prolongação das discussões para além do dia 21 de novembro e a publicação do documento final apenas no dia 22.
Para Baitelo, a situação não foi “necessariamente um impasse” porque “há visões e posições diferentes, especialmente entre blocos de países desenvolvidos e em desenvolvimento, desde o começo das conferências”.
Diante disso, o especialista analisou que os assuntos mais importantes da COP30 foram discutidos por fora do acordo final. “Apesar de mencionar a criação do Belém Action Mechanism (BAM), que vai endereçar a transição justa para os trabalhadores da indústria do petróleo, ou o aumento dos recursos para adaptação de países vulneráveis e em desenvolvimento, não há muitos pontos significativos nos textos produzidos nas conferências”.
“Eu diria que o mais importante foi discutido fora dos textos, como o aceno do presidente da COP, André Corrêa do Lago, em conduzir os road maps, para zerar o desmatamento do mundo, e o próprio Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) [iniciativa brasileira que reuniu 63 países e US$ 6,7 bilhões (R$ 36,18 bilhões) para financiar a preservação das florestas tropicais do mundo]”, afirmou.























