Naiara Araújo: Estou de quarentena em Madri com sintomas do coronavírus. Essa é minha história

Eu também achava que as pessoas estavam exagerando até perder o emprego, ver a Espanha parar e acordar com os sintomas do covid-19

Naiara Araújo

Madri (Espanha)

Eu também achava que as pessoas estavam exagerando até perder o emprego, ver a Espanha parar e acordar com os sintomas do covid-19. Meu nome é Naiara, sou brasileira e estou de quarentena em Madri há oito dias.

"Alô, João, aqui é a Naiara. Tô te ligando porque a gente combinou de você vir amanhã às 10h colocar o piso, mas eu queria te falar que estou com sintomas de gripe e até saber se é coronavírus acho melhor você não vir, tudo bem?"

"Claro, dona Naiara. Que bom que você me avisou, porque a empresa continua trabalhando, mas a gente fica com medo, né. Tenho filho em casa e a gente não quer trazer nada para eles. Muito obrigada mesmo por me avisar, melhoras."


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Desmarcar a obra no apartamento foi apenas uma das mudanças que aconteceram na última semana. A semana tinha tudo para ser normal. Comecei em um novo emprego na segunda-feira, dia 9 de março, e fui desligada da empresa três dias depois. O motivo? A agência fecharia por causa do famoso coronavírus. A partir daí, tudo ficou diferente. 

Quando eu ainda não entendia a gravidade do que estava para acontecer, comecei a sentir os sintomas do covid-19: febre, tosse seca, cansaço e dor nos pulmões. 

Aproveitei que os sintomas eram leves, fiz uma máscara caseira com um lenço de pano e dois elásticos e fui ao mercado mais próximo de casa, no centro de Madri, comprar itens básicos para ficar em casa sabe-se lá até quando. Encontrei quase tudo que costumo comprar. Peguei o último pacote de macarrão da prateleira, mas não encontrei o item mais disputado em tempos de quarentena: o papel higiênico. Precisei ir a três mercados para encontrar os rolinhos tão valorizados. Sozinha em um apartamento de aproximadamente 25 metros quadrados e sem estocar grandes quantidades de mantimentos, comecei o isolamento voluntário. 

Naquele dia, 12 de março, a orientação na televisão e na internet era clara: só deveria ir ao hospital quem tinha sintomas graves ou fazia parte do grupo de risco. Em caso de sintomas leves, a orientação era ligar e passar por uma triagem por telefone. Liguei diversas vezes e não consegui ser atendida. No dia seguinte, liguei assim que acordei, fiquei na espera por aproximadamente 15 minutos e finalmente me atenderam. 

Acervo Pessoal
'Também achava que as pessoas estavam exagerando até perder o emprego e acordar com os sintomas do covid-19'

Respondi às perguntas que me fizeram. Febre? Sim. Tosse? Sim. Consegue respirar fundo? Sim, mas com dificuldade. Visitou alguma zona de risco? Estive em Vitoria-Gasteiz há uma semana. Tem alguma doença do grupo de risco? Não. Teve contato com algum caso positivo? Não sei, no trabalho algumas pessoas apresentaram sintomas, e também peguei metrô nos últimos dias. 

A orientação foi continuar isolada, já que Vitoria-Gasteiz é considerada zona de risco e eu passei algumas horas na rodoviária da cidade. Além disso, eu teria que tomar paracetamol e aguardar o retorno dos agentes de saúde que viriam até a minha casa fazer o teste e confirmar se eu tinha o vírus ou não. Horas depois, tudo mudou na Espanha. Os números cresceram muito rápido, as pessoas estavam assustadas e o premiê Pedro Sánchez anunciou estado de alerta. Eu já não teria mais direito ao teste domiciliar, porque eles começaram a testar somente casos graves e do grupo de risco.

Meus sintomas foram intensos durante quatro dias, depois disso a febre baixou, no outro dia a tosse diminuiu e o que mais demorou a passar foi o cansaço. Cheguei a dormir quase 14 horas seguidas. A sensação de que o pulmão não está 100% ainda me acompanha, mas melhora a cada dia. O meu caso não foi confirmado, mas se eu tivesse que apostar, diria que sim, fui mais uma entre os milhares de contagiados. Hoje, na Espanha, amanhecemos com quase 20 mil casos confirmados e mais de 1.000 mortes. Não temos ideia de como os números estarão até o fim do dia, me assusta como eles crescem rápido. Na semana passada, falávamos em menos de 3.000 contagiados.


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Depois de uma semana em estado de alerta, as autoridades ainda precisam intervir para garantir a quarentena. A cada dia, medidas e mais medidas são anunciadas. Agora mesmo, só podemos sair de casa com destino certo: supermercado e/ou farmácia. Passear com o cachorro está permitido também, mas só uma pessoa por família. Quem ainda precisa sair para trabalhar precisa andar com uma justificativa da empresa.  

Mesmo com toda essa situação, algumas pessoas não respeitam a quarentena. A polícia está aplicando multas em quem está na rua sem razão. Todos os dias são anunciadas multas e detenções porque algumas pessoas insistem em não seguir as regras. Por enquanto, não é permitido sair para correr, para passear, para fazer visitas ou qualquer outra atividade. As escolas e universidades foram as primeiras a fechar. Os restaurantes, bares, lojas, museus, cinemas e teatros também suspenderam as atividades. 

A Gran Via de Madrid está vazia, não há turistas e alguns hotéis estão sendo usados como hospitais. Não é permitido ir para a casa de praia ou de campo. Parques e praias foram bloqueados. A regra é o isolamento imediato, por nós e por todos os outros. Alguns médicos daqui dizem que o remédio contra esse vírus é a solidariedade, porque isso só vai parar quando os contágios diminuírem e para isso precisamos que o maior número de pessoas fiquem em casa. 

Escrevo para vocês aqui do meu sofá, que é onde tenho passado a maior parte do meu tempo. Nós que estamos aqui ainda temos muitas perguntas sobre como as coisas ficarão depois que tudo isso passar, mas agora é a hora de fazer um esforço coletivo para resolver o único problema realmente grave: o avanço do coronavírus. 

Em relação aos sintomas, hoje me sinto muito melhor. O mais difícil tem sido aprender a lidar com o isolamento. É uma situação nova para todo mundo. Tenho conversado bastante com a minha família e amigos que estão no Brasil e também com os que estão pela Espanha isolados. Manter o contato me dá forças para esperar por mais um dia e por novas informações.

Tenho comida para mais uma semana e seis rolos de papel higiênico, ou seja, estou bastante tranquila com o abastecimento. Até agora, não estamos com nenhum problema de falta de alimentos ou produtos básicos por aqui. Só as máscaras e o álcool em gel que devem estar em falta em todo lugar. 

Hoje em dia, a minha única atividade fora do apartamento é descer o lixo. Sempre abro as portas com um guardanapo descartável, uso as escadas e não toco em nada. Mesmo estando sozinha, lavo a mão várias vezes ao dia. Faço a minha parte direitinho porque tenho saudade de sair na rua, encontrar as pessoas e fazer planos. Para cada dia em casa, penso que é um dia a menos nessa loucura toda. 

Em tempos de quarentena, a Espanha agora socializa batendo palmas na janela em agradecimento aos profissionais da área da saúde, todos os dias às 20h. Tem gente fazendo show na varanda e até cantando parabéns para os vizinhos aniversariantes, além dos shows, peças teatrais e aulas de yoga nas redes sociais. Tudo é válido para lembrar que, apesar da distância física, ainda temos uns aos outros. 

Meu isolamento começou há oito dias e o do país, há seis. O governo decretou estado de alerta por 15 dias, mas tudo indica que vamos precisar de mais tempo para virar essa página. Quanto tempo? Não sei. Por aqui, aprendemos a viver um dia de cada vez.


(*) Naiara Araújo é jornalista e vive em Madri há um ano e meio.

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